Meu primeiro ano como dev

Há um ano eu começava meu novo emprego como desenvolvedora backend em Python. Eu havia largado uma carreira, uma profissão e por pouco também não larguei um mestrado. Quando tudo isso aconteceu, acho que eu não tinha entendido as proporções que aquela decisão teve na minha vida. Hoje, exatamente, faz um ano do meu primeiro dia como desenvolvedora e eu quero contar um pouco sobre o que aconteceu nesse ano.

Eu escrevendo esse texto

A primeira coisa que eu me lembro foi como eu fiquei deslocada no meu primeiro dia. Eu estava totalmente fora do meu ambiente comum e havia a regra do “se ele está de fone, você não deve incomodá-lo”. Como posso fazer uma pergunta sem incomodá-lo? Lembro de tentar ser útil da melhor forma que eu podia, tentava ler os códigos nos pull-requests e ficava buscando formas de estudar as coisas.

Acabei me sentindo frustrada e desestimulada. Sugeri ajudar na documentação (para me sentir útil de qualquer forma que fosse) e acabei ficando 3 meses basicamente escrevendo documentação. Recado a todos que tem alguém iniciante para treinar: deixar alguém louco pra aprender escrevendo texto durante meses é simplesmente cruel. Lembro de me sentir um fracasso e de pensar em desistir.

Não me sentia bem e não me sentia útil. Pensei em voltar pro meu emprego antigo, com o rabo entre as pernas, e pedir meu emprego de volta. Pensei em todas as pessoas que iriam falar: “Eu sabia que você não ia conseguir”. Pensei no meu orgulho indo pelo ralo e a sensação de fracasso me fazia chorar direto.

Finalmente, decidi procurar por outras vagas. Não tinha chegado tão longe para simplesmente desistir. Se ali não estava bom, o negócio era tentar de novo. E ai vem a pergunta fatídica: Quem diabos ia me contratar com apenas alguns meses de experiência?

Primeira coisa que me lembro ter me frustrado muito é ver as vagas de “programador-deus” em todos os lugares. As vagas pediam pelo menos 4 ou 5 linguagens e conhecimento de devops. A 6a e a 7a linguagem eram um diferencial. WTF? Sem condições. O que vou fazer?

Conversei com inúmeras pessoas. Para as que me conheciam bem, pedi para que me ajudassem a encontrar um novo lugar. Eu queria muito conseguir um novo emprego e tinha uma vontade infinita de aprender. As pessoas que me conhecessem minimamente poderiam falar isso para as pessoas que não me conheciam nada. Usei minha rede de contatos da melhor forma que eu encontrei. Apliquei para diversas vagas, e tive que “vender meu peixe”.

Eu digo sempre que existem duas formas de vender seu trabalho: “ah… eu ficava lá e simplesmente montava o computador e arrumava o simulador quando ele dava pau” ou você pode valorizar e falar “eu era responsável técnica pelo simulador e tinha que garantir sua funcionalidade em workshops em que diversas pessoas importantes dependiam de seu funcionamento correto. Se eu fizesse meu trabalho bem feito, não tinha muito o que fazer durante workshop”. Eu menti em alguma delas? Não. As duas frases são igualmente verdadeiras. O que muda é a forma como você passa isso para as outras pessoas. Isso muda muito a visão delas sobre você e a sua visão sobre o que você fez e quem você é. Então, com a cara e a coragem e muito medo no coração comecei a fazer as entrevistas e tentar me vender da melhor maneira que eu conseguia pensar.

Primeira entrevista de teste de código, meu código não estava rápido suficiente. Passei 3 dias tentando até aceitar a mais profunda derrota. A segunda entrevista foi ótima, mas a empresa não tinha investimento para aquele momento. A terceira não teria ninguém mais experiente que eu para me ensinar… E por aí foi.

No Caipyra, o Sérgio me chamou pra conversar e me dizer o que precisava na Crave. Era exatamente o que eu precisava na minha vida. Nunca tinha cogitado me mudar, nunca tinha imaginado sair de Floripa. Vim para Ribeirão na sexta, para palestrar sábado no evento. Domingo a noite eu tinha uma proposta no meu email para me mudar, uma hora antes do meu avião para Floripa. Acabei ficando toda a semana pós-Caipyra em ribeirão e quando voltei para Floripa, já estava com data marcada para começar meu novo emprego em Ribeirão.

Decidir me mudar foi uma das coisas mais difíceis que eu já fiz na vida. Mais do que a mudança de emprego no começo do ano. Eu teria que abandonar meu apartamento tão confortável, os amigos que agreguei ao longo de 9 anos em Floripa, abandonar uma cidade considerada perfeita e que era onde eu me sentia bem e feliz. Eu teria que abandonar tudo isso por um sonho. Um sonho louco de, aos 27 anos, trocar de profissão e virar programadora. O que diabos eu estava fazendo? Quando aceitei o trabalho, fiquei 3 dias sem comer. Quando finalmente eu comecei a entender o que tinha feito, quase desmaiei no banheiro por estar fraca demais. Quando eu cheguei em Floripa, chorei as 3 semanas que levaram para eu arrumar minhas coisas para me mudar. Com certeza, essa decisão foi muito mais difícil do que a primeira que eu tinha tomado pouco tempo antes.

Sair da zona de conforto é um problema. É um problema enorme. É como se estivessem te arrancando do útero quentinho e confortável da sua mãe, para te darem um tapa na bunda e te jogarem pro mundo. Não sei como eu ainda tive um rosto depois de 3 semanas chorando ininterruptamente. Não é fácil e nem nunca vai ser. Se fosse, todo mundo faria tudo o que tem medo de fazer.

Cheguei numa cidade estranha, com praticamente nenhum amigo e com muito medo. Lembro-me quando fiz o meu primeiro pull-request no meu primeiro dia de trabalho e falei: “Nossa! Se eu fizer um desse por semana eu estou feliz!” e fui recebida com: “Se você fizer só um desse por semana você não dura muito tempo”. Sensação de puro medo. Pânico total. Eu claramente não ia dar conta.

Tenho que confessar uma coisa: eu vim para Ribeirão com o pensamento de que se tudo desse errado e eu voltasse depois de um mês, tudo estaria bem. Vim com esse espírito e assim fiquei até ganhar confiança o suficiente para saber que nada tinha dado errado. Mas eu vim preparada pro erro, pro não deu certo e pro “ok, vamos tentar de novo”. Mas não foi isso que aconteceu.

Eu entrei num ambiente extremamente agradável e amigável para iniciantes. Toda a equipe era boa e paciente e recebi inúmeras aulas para entender o que eu estava fazendo errado. Ninguém me disse que “eu era muito iniciante para fazer aquilo”. Toda vez que eu dizia que eu não sabia algo, alguém parava e me dava uma aula. A não ser que fosse algo com uma complexidade absurda, se eu não soubesse como fazer algo, era essa a tarefa que me davam.

A grande certeza do time de que eu ia conseguir e toda a paciência que tiveram me fizeram crescer como profissional e como pessoa. Meus códigos iam se tornando mais complexos aos poucos e minhas revisões também mais rigorosas. Comecei a acreditar que eu poderia, sim, me chamar de desenvolvedora.

Se você, assim como eu, vive com dúvidas se você é de fato um desenvolvedor, faça o melhor teste possível aqui

O ambiente era tão propício para o crescimento que eu me desenvolvi bem no backend e em fevereiro (fev/17) já comecei a trabalhar no frontend, com React, Javascript e etc. Uma área totalmente nova e novos desafios para enfrentar.

A quantidade de coisas que eu aprendi com o time da Crave Food Services e com o Grupy-RP foi absurda. Minha curva de aprendizado foi exponencial e eu me sinto confiante e tranquila com a minha escolha. Ter alguém que acredite em você de fato, faz toda a diferença. Mas também é igualmente fundamental que você acredite em você. Tudo o que eu contei aqui foram inúmeros momentos de fraqueza e dúvida. Por mais difíceis e frequentes que eles tenham sido, eu tive que acreditar que eu conseguia fazer aquilo (as vezes contando com alguém de fora para reforçar isso). Hoje eu estou aqui, completando um ano… com a esperança de que o novo ano me traga novos aprendizados (e um pouquinho de zona de conforto, que não faz mal a ninguém!)

Quando você é jr, mas se sente bom no que faz!

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