Não pesa no bolso

Com modelo de negócios colaborativo e proposta sustentável, a Dobra, marca de carteiras do interior do Rio Grande do Sul, entrou para o radar de altos executivos do Facebook

Por Luiza Terpins // Fotos Jorge Lepesteur

[matéria publicada na edição 192 da Revista da GOL, março 2018]

Quando você abre a carteira, quanto tempo leva para achar o que precisa? Ou, no caso dos acumuladores, quantos papéis desnecessários junta lá dentro? No que depender dos irmãos Guilherme, 23 anos, e Augusto Massena, 20, e do primo, Eduardo Seelig Hommerding, 26, perder tempo e espaço dessa maneira não deveria ser uma questão do dia a dia.

Há dois anos, eles criaram a Dobra, marca de carteiras que, de tão leves e finas em espessura, parecem de papel. Os acessórios são divididos em poucos compartimentos, o que também garante que o usuário leve apenas o essencial. “Um dos nossos objetivos é tornar eficiente a maneira de carregar dinheiro, cartões e documentos”, diz Eduardo.

Fundada em Montenegro, pequena cidade a 61 quilômetros de Porto Alegre, a empresa vendeu, só no último ano, mais de 40 mil itens, que custam a partir de R$ 49,90. São três modelos: o CNH, que leva esse nome em referência ao tamanho da carta de motorista, o RG, um pouco maior, e o old is cool, que mantém o design de carteiras tradicionais. Todos são feitos de tyvek, espécie de tecido fabricado a partir de fibras entrelaçadas, resistente à água e difícil de rasgar — não à toa, é utilizado pela Nasa para embalar diversos produtos usados nas viagens espaciais.

“As pessoas começaram a se questionar sobre os excessos e estão buscando ser mais precisas”, diz Henrique Diaz, diretor de conteúdo da Box 1824, agência de pesquisa de tendências. “Um dos motivos que explicam o sucesso da marca é o conceito do minimalismo, movimento que tem como proposta a simplicidade.”

A ideia da Dobra surgiu em 2013, quando Guilherme cursava gestão para inovação e liderança na Unisinos, em São Leopoldo. Para um trabalho da faculdade, precisava criar um produto e se inspirou na Mighty Wallet, marca americana de carteiras que ocupam pouco espaço. O que até então era apenas uma atividade acadêmica virou negócio quando o primo insistiu para que ele as vendesse.

Com investimento inicial de R$ 3 mil, o trio comprou equipamentos como máquina de corte e impressora simples e, nas horas vagas, entre as aulas e o trabalho, deu início à produção em um quarto no apartamento de Eduardo. As vendas surpreenderam: só nos dois primeiros dias, foram cem unidades.

Depois de três anos tocando a Dobra no paralelo, os irmãos e o primo passaram a se dedicar inteiramente ao business em 2016. Lançaram o site e mudaram a operação para a garagem de um imóvel da família, onde atualmente trabalham 17 pessoas. Hoje, são produzidas cerca de 4 mil unidades por mês, um crescimento de 1.377% em relação a 2016.

Guilherme, Eduardo e Augusto na sede da Dobra, em Montenegro (RS)

Primeiro corte

Desde o começo, o objetivo da Dobra ia além de apenas fabricar carteiras; o desejo era ter um propósito como marca. A sacada veio durante o curso de Futurismo na Perestroika, escola gaúcha de atividades criativas. “Nas aulas, chegamos ao nosso atual modelo de negócios, que é consciente e colaborativo”, conta Eduardo.

Os produtos, vendidos somente pela internet, são feitos à mão e sob demanda, o que evita o desperdício e elimina estoque. As carteiras também são 100% recicláveis — depois de usar, quem envia o item de volta para a Dobra recebe um desconto na próxima compra. No site da marca, há mais de 300 estampas, que vão de elementos da moda, como cactos e flamingos, a cores neutras e referências à cultura pop. “Hoje, 90% são feitas por artistas colaboradores. Eles ganham uma porcentagem sobre cada venda”, explica Augusto. Para Antonio André Neto, coordenador do curso Negócios Digitais da Fundação Getúlio Vargas, esta é uma boa estratégia. “Tornar colaborativo, além de engajar uma comunidade, contribui para a divulgação da marca”, diz.

Outra aposta dos sócios, esta mais ousada, é o compartilhamento dos moldes das carteiras na internet. Qualquer um pode baixar e fazer a própria — já foram mais de 30 mil downloads. “Acreditamos na transparência e temos como propósito deixar o mundo mais aberto. Tem gente que nunca comprou, mas fez em casa e nos manda feedbacks. No final das contas, nosso diferencial não é o produto, mas a essência”, conta Guilherme.

Eduardo com Augusto no colo, e Guilherme, em 1998, na casa dos irmãos

A iniciativa, além de fortalecer o relacionamento da marca com as pessoas, tem ajudado causas sociais como o projeto Identidade, de Recife, que dá aulas de alfabetização a jovens adultos. “A Dobra me autorizou a imprimir e vender as carteiras a um custo simbólico para arcar com os custos da ONG. Tem sido essencial para a gente”, conta a fundadora, Viviane Crigmam.

Outro exemplo aconteceu na última Black Friday. Enquanto a maioria das empresas deu descontos, a Dobra fez diferente: ao comprar uma carteira, quem enviasse o comprovante de doação a um projeto social de crowdfunding, ganhava outra. “Foram tantos acessos que o site até caiu. Em um dia, vendemos o equivalente a um mês. Conseguimos mais de R$ 25 mil em doações”, comemora Eduardo.

Conectados

Com uma linguagem descolada, a forma com que a Dobra se relaciona com os clientes faz sucesso na internet. As carteiras, embaladas em um papelão que vira cofre de mesa, são enviadas com um post-it escrito ou desenhado por um dos colaboradores da equipe. “É essencial que as empresas digitais saibam se comunicar e atrair a atenção do público que desejam atingir”, diz Antonio, da FGV.

A presença digital da Dobra chamou a atenção até de Sheryl Sandberg, CCO do Facebook, considerada uma das mulheres mais poderosas da tecnologia. Em setembro, ela fez um post contando como a marca é um exemplo de pequeno negócio que usa as redes para anunciar e vender. “Quando recebi a notificação no celular, não acreditei. Pensei que fosse um erro”, brinca Eduardo. O texto, curtido por mais de 2 mil pessoas, fez com que o trio recebesse mensagens de países como Índia e Estados Unidos. “Temos planos de internacionalizar, mas a logística ainda é um problema. O primeiro país a receber a Dobra provavelmente será Portugal”, conta.

Enquanto isso, os sócios trabalham para expandir a variedade de produtos. Depois de lançarem o porta-passaporte, há pouco mais de um ano, em fevereiro eles começaram a produzir camisetas com o bolso feito do mesmo material das carteiras. Este mês, também chegam ao site os tênis da Dobra, em parceria com pequenos calçadistas da região.

Apesar de já terem recebido contatos de possíveis investidores, eles pretendem continuar independentes. Guilherme explica: “Trabalhamos com um propósito que tira um pouco da margem de lucro. Se alguém entrasse com uma visão centrada apenas no retorno financeiro, acho que já teríamos brigado.”

p.s. — escrevi um texto contando os bastidores dessa matéria. Clique aqui para ler :)