Pedro Vilela, sócio-fundador da Rise Ventures

Após trabalhar em consultorias e fazer um MBA na Índia, ele abriu uma venture builder de impacto positivo

Luiza Terpins
Apr 25, 2018 · 9 min read

Quem

Pedro Vilela, 34 anos, nasci em São José do Rio Preto, interior de São Paulo, e moro na capital desde os 18 anos. Sou filho, neto, irmão de duas irmãs, amigo, administrador formado pelo Insper (antigo Ibmec-SP) e empreendedor. Gosto de cozinhar, de música, filosofia, de humanas e exatas, viajar, ler, assistir filmes, jam sessions, e de viver entregue à vida.

Amo negócios conscientes que aliam lucro ao impacto positivo — seja social e/ou ambiental. Fiz dessa causa a minha missão.

O que faz

Sou sócio-fundador da Rise Ventures, uma gestora de negócios (venture builder) de impacto que tem como missão promover a viabilidade financeira e crescimento de negócios com propósito positivo e potencial financeiro.

A Rise democratiza a inteligência de criação e execução de negócios por meio de gente, dinheiro e método. As empresas que escolhemos como sócias, além de potencial de lucratividade e crescimento, devem ter algum propósito que visa entregar

  • produtos/serviços relacionados ao consumo consciente/sustentabilidade,

e/ou

  • produtos/serviços essenciais e acessíveis para população de baixa renda.

O que fazia antes

Durante a faculdade, fiz estágio em algumas startups. Sempre gostei da realidade de empresas early-stage — era um dos pouquíssimos na época a querer empresas pequenas. Ao me formar, trabalhei em consultoria de estratégia e gestão, mercado financeiro, e empreendi meu primeiro negócio antes da Rise.

Viajei muito por quase cinco anos, conheci muitos países, e fiz um MBA na Índia (Indian School of Business). Depois de um período de dois anos em Londres, participando da fundação do escritório europeu da Integration Consulting, consultoria em que trabalhava, decidi voltar para o Brasil e começar a empreender outros negócios.

Formatura do MBA na Indian School of Business, em 2010

Quando deu o click de que era hora de empreender?

Sempre tive o ‘bichinho’ empreendedor :)

Quando era pequeno, pedia para minha mãe fazer pipoca para eu vender na frente do prédio, e todos compravam. Ganhava um dinheirinho. Também trocava e vendia minhas roupas e objetos — dei trabalho, haha.

Dos 8 aos 12 anos, trabalhei com meu avô como vendedor part-time em sua loja de material ortopédico (meu avô foi empreendedor a vida toda e trabalhou até falecer com mais de 90 anos). Foi um dos maiores exemplos para mim.

Eu tenho natureza para assumir riscos. Desde sempre pensei nisso, mas decidi seguir uma carreira antes de montar o primeiro negócio, até para acumular alguma experiência e uma primeira poupança.

Em paralelo a isso, meu perfil é muito questionador e crítico (muitas vezes além da conta, haha). Tenho um espírito de auto-evolução e, portanto, de evolução das coisas/pessoas/situações ao meu redor também. Impacto positivo vem daí.

Com meu avô, também Pedro Vilela, em 2010

Quais foram os primeiros passos para transformar a ideia em realidade?

Após trabalhar por 11 anos e empreender meu primeiro negócio no setor de alimentação (que desinvestimos no segundo ano), decidi fazer um coaching para que algo verdadeiro nascesse de dentro para fora.

Passei cerca de quatro meses com o Eduardo Seidenthal, da Rede Ubuntu, que aplicou uma metodologia incrível e me fez olhar para dentro com certos ângulos que fizeram a Rise nascer.

A primeira coisa que eu defini foi para quem (ou que causa) eu me colocaria a serviço. Daí, veio a definição de que só queria servir empresas que tivessem impacto positivo para o mundo.

Sei que essa questão é um pouco ‘grey zone’ para muita gente ainda, mas no fundo do coração sabemos que tipo de organizações são bem-vindas ou não para sociedade e meio ambiente.

Só de ter isso definido já me deixou tranquilo na época. Depois, uni o que gostava de fazer com o que sabia fazer — um pouco de consultoria, um pouco de mercado financeiro, e com muito viés de realidade por ter sido empreendedor antes — nada como passar por dificuldades para aprender certas coisas. Em seguida, criei a primeira versão de uma metodologia que, um ano depois de testar em um primeiro negócio, dar certo, e replicar para outros negócios, descobri ter princípios similares ao método utilizado no setor de venture building fora do Brasil.

Nós selecionamos negócios existentes (que também nos selecionam), fazemos um plano estratégico robusto, um valuation, trazemos a grana de investidores externos, montamos os times, implementamos o plano em conjunto com os empreendedores e fazemos os rounds de captação e crescimento. Lado a lado.

A Rise nada mais é do que uma estrutura que nos permite empreender em negócios que acreditamos, com pessoas que confiamos e amamos.

O trabalho é duro, principalmente por se tratar de empresas pequenas, de economia real e no Brasil — arena mais árida possível para se empreender. Mas acordo bem feliz a cada dia com a evolução de tudo e tenho um absoluto prazer de compartilhar essa jornada com pessoas incríveis — tanto na Rise quanto nas empresas do portfólio. Isso é o que vale no fim do dia. Brinco que a Rise é do universo, e que somos uma partícula que incendiou o início dessa missão.

Como é um dia de trabalho?

Essa é a pergunta mais difícil, haha. É muito complicado sumarizar a agenda de quem participa diretamente de quatro empresas early-stage. Basicamente, estou envolvido em todas as contratações, captações de recursos, projetos estratégicos dos negócios, reuniões e network relacionados a todos os setores que atuamos (café especial, alimentação plant-based, energia solar e investimentos de impacto).

Além disso, atuo na prospecção de novas empresas e empreendedores para formar pipeline para Rise. E tem também um bloco gigantesco chamado “outros” em meu job description (ser pau para toda obra e problema que surge e que demanda minha atenção nesse contexto de adrenalina).

Com o time da Wolff Café, uma das nossas empresas, na Semana Internacional do Café (SIC), em Belo Horizonte

O que você costuma fazer nas horas vagas?

Cozinhar, viajar para algum lugar com natureza, ler, estudar filosofia, tocar e ouvir música, beber com os amigos (sozinho também), ver filmes e me envolver em programas de cunhos mais diversos. Tenho amigos e colegas músicos, poetas e escritores, empresários, formadores de opinião ou não, de esquerda e direita, deficientes físicos e plenamente saudáveis, de todas as faixas sociais, e de muitos países. Sou um privilegiado não só por ter acesso a essa diversidade, mas de forma verdadeira e com muito amor/entrega da minha parte. Aprendo muito a abrir minhas próprias convicções com essa roda. Me dói não alocar mais tempo para isso, a rotina que criei acaba me puxando muito durante semana.

Com parte do time da Rise escalando a Pedra do Baú, e com a Amora, minha cachorrinha de 1 ano e 10 meses

O que te ajuda a ser mais produtivo?

•Sair de São Paulo uma vez por mês (geralmente alugo chalé na Mantiqueira e fico entre respirar aquele ar, tomar um banho de cachoeira, e fazer programas na natureza). Tenho um plano de alugar ou ter algum sítio lá um dia para dividir meu tempo, inclusive.

•Minha dieta plant-based me ajuda também (na época em que comia proteína animal, meu rendimento era menor).

•A escolha das pessoas que estão ao meu lado, que praticam a verdade em suas vidas e facilitam o erro/acerto/correção de rota. Não poderia ser mais grato pelo time de sócios e colaboradores das empresas.

Happy hour com parte dos times da Rise e da VeganJá, outra empresa do nosso portfólio

•Ter agenda minimamente blocada e organizada, e saber o top of mind das minhas prioridades da semana — e quais ‘pratinhos’ eu posso deixar cair da bandeja, sempre.

•Procurar ser o mais claro possível com os outros, praticar a verdade, ajudar na formação das pessoas para que cresçam em suas carreiras. Fazer esporte e meditação e não deixar de fazer o que é importante para minha vida fora da Rise (toda vez que abro mão disso impacta negativamente minha produtividade).

•Ter liberdade/autonomia de trabalho e prover o mesmo para as pessoas que sabem lidar com isso.

Em Hampi, na Índia

O que ou quem tem te inspirado?

Minha própria necessidade de construir meu caminho é a base de tudo. A Rise, os sócios e times das empresas, o crescimento e amadurecimento meu e de cada um ao meu lado também me inspiram a querer ser uma pessoa melhor a cada dia.

Depois, o movimento de impacto positivo como um todo: sentir que estamos ajudando, de alguma forma, a gerar acesso às pessoas e preservar meio ambiente. Gerar transformação positiva é uma grande inspiração.

Enquanto nossa espécie não entender que tudo é integrado, a busca por essa consciência continuará sendo uma grande fonte de inspiração para mim. Por fim, o crescimento e time de liderança da Integration Consulting, empresa que já tem mais de 20 anos e na qual trabalhei por quase oito, me inspiram muito. Provê um ar de ‘é possível, apesar das grandes dificuldades’, sabe? Lá eu tive o privilégio de participar de uma fase relevante do crescimento deles.

Quais são os maiores desafios de empreender na sua área?

Atrair e reter pessoas boas e competentes, pagando salários não tão distantes de mercado, e com planos interessantes de todos se tornarem sócios dessas missões.

Acredito muito que quase tudo (no mundo mais concreto) é feito por pessoas e para pessoas. Inclusive todos os movimentos. O nosso ecossistema de impacto não é diferente. Todo movimento começa com militantes, poetas, e românticos levantando uma certa bandeira. Chegou a hora de trazer mais gente de business mesmo para atuar em conjunto com a fundamental primeira onda de pessoas que iniciaram esse movimento no mundo.

Como estamos lidando com um ecossistema relativamente novo (se fala claramente sobre impacto positivo há cerca de 20 anos, no Brasil ainda menos), com a maior parte das empresas ainda frágeis do ponto de vista de caixa e tendo que sobreviver e se provar até a sustentabilidade financeira efetivamente, pessoas ultra-competentes (as melhores comportalmente e tecnicamente) são requisitadas dentro desse movimento. Tudo decorrerá disso.

O próprio movimento é muito legal, com ideias, pessoas e empresas geniais formadas e em formação, e acaba convencendo muito do ponto de vista qualitativo (propósito) ao longo do tempo. Lidamos com setores que estão no ‘edge’ da consciência, que demandam muita militância e educação (para incluir, distribuir e preservar recursos, etc.). Dinheiro para boas idéias, com a paciência necessária (patient capital), está e estará cada vez mais disponível para esse ecossistema.

Agora, precisamos trazer nossos melhores amigos e contatos para formar e fazer parte desse lindo movimento de mudança. Quando entrevisto alguém na Rise, costumo brincar: ‘bem-vinda(o) ao ecossistema de impacto, independente de você ser aprovado ou não aqui, vou te ajudar a se inserir nele”.

Poderia listar mais muitos desafios, no entanto, se resolvermos esse, o resto automaticamente vai se resolvendo ao longo dos anos.

Time da Rise em março: Daniel Madureira, André Bianco, Breno Gaspari, Catherine Bayer, Amanda Oliveira, Pedro Vilela, Caio Cruz e Tiago Longuini

Quem você gostaria que participasse dessa seção?

Penso em setores mais fora da caixa para dar uma diversificada no repertório:

  • Patrícia Soubihe (Escola Estrela Guia — centro de cura com diversas terapias naturais focadas em autoconhecimento e expansão da consciência — necessidade absoluta do mundo hoje);
  • Alberto Colares ou Helder Araújo (Kunumi — Inteligência Artificial aplicado a negócios que tem como missão desenvolver AI de forma responsável nos negócios — a 4a revolução industrial já chegou).

Um conselho a quem deseja tirar uma ideia do papel

Ataque problemas reais de verdade, não reais ‘na fantasia’, haha. Vejo muito isso. Depois, apresente a ideia aos seus amigos mais críticos e inteligentes, e seja aberto para ouvir de volta os desafios. Ser aberto não é fácil. Empreendedor costuma ser míope na própria convicção — já fiz empresa dar errado por isso e conheço muita gente que também fez.

Se mesmo sendo aberto a sua ideia passar e crescer dentro de você, veja formas de criar um MVP com o mínimo possível, prove que está resolvendo um problema real de verdade e gere demanda para o que pensa. Depois, pense em business plan, investidor ou qualquer outra coisa. Claro, existem ’n’ formas de se empreender, essa está longe de ser a certa ou única, mas é como eu penso, somente.


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Os desafios, trajetórias e bastidores de quem está no corre todos os dias para tirar algo incrível do papel

Luiza Terpins

Written by

Head de comunicação @ iDEXO; Criadora do No Corre; ex-Revista da GOL /// Empreendedorismo, inovação, startups e viagens.

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