O Design pode não ter gênero?

Reconsiderando a relação entre pessoas + design para um futuro realmente inclusivo

Texto original: “Can Design be Genderless?” de Madeleine Morley, traduzido por Daniela Castro

Da exibição Pathmakers — sobre modernismo e feminismo de meados do século — para uma nova série do Fresh Talks — que começou em janeiro com uma discussão aberta sobre a fluidez de gênero em Design e Cultura — o Museu Nacional das Mulheres nas Artes, em Washington, começa sua programação de 2016 com uma nota oportuna que busca a mudança da opinião pública em torno de questões de gênero.

“Propusemo-nos a corrigir o equilíbrio”, dizem a diretora do museu Susan Fisher Sterling e a diretora de programas públicos Lorie Mertes, que apreciam suas tarefas de recalibrar a história e corrigir essa área particular de negligência. Elas enfatizam que fluidez de gênero está assumindo um papel cada vez maior na cultura mainstream, e aponta como exemplo a série popular da Amazon Transparent, o anúncio recente de Jaden Smith ser a cara da coleção feminina da Louis Vuitton, e a admiração pelas mutáveis, ambíguas e andrógenas identidades de David Bowie.

Para aprofundar a discussão e questionar se “O Design pode não ter gênero?”, o museu convidou a designer e escritora Alica Rawsthorn e a designer Gabriel Ann Maher para discutirem como e se essa mudança cultural definida terá impacto no Design. Para começar, é importante combater os preconceitos históricos de longa data, mas também ter certeza se haverá suporte para o trabalho dos designers contemporâneos que estão lidando com questões de gênero e feminismo. “Reconhecimento é o primeiro passo para Esclarecimento. É assim que mudanças acontecem” Sterling e Mertes dizem com zelo necessário.

“Design é um agente de mudança”, diz Rawsthorn.

Rawsthorn é fascinada pela ressurgência do interesse e da redefinição do feminismo no Design. Nós discutimos como o Design reflete e reage às necessidades de seu tempo; sua produtividade se transforma para se encaixar aos desejos do mundo contemporâneo, e uma vez que há um movimento contemporâneo buscando redefinir as normas de gênero, isso irá causar inevitavelmente uma resposta no Design.

“Transgeneridade é um assunto extremamente complexo e desafiador para o Design”, Rawsthorn me diz. “Mas apresenta uma ótima oportunidade para experimentação. Com sorte, arejar tais assuntos com conversas como esta pode sensibilizar e contribuir para o discurso em um contexto mais amplo da relação do Design com a identidade pessoal.”

Sterling e Mertes comparam o desafio da igualidade de gênero no Design com o Ato da Deficiência de 1990, o qual teve sucesso em tomar atitudes para tirar as pessoas portadoras de deficiência da idade das trevas. Antes disso, acessar edifícios com uma cadeira de rodas era praticamente impossível. Para fazer aquela mudança acontecer, o Design de Interiores e Exteriores, Sinalização, Acesso e Acessibilidade tiveram de ser totalmente reconcebidos.

Existe um desafio equivalente, ou talvez ainda mais complexo, que reside em reprojetar áreas que não se conformam com o status quo recorrente. Para começar, Sterling e Mertes gostariam de ver mais espaços para amamentação em prédios públicos assim como um novo sistema de sinalização sem gênero para banheiros.

Como Rawsthorn diz, “O Design deve encontrar novos meios de permitir que os indivíduos experessem uma crescente fluidez e multiplicidade de nuances das identidades de gênero, não somente em campos fáceis de customização como a moda e artes gráficas, mas em objetos, espaços, softwares e assim por diante”. Existem poucos projetos à altura do desafio: os aplicativos de aprendizagem do Toca Boca são deliberadamente neutros em gênero, assim como são os vídeo games Twine projetados pela Porpentine e Anna Anthropy. Existe também a pesquisa de Maher, o segundo palestrante no evento Fresh Talks.

Maher estabelece para o Design um mundo onde uma pessoa possa imaginar um gênero único para si, sem ser fortemente definida pelos produtos, marketing e espaços ao seu redor. As pessoas poderiam construir seus gêneros de maneira que não seriam determinados por sexo, desafiando a estereotipação que é universal, de Design Gráfico de comerciais a Design de Produtos. A área de embalagens é uma das que precisam ser desesperadamente reconsideradas. Pense nas embalagens de absorventes, um produto exclusivo para mulheres, que costumam sempre apresentar imagens como flores e arco-íris, enfatizando a ideia que ser mulher está inextricavelmente ligado a certas estéticas, neste caso uma estética enjoativamente doce.

Maher diz ainda que o Design não somente propaga os estereótipos nos campos de marketing e propaganda - mas que as definições de gênero estão inscritas nas suas formas e linguagens. Pense em plugues e tomadas, por exemplo. O produto define suas partes como macho e fêmea, estabelecendo uma ligação cruel do desenho com genitálias. Parece uma parte pequena de todo cenário, mas são itens do dia a dia como este que formam a linguagem, e daí em diante, o cenário perpetua a estreita ideia do que é “normal”. Para desembaraçar a problemática ligação entre gênero e sexo em uma escala maior, nós podemos começar pequeno, de um projeto ao próximo.

Então, como o Design hoje, até nos menores níveis, objetivaria uma estética realmente sem gênero? Como isso pareceria? Como isso seria? Rawsthorn descreve como as pessoas no passado combateram os dogmáticos “códigos binários” através da apropriação e subversão dos opostos visuais. “David Bowie fez isso de maneira brilhante em seus looks glamurosos do início dos anos 70, assim como fez Patti Smith ao vestir uma camisa masculina, gravata, jaqueta e calças na capa da Horses”, ela diz.

“O corpo de quem está sentado?” - Performance de Desconstrução Visual - Gabriel, Fevereiro 2014

Hoje, a subversão está tomando forma diferente conforme os designers se distanciam de apropriação, amostragem e reaplicação em ordem de imaginar uma linguagem visual completamente nova. Por exemplo, ao invés de vestir uma camisa e gravata para subverter as normas de gênero, Maher se veste com roupas que transcedem os “códigos binários” completamente, escolhendo roupas que poderiam se adequar qualquer forma e estilo de corpo, como calças até a cintura sem zíper e uma blusa solta que não é adaptada para realçar nenhuma parte do corpo. A cor é cinza neutra. Maher chama seu processo de DE_SIGN - como em de-sign (no inglês, “sign” significa “sinal, sinalização” - de-sign seria a negação dessa sinalização) a fim de remover os sinais de gênero presentes nos espaços, roupas e produtos.

“Para desenvolver uma linguagem visual mais diferenciada, nós precisamos ir além dos visuais opostos” enaltece Maher. “Nós devemos questionar os sistemas de linguagem visual através da cultura e através do estudo de seus significados. Em outras palavras, através dos sinais e símbolos vinculados às representações visuais”. Ela cita uma série de adaptadores elétricos desenvolvidos por Zach Blas; os adaptadores questionam de maneira engraçada a ideia da conexão “macho” ou “fêmea”, e sugerem um caminho de acabar com esses “códigos binários” repressivos.

Um mundo de Design sem gênero é um mundo onde o senso próprio pode emergir das pessoas, não da cultura. Rawsthorn menciona o trabalho da designer de móveis dinamarquesa Chris Liljenberg Halstrøm, cujos projetos ambíguos possuem estética neutra e livre de associações de gênero, assim cada indivíduo pode interpretar o trabalho como quiser.

Rawsthorn sugere outra possibilidade: uma estética que objetva multiplicidade, não neutralidade. “É possível também refletir sobre possíveis identidades de gênero ao definir uma linguagem de Design polifônica com uma diversa paleta de cores, texturas, formas, símbolos, narrativas e assim por diante, como Faye Toogood fez em “Agender”, onde os setores de moda foram projetados com “fluidez de gênero” para as lojas de departamento Selfridge em Londres e Manchester na última primavera.”. Gênero é um espectro vasto e complexo, então o essencial é um vocabulário visual que pode ser misturado e combinado de acordo com o desejo de cada indivíduo.

Agender
Agender
Agender

O Fresh Talk de Maher e Rawsthorn no Museu Nacional das Mulheres nas Artes irá falar à respeito destes pontos e mais. Sterling e Mertes esperam que a discussão deem faíscas à ação - não importando quão pequena ela seja- e não somente ao debate. “Se alguém sair daqui e ir a seu departamento de RH no dia segunte solicitar uma sinalização sem gênero para os banheiros, isso seria um passo na direção certa”, elas dizem.

O que as faria mais felizes? “Nós ficaremos felizes quando o estádio dos Redskins se livrarem do nome estigmatizado e tiverem banheiros com gênero neutro”, elas dizem brincando. “Se isso acontecer, nós vamos saber que tivemos sucesso”.

O Fresh Talk foi realizado no Museu Nacional das Mulheres nas Artes em 27 de Janeiro, foi transmitido via stream e pode ser visto em inglês aqui.

Texto original: “Can Design be Genderless?” de Madeleine Morley, traduzido por Daniela Castro