Design post-mortem: Freud não explica

Freud disse que “somos feitos de carne, mas temos de viver como se fôssemos de ferro”, então penso, e quanto a morrer? Vamos dizer que me incomoda a ideia de um corpo que se esvai, aos poucos, com aquele prazo de validade bem similar ao de um produto, mas que ainda assim se mostra capaz de pôr um ponto final em uma história.

Mas como vemos e trabalhamos essa questão em nossa cultura? Produtos, experiências, eventos… Conteúdos. Como a imagem da morte e seus símbolos se relacionam ao nosso cotidiano?

A estampa de crânio humano foi hit em pelo menos quatro temporadas consecutivas nas semanas de moda entre 2008 e 2012. Alexander McQueen, estilista londrino, foi o responsável por tirar as caveiras do underground e levá-las para o universo de desejo e consumo de moda, bem como Alexandre Herchcovitch em solo nacional anos antes. Simples crânios que simbolizam sabedoria e até mesmo rebeldia, além da ambivalência da vida e da morte.

Essa fotografia de Tim Walker é o último registro do estilista Alexander McQueen em sua marca, que morreu em 2010.
No século 17, guerras e pragas a deixaram popular, a ponto de virar moda em pingentes, anéis etc. A mesma tendência voltaria no século 21. — Adriano Alves Fiore
Fumie desenha intervenções nas imagens distorcendo os conceitos de morte e beleza.

A artista japonesa Fumie Sasabuchi também tem sua abordagem do tema: a partir de anúncios de revistas ela manipula imagens de morte, beleza e vida.

Fumie registra sob a superfície da pele ossos, músculos e órgãos visíveis em retratos humanos de modelos internacionais, desconstruindo assim o próprio conceito de beleza. O resultado são imagens híbridas de corpos que unem a publicidade e o naturalismo clínico de estudos anatômicos.

Seu trabalho chegou a ser exposto nas Galerias Zink, em Munique e também em Berlim.

No cinema a morte também aparece com recorrência nos roteiros e em formatos simbólicos. O cineasta americano Tim Burton costuma contar histórias que envolvem morte, perdas, horror e melancolia, porém com um estilo único no quesito design, aliado a conceitos de humor e afetividade. Burton conseguiu popularizar e dinamizar o assunto em outros meios de forma leve, alcançando assim um grande público.

Os fantasmas se divertem (Beetlejuice, 1988)

Outro criador e intérprete da sétima arte que trabalhou a morte e o terror como tema, desta vez em solo nacional, foi José Mojica Marins, mais conhecido por seu personagem Zé do Caixão. Zé do Caixão alcançou o mainstream graças a sessão Cine Trash na televisão brasileira, o que lhe rendeu visibilidade suficiente para alcançar o patamar de cineasta cult, após anos de proibição de seus filmes na época da ditadura militar. Vale citar que ambos os cineastas ganharam mostras no MIS (Museu de Imagem e Som), em São Paulo, recentemente.

A morte como tema no design tem vida longa, assim como na arte, no cinema e etc, mas a história das caveiras com adornos, tão revisitada atualmente na decoração e no design de produtos, entre outros, está relacionada diretamente a cultura mexicana: o famoso Dia de los muertos, que é celebrado no país como em nenhum outro.

O que é considerado macabro na maioria das culturas do mundo, no México é motivo de festa. O ‘Dia de los Muertos’ tem origem nas civilizações indígenas. Entre todas as crenças e tradições destacam-se as da cultura asteca, que dedicavam grandes cerimônias a seus mortos, durante as quais ajudavam os mortos a chegar ao seu destino final e era celebrado no dia 3 de outubro, mas foi modificado na chegada dos espanhóis, passando a coincidir com o Dia de Finados em 2 de novembro. — Tamára Baranov
Via Papo de Homem

Apesar de citar a festa dos mexicanos, a cultura mais excêntrica que tive o prazer de conhecer através de um único texto, escrito por Naomi Melati Bishop, é a da tribo Tana Toraja, na ilha de Celebes, na Indonésia. Não pelo dia de Finados, mas por conta do estilo de seus funerais… Seria interessante se você pudesse ler depois aqui, na íntegra.

“A alma ascende. O corpo é só uma vestimenta.” — Agustinus Galugu

Em Toraja, normal é alimentar todos os dias um parente falecido e mantê-lo embalsamado em sua casa, às vezes até dez anos após a morte. Os cadáveres são tratados como se estivessem em repouso até que a família tenha condições de arcar com um funeral apropriado — Um ritual de purificação. As cerimônias mortuárias do banquete da morte, conhecido como Rambu Solo, que dura seis dias, chegam a custar 500.000 dólares dependendo da casta envolvida.

Cadáveres em sepulturas nos penhascos. Crédito: Aaron Purkey

Uma das coisas que evidenciam a grande diferença entre a cultura da tribo Tana Toraja e nós, ocidentais, é o pensamento que Naomi registrou como: “parecemos não ter tempo nem para cuidar de nossos parentes vivos. Quanto mais os mortos”. E isso só pode ser muito revelador no que se refere aos estigmas que temos sobre as diferenças no viver e morrer de cada cultura.

Essa obsessão pela temática morte é explicada pela professora norte-americana Sarah Lauro como um fenômeno nada aleatório ou prejudicial, mas sim parte de uma tendência histórica que reflete insatisfação cultural e mudanças econômicas de uma sociedade infeliz. Visto por Sarah como uma alegoria óbvia da sensação de se estar, de certa forma, morto, o tema zumbis, por exemplo, é temática de interesse quando a sociedade se sente impotente. Segundo a acadêmica, “quando vivenciamos uma crise econômica, a maioria da população se sente desestimulada. Tanto se fantasiar de morto quanto assistir uma série como The Walking Dead oferece possibilidades de válvula de escape às pessoas”.
Tristes ou não, a moda da morte é no mínimo inusitada em uma sociedade que o assunto ainda é tabu. Ou seria essa uma nova forma de encarar a única certeza da vida? O fato é que caveiras e zumbis já não são mais exclusivos de filmes de terror e vivem entre nós, na moda e em produtos pop para todos os gostos. Como canta Sir Paul McCartney “live and let die”! — Nanda Miranda

A moda da morte tende a desmitificar o tema?

Sim, não, talvez, não sei opinar… Mas na prática, o que você espera para o seu corpo, para sua família, para o seu país? O que é possível nesse universo? Não custa refletir.

Ver um filme, comprar um produto e/ou admirar um trabalho está além do tabu em alguns momentos, mas dizer pra sua família que você rejeita a ideia da utilização de um caixão padrão no momento do seu próprio enterro (e que cremação também não é uma opção) soa como piada. Afinal, até então você não tem muita escolha, tem?

Pra nós, o “aqui jaz fulano lacrado em uma gaveta” é sofrido — Assustador por vezes, natural em outras. Depende do que significa pra você: o ato e o ser humano em si.

Considero uma angústia válida quando se vive em uma era onde memórias se esgotam em meses, semanas… Memórias de uma forma geral. Não se trata apenas de lembranças, mas se te perguntassem algo mais “consciente” do tipo: “você quer que uma parte de você continue a viver?” ou “você gostaria que a vida dela (pessoa) fosse transmitida (pra algo)?”, acredito que afirmativas surgiriam… Mas por quê?

A ideia que vasculho corresponde a um anseio de utilidade capaz de nascer a partir de um ponto final. E afinal, morrer é um clichê, então como inovar? Bom, se o prazo venceu ao menos a embalagem permanece pronta para reciclagem, certo? Então bingo! Só que dois designers espanhóis pensaram antes de nós… Sim, designers: pessoas que pensam novas possibilidades.

A parte de toda essa conversa existencialista, Martin Azúa e Gerard Moliné criaram um projeto que visa uma alternativa ecológica e inteligente em substituição a túmulos tradicionais, considerando o problema da ocupação urbana e a já atual lotação dos cemitérios, ainda que supra, ao mesmo tempo, o anseio que expus acima.

Urna Bios

Os designers desenvolveram a Urna Bios, feita de casca de coco, celulose, turfa compactada e sementes a gosto do freguês (vide familiares ou escolha prévia), que somada às cinzas da cremação então depositadas, passa a atuar como um adubo orgânico que se desintegra facilmente na natureza.

Resultado: o corpo se funde a uma árvore e assim a vida prossegue. É muita poesia, Braseeel.

Segundo Azúa, “a Urna Bios reintegra o homem ao ciclo de vida natural. É um ritual laico de regeneração e volta à natureza”. Aqui no Brasil o Crematório Vaticano, localizado no Paraná, também produz urnas ecológicas, só que diferentemente essas são construídas em papel machê e areia, além de serem pintadas com pigmento de urucum e virem acompanhadas de sementes de árvores nativas.

A morte é uma etapa natural da vida. Faz parte do processo biológico do ser humano. Mas para muitas pessoas, este ainda é um tabu. A experiência com velórios, enterros e caixões torna tudo mais traumático e doloroso. — Suzana Camargo via Superinteressante

Outra proposta nesse sentido é o Capsula Mundi. Um projeto cultural de base ampla, que prevê uma abordagem diferente para a forma como pensamos sobre a morte. Basicamente, é um contêiner oval construído com material biodegradável, onde os corpos são colocados.

Capsula Mundi

As cinzas são organizadas em cápsulas enquanto o corpo é disposto em posição fetal nessa forma maior, que é enterrada como uma semente. Uma árvore, escolhida ainda em vida, é plantada em cima dela com a finalidade de atuar como um memorial que a família pode visitar e cuidar.

Associazione Capsula Mundi

Essa sustentabilidade post-mortem surge em resposta a uma necessidade física relacionada à espaço e qualidade de vida, então não me parece tão estranho pensar que haja pessoas projetando trajes funerários com a finalidade de reduzir o impacto ambiental, investindo em caixões de papelão reciclado ao invés urnas de madeira que são feitas com cerca de três árvores e podem levar até treze anos para se decompor, ou até que se debata sobre qual é a maneira mais ecológica de se despedir de alguém… Enterro ou cremação?

Pontos negativos em quaisquer das opções, há até quem pense em não vestir os corpos ou que indique a utilização de trajes confeccionados com fibras naturais. E que tal os cemitérios fotovoltaicos? Sem lápides de concreto e com auxílio da tecnologia, placas fotovoltaicas poderiam produzir energia para cidades ao utilizar o espaço das necrópoles e a reflexão da luz do sol, proveitoso?

É promissor pensar que projetos dessa espécie possam impulsionar discussões e decisões de caráter humano, mesmo sabendo que até mesmo questões corriqueiras, como doação de órgãos, não recebem a atenção que deveriam em nosso país.

Ação da Leo Burnett para a ABTO (Associação Brasileira de Transplante de Órgãos)

Reintegração seria uma conscientização em maior nível? Talvez essas ideias se tratem de um melhor gerenciamento de ações, motivado essencialmente pelo ideal de continuidade da vida, como uma vantagem extraída de um adeus.

Iniciativas destacadas com tags de ecodesign ou psicologia da evolução são bem-vindas, afinal esse lance de “reintegrar o homem a natureza” caminha em passos lentos mesmo, e principalmente, nessa década onde Feliciano’s não nos representam e projetos verdes morrem no papel por se tratarem de altos investimentos em longo prazo, mas…

Ceren Bülbün
A natureza ainda é o melhor designer que conheço. — Luigi Colani

Apesar do tabu em se falar sobre morte (independente do campo de estudo e atuação), não creio que seja desrespeitoso desconstruir o formato da despedida. Depende do roteiro que nos venderam, da crença que temos, da educação que nos ensinou o que é padrão ou não. Do que você interpreta.

A individualidade, inerente ao ser humano, aliada às necessidades atuais e futuras deveriam permitir de antemão novas possibilidades. Contestar, depois de conhecer e respeitar a compreensão de cada um não é o problema.

Conversar sobre, criar e propor são políticas construtivas, geográfica e talvez até mesmo sentimentalmente falando, diferente da hipocrisia que é o fato de: acessarmos mídias que não se comprometem com mudanças, ao estabelecer velhos paradigmas culturais, mas que…

Vendem conteúdos práticos com ênfase em tragédias. Desgraça vende, mudanças morrem no papel. E o ambiente? Não está, nem nunca esteve em primeiro plano.

Cada família apresenta uma compreensão particular a respeito dessa temática, rituais diferentes, em função de seus padrões específicos de expressar pensamentos, sentimentos, sensações físicas e comportamentos, que devem ser respeitados, mas simultaneamente atualizados. Atualizados porque, às vezes, repetimos sem questionar padrões de atitudes diante da morte, vivenciados por nossos antepassados, como legados a serem reproduzidos e que podem ser considerados patológicos. É muito importante, portanto, que você seja o protagonista de sua própria vida. — Virgínia Suassuna

Não sei se vamos ter consciência e responsabilidade social independente do custo Brasil e de velhos costumes. Me pergunto, quando vamos nos adaptar as novas necessidades do mundo com a mesma velocidade a que nos adaptamos as novas tecnologias e produtos desejo, por exemplo, pois deveríamos, afinal até o planeta mostra que parte de uma condição evolutiva, bem como as espécies… As coisas mudam e é preciso parar pra pensar sobre.

Arte de Patryk Hardziej.

A morte é mais que um símbolo, uma história, uma referência de design. Existe porque a vida existe, sofremos por nutrir amor, temos apego ao nosso cotidiano e aos nossos costumes… Vivemos pra morrer em um ciclo que pouco muda — E nesse caso, tudo bem. Como já disse, o designer (de moda), Ronaldo Fraga:

Via @creativeboysclub.
“O amor e a morte equiparam as pessoas. Diante deles, a diferença social não vale nada. São as duas histórias que nos humanizam.”

Humanizar, tá aí outro tema pra se desmitificar, mas vamos deixar essa conversa pra outra hora…. Enfim Freud, sem necessidade de maiores explicações, um dia quero morrer como árvore, ou viver se assim lhe parece, vou inverter uma outra colocação sua e “existir onde não penso”. Já que vai acontecer, cheguei a conclusão de que espero viver e morrer por coisas maiores (com conceitos melhores) — Espero que vocês também. Apegos à parte, que o design nos ajude.


Pra acrescentar, no quesito “a morte como tema”:

O número 163 da revista mensal eletrônica de jornalismo científico ComCiência, apresentou como tema da edição: “Finados”. A edição trouxe alguns links interessantes pra quem quiser buscar algo além a respeito, então resolvi transcrever alguns:

Artigos:

A morte como tabu | José Carlos Rodrigues

Uma nova forma de luto: os efeitos da revolução tecnológica | Regina Szylit Bousso, Maiara Rodrigues dos Santos, Fernando Bousso e Regis Siqueira Ramos

A morte: relações com a bioética e a religiosidade | Paulo Franco Taitson e Laura Raiany Tereza Freitas Gomes

Diálogos entre a vida e morte nos filmes de zumbis: aproximações e disrupções | Paula Gomes

Reportagens:

Transplante de órgãos no Brasil: questões éticas e legais | Gabrielle Adabo e Roberto Takata

A arte de festejar e ritualizar a morte | Ana Paula Zaguetto e Janaína Quitério

O direito à morte | Carolina Medeiros

Morte em números: as principais causas de óbito no Brasil e no mundo| Tatiana Venancio


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