Importa pro seu cotidiano ou pra sua vida?

Relações baseadas em ‘vamos marcar alguma coisa’


Siga: Newsletter, Facebook, Twitter & Linkedin

Acho meio curioso quando pessoas que tiveram certo grau de proximidade, intimidade ou mesmo intitulado uma vivência de a-mi-za-de, de repente, parecem apenas estranhos. Alheios de uma relação que foi embora com o tempo. Calma, não quero falar de poesia, mas precisamos falar sobre afeto, socialização ou coisa que o valha.

Sempre senti certo desconforto em ver aquele tipo de espontaneidade clássica da infância se transformar em diplomacia, sem um motivo aparente ou algo assim.

Então me pegava pensando se eram casos isolados com um pouco de analogia, até que entre uma conversa e outra couberam reflexões sobre as tais mudanças comportamentais da sociedade contemporânea, estudadas cientificamente e nas melhores padarias da cidade.

“Sadness” by Merve Ozaslan

Há um tempo atrás, a Obvious publicou um artigo, escrito pela Gisele Betsy, que fala um pouco sobre a linha de estudo do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, autor do livro “Amor líquido” entre outros. Bauman, que é um dos pensadores mais respeitados da atualidade, já tentou mostrar a nossa dificuldade de comunicação afetiva, considerando que todos aspiram se relacionar e muitas vezes não conseguem, por questão de medo ou insegurança, ainda que isso pareça confuso.

É um mundo de incertezas, cada um por si. Temos relacionamentos instáveis, pois as relações humanas estão cada vez mais flexíveis. Acostumados com o mundo virtual e com a facilidade de “desconectar-se”, as pessoas não conseguem manter um relacionamento de longo prazo. É um amor criado pela sociedade atual (modernidade líquida) para tirar-lhes a responsabilidade de relacionamentos sérios e duradouros. Pessoas estão sendo tratadas como bens de consumo, ou seja, caso haja defeito descarta-se — ou até mesmo troca-se por “versões mais atualizadas”. Você pode ler os vários “líquidos” do Bauman ou mais aqui: http://lounge.obviousmag.org/de_dentro_da_cartola/2013/11/zygmunt-bauman-vivemos-tempos-liquidos-nada-e-para-durar.html#ixzz3ex1ndnSG

Se pararmos pra pensar, as relações de uma forma geral têm sido muito intensas e pouco profundas — surgem rapidamente, mas dificilmente se firmam.

Você tem várias pessoas que chama de amigos… Da faculdade, da época da escola, de um curso, dos trabalhos por onde passou, mas não tem aqueles amigos de anos — ou tem poucos — que vão te visitar porque sentem que a amizade de vocês precisa ser constantemente mantida, porque é importante, porque existe amor ou mesmo porque é tranquilizante e acolhedor ter alguém pra tomar um café, mesmo que não seja em uma cafeteria hype onde se fotografa primeiro e conversa-se depois.

Você pode dizer que tem amigos que são de sempre, os chamados “de casa”, ali de todo dia e, neste caso, te parabenizo — por ter a sorte de ter e a capacidade de manter.

Relações baseadas em ‘vamos marcar alguma coisa’ e nunca marcar ou, até mesmo, no ato de sair pra lugares que, na real, ficam em segundo-plano, pois soam mais bonitos com filtros do Instagram e alterações mil no Snapchat.

Estar ali com o Pedrinho, de repente só por estar. Compartilhando um dos vários — que fiz em tempo real e nunca verei — vídeos do show ‘X’ com outros amigos da rede. Corcunda no canto da pista esperando Iikes pra, inconscientemente, vender uma ideia do quanto essa suposta vida é boa, até que… “Péra lá, cadê o Pedrinho? - Pô Pedro, nem curtiu nem nada.”

Aliás, quem aí viu o recadinho da banda Yeah Yeah Yeahs dirigido aos fãs que se dão ao trabalho de ir aos shows pra assistir tudo através da tela do celular? O Youpix chegou a publicar, mas primeiramente, 1BJS na banda ❤: http://youpix.virgula.uol.com.br/colunistas/yeah-yeah-yeahs-critica-fas-que-vao-a-shows-e-assistem-tudo-atraves-da-tela-do-celular/. Pra quem não viu:

A obsessão por registrar (e filtrar) todos os momentos da vida tem se tornado uma questão que a psicanálise precisa tratar com atenção. Afinal de contas, muito antes de Steve Jobs apresentar o primeiro iPhone, Lacan já dizia que para compreender o real, o indivíduo precisa atravessar a fantasia e se perceber dentro dela.
Ou seja, a gente só consegue entender algo como “real” a partir de um certo filtro fantasioso. Esse papo renderia uma boa e longa conversa de bar, mas vou me ater às queixas do Yeah Yeah Yeahs: ao que parece, as pessoas que vão a shows ou grandes eventos só conseguem legitimar sua experiência “real” se registrarem aquilo em alguma imagem. Sem imagem, sem realidade, sem alma.

Não se trata somente da tendência em se redirecionar o relacionamento para as redes sociais, mas de ter um novo perfil de socialização nos meios urbanos.

A gente corre de um canto pra outro, muda de casa, muda de trabalho, a gente muda! Criam-se laços vários numa amplitude universal que por vezes não vão a fundo, tentativas falhas como uma escolha de tema para aquela monografia — que costuma se tornar significante quando trabalha com recortes, já que quando se opta por não ter as chances de nascer algo superficial se amplia incrivelmente (fica a dica para os TCC’s da vida #queroabraçaromundo #últimosemestredequalquercoisa), mas enfim…

Aquela ideia do café na casa das amigas pra tricotar, ahaaam, lá da época das nossas avós, virou: balada, shopping em grupo, barzinhos com conhecidos e agregados, etc… E assim, pouco sobrou das relações que adentram famílias, dos atos de ligar pra contar da semana ou de mandar cartas pelo correio, seladas com carinho e investimento de um tempo já escasso.

Mensagens, de preferência por chats em grupo, ampliam a conexão e diminuem aquela interação de afeto e zelo, onde as pessoas podem dizer “estou bem”, e não estar de verdade, contar novidades, reclamar um pouco e não falar sobre os sentimentos que mais possam perturbá-las.

Quem liga? ** Leia com duplo sentido, ok? Obrigada.

Como adendo, cabe aqui deixar uma abordagem no estilo ‘perco o amigo, mas não perco a piada’, é um texto do Marson Guedes para o Papo de Homem que eu indicaria para o próximo querido que quiser debater. Se chama “Ganhar um amigo é melhor que ganhar um debate”, o título já explica bem, e o link que você pode precisar na próxima semana está aqui: http://www.papodehomem.com.br/ganhar-um-amigo-e-melhor-que-ganhar-um-debate/

Ganha debate quem sabe debater, não quem está certo. Exatamente por isso você precisa decidir de antemão o que vai querer: ganhar o debate ou contribuir para a conversa. Não dá para fazer as duas coisas. O ethos da vitória é contrário ao ethos da comunhão das ideias.

Uma geração descolada que se sente sozinha no meio da multidão, que age de modo efusivo num local e continua avulso em outro.

Aquele companheirismo do dividir o lanche na calçada, na hora das brigas por um bem maior ou do ato de ouvir música junto, tornou-se o comentar nas fotos, perguntar algo sem real interesse, dizer que sente saudades e não participar de uma vida que é curta, corrida e difícil, mas que ainda assim, é bem incrível quando se tem com quem compartilhar (não necessariamente por WiFi, 3G e 4G). Na verdade, é uma das poucas coisas certas que temos, por mais água com açúcar que isso seja e fim.

Pela rapidez com que as coisas acontecem, as relações, sejam elas quais e como forem, tendem ao mesmo processo. Só que isso não muda o fato de que ainda me espanta o afastamento de uma história, aquele estalo do tipo “quem é você?”, afinal já fomos íntimos, completávamos frases um do outro e agora não saberíamos sequer terminar um diálogo casual, mesmo ainda sendo amigos, no sentido Facebook da palavra. Aliás, ao ler um livro da Marta Domínguez Riezu, a escritora espanhola de “Coolhunters: caçadores de tendências na moda”, encontrei uma definição um tanto espirituosa sobre o que, para ela, vem a ser uma Comunidade Virtual. Segundo Marta, se trata de:

um conto do vigário que induz as pessoas a acreditarem que fazem amigos ou mantém os já conhecidos, quando, na verdade, a única coisa que conseguem, na melhor das hipóteses, é perder tempo.

Aí a gente pára e pensa: - “Nada a ver, aliás, até pelo contrário porque hoje tenho amigos no Canadá e na Tchecoslováquia com os quais converso toda semana. Cara, quando isso seria possível sem a tecnologia?”. Pois é, não vamos tirar esse mérito e logicamente as coisas se organizam para haver evolução, mas nessa, e até mesmo em outras esferas, com a decorrência de um avanço alguns pontos tendem a ficar defasados por assim dizer…


Agora me tira uma dúvida, foi depois dos anos 90 que começamos a entrar na era “muitos conhecidos, poucos amigos”?


Paira um desinteresse coletivo pelos elos criados, assim como certa curiosidade pela vida que outros vivem, quase como se diariamente decidíssemos se aquele lifestyle é digno de ser seguido ou ignorado. Então afinal, se seus amigos são importantes por que e/ou como te satisfaz viver afastado? Cada vez mais, certos padrões tomam forma e as relações sociais se modificam, o que é natural, porém será que é satisfatório ou essas distâncias conectam de quebra novos problemas?

Faz parecer que todos são, em graus diferentes, importantes pro seu cotidiano, mas não pra sua vida.

Quando seu cotidiano muda, essas pessoas também mudam e por fim, caminhamos em sentidos contrários, com um nó na garganta como estranhos que sabem que o verbo dói, mas que o sujeito se recupera tão rápido quanto fazer um miojo.

Fica essa sensação de que as relações parecem ter se tornado recicláveis, só que nesse caso, pode não ser necessariamente o melhor para os próximos habitantes do mundo.

Seu bichinho virtual tinha morrido e agora tenta migrar para o seu smartphone como um widget chamado DiNostalgia (disponível na Play Store, #SDDs), jogar bola na rua não dá mais porque a rua deixou de ser das pessoas pra ser dos carros e, ás vezes, das balas perdidas, mas enquanto isso crianças de, sei lá, dois anos se entendem ‘muito bem, obrigada’ com a tecnologia touch screen.

A interação por toque é muito mais natural, muito mais intuitiva para o ser humano. Ela é mais próxima das ações do mundo físico. Arrastar algum objeto com o dedo, como uma foto, para movê-lo, faz muito mais sentido para o cérebro que clicar com o mouse, arrastar e soltar o botão, por exemplo. — Via Aqua, disponível em http://www.aqua.com.br/noticias/como-tecnologia-touchscreen-esta-mudando-o-mundo/

Não sei se é conclusivo, mas somos seres visuais e nos adaptamos por imitação. As coisas estão se transformando, então naquela idade em que você pediu pro Papai Noel uma bicicleta, com o intuito de fazer amigos na rua, daqui pra frente, talvez seja natural que comecem a pedir um iPhone pra usar dentro de casa mesmo, assim meio solitário e antifurto.

Vai saber… Prioridades mudam.


Show your support

Clapping shows how much you appreciated Elaine Teles’s story.