Ulysses

“Ninguém se importa!”

Ainda me lembro bem de quando, anos atrás, por algum motivo muito sério, eu cheguei atrasada no 1º dia de treinamento de uma empresa que havia recém me contratado. Todos já haviam se apresentado e, por iniciativa do facilitador, precisei fazê-lo também (apesar do meu constrangimento e timidez).

Um breve resumo da minha trajetória profissional até aquele momento e finalmente, me acomodei em minha mesa. Ao meu lado, se acendeu um sorriso e uma mão se estendeu para me cumprimentar. Era Ulysses.

Ulysses era um menino de origem humilde, nascido e criado no extremo da zona leste de São Paulo. A pele bem negra, me lembrava uma barra de Valrhona (um dos mais valiosos chocolates da confeitaria mundial) e destacava ainda mais seus dentes impecavelmente brancos, que brilhavam como a luz da lua.

Lembro quando, na empresa, alguém lhe perguntou sobre o por quê de se chamar Ulysses e ele respondeu: “Minha mãe me deu esse nome por causa de um livro, de um escritor irlandês chamado James Joyce.”.

Eu o ouvi respondendo isso e achei tão legal…

Ulysses irradiava alegria por onde quer que passasse. Cativava as pessoas com uma facilidade… Era respeitoso com as mulheres, gentil (sem segundas intenções) e, apesar de socialmente desenvolto, bastante discreto, sobretudo sobre sua vida pessoal.

Nunca o vi se lamentando ou se vitimizando por suas origens. Pelo contrário: ele me dizia sentir pavor de quem usa pobreza e etnia como justificativa de fracassos.

Não sei bem por quê, mas ele simpatizava comigo e era recíproco. Nascia assim a nossa amizade.

Certo dia, cheguei ao trabalho visivelmente triste. Havia acabado de passar por mais uma decepção e, cabisbaixa, não conseguia me concentrar no que fazia. Ele percebeu, mas não me disse nada. Apenas observou e aguardou que eu me sentisse à vontade para desabafar, caso quisesse. Esse era o nível de discrição dele.

Mais uns dois dias se passaram e eu continuava na bad, até que ele me perguntou se eu queria conversar. Senti um alívio imenso, porque havia três dias que eu sentia um nó na garganta, uma vontade de chorar sem conseguir.

Depois que contei a ele o motivo da minha tristeza, ele me contou sua história.

Ulysses tinha um irmão mais velho: exímio jogador no time de futebol do bairro, admirado pelos moradores, crush das garotas, filho primogênito querido. Até o momento em que se envolveu com uns “amigos” barra-pesada e trocou o futebolzinho do fim de semana pela vida loka do crime.

Não deu outra; o irmão de Ulysses entrou para as estatísticas e se tornou mais um corpo negro cravejado de balas, estirado no chão, aguardando a chegada do carro do IML. No velório, uma multidão: familiares, parentes vindos de outras cidades, os moradores, colegas dos tempos de escola, mas nenhum daqueles vida lokas que os acompanhava nas festas e nas “fitas”. 
Muitos choravam, lembrando que no caixão estava deitado aquele que um dia foi uma promessa do futebol do campinho de barro da vila.

Depois de enterrar o filho, os pais de Ulysses voltaram dilacerados para casa. Eles se perguntavam a todo instante onde foi que erraram mas, não havia mais o que fazer.

Ulysses se dividia entre a dor e a revolta com o irmão, por ter ignorado os conselhos de seus pais e agora, tê-los deixado naquela situação desoladora. Nesse dia, ele teve certeza de qual caminho seguiria.

“Uma semana foi suficiente para que toda aquela multidão presente no velório e no enterro se esquecesse do meu irmão. Ninguém mais além de nós se lembrava dele. Meus pais continuavam chorando, lembrando do filho que morreu; na verdade, nós três ainda lembramos de tudo (da comida preferida, das músicas que ele gostava, do dia do aniversário, de quando ele ainda era um menino legal…).” , disse ele.

“Eu vejo você aí, triste, calada, chateada por causa de um bosta que nem se importa se você sente alguma coisa ou se está sofrendo. Você é valiosa demais pra se preocupar com quem não vale a pena. A vida, infelizmente é isso: ninguém se importa com a dor dos outros. Ninguém se importa com a sua dor.”, concluiu.

Eu não me senti mais leve por saber que eu não era a única pessoa magoada nesse mundo. Eu senti vergonha de mim mesma por superdimensionar algo tão raso. O que era um pé na bunda dado por um otário? Naquele momento, eu percebi que não sentia tristeza; o que eu sentia era o meu ego ferido, isso sim.

E eu só fui entender isso quando o menino Ulysses me mostrou que o sofrimento é proporcional à importância que você dá a ele e que a vida segue, apesar da dor que você sente.

Obrigada, Ulysses, de verdade.