Como só reciclamos 3% do nosso lixo?

A praia é NOSSA, mas o lixo é SEU.

Aparentemente, não aprendemos a forma de organizar nosso lixo e deveríamos, pois ninguém precisa ver o que a gente joga fora afinal e, veja bem, essa relação de cuidado vai muito além disso.

Deveríamos saber que descartar vidros, restos de comida e pilhas, por exemplo, necessitam de alguns cuidados diferentes entre si. Vidro fere, comida fede, pilhas contêm substâncias tóxicas… E o que não nos custa nada separar e sinalizar, ajuda muito as pessoas que diariamente somem com o lixo das nossas casas sem nenhuma magia. Pro mundo o que fazemos é pouco.


Somos irresponsáveis

Pelo ritmo de produção e consumo atual, a hora de repensar velhos hábitos já passou. Precisamos ressignificar o consumo e a vida: temos de mudar nosso comportamento, caso contrário uma economia circular nunca será possível.

De cerca de 30% do lixo que poderia ser reciclado, apenas 3% é. A geração de lixo no mundo tem aumentado em uma escala superior ao crescimento populacional, então o problema está além do descarte e garantir que nada seja desperdiçado começa com uma quebra de paradigmas.

Vivemos com base em uma cultura de irresponsabilidade… Muitos argumentos e pouco envolvimento definem a piora desse cenário. Nesse ponto, a teoria das janelas quebradas, que defende que um meio urbano deteriorado induz ao vandalismo (desordem cria desordem) faz sentido, pois retrocedemos quanto a capacidade de buscar soluções para problemas.

Abandonamos o pensamento reflexivo ao reproduzir ações de massa e nos condicionamos a dizer que se existe um problema é porque ‘Fulano’ o criou. Mas alguém criar nos impede de fazer algo?

O insulto favorito da internet — Ilustração: Franzisca Barczyk
Cientificamente falando, a sociedade precisa conhecer o efeito da “realimentação do erro”, o qual o filósofo e matemático Edward Lorenz chamou de efeito borboleta. — Monaliza Montinegro

O Brasil não tem uma cultura de planejamento. Não se cria futuro, se reza por ele e olhe lá.

Queremos soluções, mas não criamos nenhuma, esperamos que governantes criem. Em grande parte dos casos, mudanças na forma de agir só acontecem com medidas emergenciais. Quando entre crises ou por iniciativas “regadas à multas” governamentais, somos forçados a economizar água, reduzir velocidade, usar ecobag…

Se compensa mais fazer outro, por que reciclar? Por que arrumar? Por que pensar no amanhã? Temos um padrão econômico a seguir: fazemos - usamos - descartamos. Geramos resíduos e exploramos recursos naturais como se não houvesse amanhã e um sistema assim não se sustenta.


Nosso lixo ocupa o mundo

Dizem que ao falar de lixo precisamos pensar nos “4 R’s”: repensar, reduzir, reaproveitar e reciclar. Mas como dito pelo Marcello Pelizzolli, o ‘R’ de ressensibilizar pode ser “a raiz da coisa”… Sensibilizar as pessoas sobre a importância dessa questão está além da biologia, parece falta de empatia pelo todo.

Só em 2013, 8 milhões de cápsulas descartáveis foram produzidas e o número de cápsulas descartadas já era suficiente para dar a volta ao mundo 11 vezes. — Modefica

11 voltas ao mundo? Já estão cogitando 12… Então o cineasta Mike Hachey ficou muito louco e fez um vídeo sobre as cápsulas, além de ter criado um site chamado “Kill the K-Cup”.

Poluímos a cada café de cápsula descartável sem nos questionar sobre o ciclo de vida do produto. Não nos preocupamos com o ciclo de produção, transporte e uso das coisas… O que dirá quanto ao descarte. Importa algo se não garantem a extração correta das embalagens, nem consideram a emissão de gases tóxicos a céu aberto nos lixões e aterros?

Como abordado na matéria “E-Waste Empire”, graças à obsolescência programada e aos valores mais acessíveis, entre outros fatores, os produtos eletrônicos se tornaram o fluxo de resíduos com maior crescimento no mundo. A estimativa de lixo eletrônico global para o ano de 2016 é de 187 bilhões de libras…

A série do fotógrafo Pieter Hugo em um terreno baldio de eletrônicos, em Gana, expõe um dos resultados desse consumo excessivo.

Coisas diferentes têm descartes diferentes. Planejamento na hora de consumir ajuda, tanto quanto organização ao descartar e, nesse ponto, a Alemanha é bastante evoluída. Inclusive, Hamburgo se tornou a primeira cidade do mundo a proibir a venda e o uso de cápsulas de café nos prédios do governo.

Além disso, cada tipo de lixo é descartado de uma forma e conta com diferentes datas para coleta, sendo que os moradores têm um manual sobre como lidar com seu lixo. Não falta informação e sobre isso temos muito a aprender.

Por reciclar 80% de todo o lixo gerado no município, a cidade de Kamikatsu, no sul do Japão, também é um exemplo. Não existe mais coleta de materiais recicláveis, eles contam com uma central de triagem que recebe tudo limpo e separado em 34 categorias pelos próprios moradores. E mais: a central tem uma “loja circular”, onde é possível doar itens que outros moradores podem retirar sem nenhum custo.

Categorização e troca são medidas práticas de reciclagem e reutilização que fazem muita diferença no processo de descarte. Não é necessário ser um país de primeiro mundo, é necessário dar prioridade ao planejamento. Fazer mais.


Esse tal sistema que não se sustenta é o Capitalismo?

“O fim do capitalismo começou”. Foi com esse título que o economista inglês Paul Mason capturou a atenção de muitos interessados em entender as revoluções comportamentais em decorrência da crise não só econômica, como também social e ambiental, do capitalismo como o conhecemos, marcada pelo colapso de 2008. — Modefica

Com o Lowsumerism apontado como tendência de comportamento pelo Box1824, observamos que um sistema pós-capitalista a longo prazo têm suas chances. O crescimento de experiências com base em trocas pode ser o futuro: uma alternativa consciente e humana para a economia capitalista.

Movimento Lowsumerism

Como Paul Mason, autor do livro “Postcapitalism”, reflete, para que o pós-capitalismo seja possível como sistema, “nós precisamos mais do que apenas um monte de sonhos utópicos e projetos horizontais de pequena escala. Precisamos de um projeto baseado na razão, provas e projetos testáveis, que atravessa a lógica do sistema histórico e é sustentável pelo planeta. E precisamos começar com ele”.

Pra considerarmos a economia circular é preciso entender que ela também propõe restauração e regeneração. Conceitos como ‘do berço ao berço’, biomimética e design regenerativo propõem novas formas de integrar os processos industriais à natureza, mas pra que isso funcione é preciso mais do que tecnologia, precisamos mudar nossos conceitos. É tempo de mudar a lógica do passado e ter respeito pelo amanhã, porque se depender do agora… Entre o lixo e nós, não sei mais quem é quem.


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