“Open offices”, cubículos e o espaço como experiência.

Sobre comportamento, produtividade, inovação e colaboração.

“people working inside white and black room” by Venveo on Unsplash
“…segue o conceito dos centros mais inovadores do mundo: com espaços amplos e claros, luz natural e tecnologia de ponta.”

Para algumas pessoas essa é a definição de um espaço de inovação e seu papel máximo nos processos de aprendizagem 😩

Mas a proposta de espaços amplos, os open offices, começaram com uma ótima visão e plano de gente muito capaz.

Eles foram um símbolo de uma futura geração de pessoas empreendedoras, ousadas, literalmente derrubando paredes, reduzindo distâncias e trazendo o brilho da luz natural, com um ar jovem e promissor em relação ao futuro.

Aí vieram as placas e quadros com frases de Stay hungry. Stay foolish." e “Get Shit Done!”

Espaços e consequências — muito além do hype

De forma resumida: Os espaços moldam comportamentos das pessoas e das tarefas realizadas, esses então moldam o comportamento das (demais) pessoas no espaço. É um ciclo contínuo.

Exemplos simples, como os bancos em praças e em parques públicos, em pontos de ônibus e em estações de trem, dentre outros, mostram como o design e uma arquitetura urbana mais recente (anos 90), vem sendo projetada para influenciar, de forma sutil ou mais explícita, o comportamento público.

Isso é chamado de “arquitetura hostil” ou “arquitetura defensiva”.

Em outras palavras é a cidade (e seus responsáveis) dizendo “quem nós queremos neste espaço, quem nós não queremos” (manifestantes, skatistas, moradores de rua por exemplo).
Imagens tiradas daqui. “The rise of hostile architecture” por Katy Wong, CNN.

Por outro lado

Lojas de departamentos dos Estados Unidos tem adotado a luz azul nos banheiros para moldar o comportamento público.

O objetivo é desestimular usuários de drogas intravenosas, considerando que a iluminação dificulta que as pessoas achem as veias.

Um banheiro público com a luz azul na loja Turkey Hill em Wilkes-Barre, Pa.
Foto Michael Rubinkam — AP

Existem questões sobre causalidade versus correlação, mas em Tóquio/Japão existe um amplo programa de uso da luz azul visando a redução de suicídios nas estações de trem/metrô. Resultados sugerem diminuição de 84% nos incidentes, com um plano de implementação da luz azul em 243 estações até 2023.

Em Glasgow/Na Escócia e em Londres/Inglaterra, a taxa de crimes e comportamento antisocial também foi reduzida, segundo apontam as pesquisas.

De novo, os espaços moldam comportamentos das pessoas e das tarefas realizadas.

Os open offices

Embora diferente dos escritórios abertos e descolados que temos hoje em dia, o Larkin Administration Building, construído em 1906 em Buffalo, Nova York é considerado o precurssor.

Larkin Administration Building.

Ele foi projetado por Frank Lloyd Wright e tinha a intenção de imitar a sensação de estar em um grande piso de fábrica.

Sem escritórios privados e com luminárias fixas uma organização rígida do espaço estipulava alguns hábitos de uso pré-determinados. Essa combinação ganhou popularidade na primeira metade do século XX e influenciou a construção e design de escritórios famosos, como a sede da Johnson Wax.

Em 1939, Frank Lloyd Wright (novamente) projetou a sede da Johnson Wax, o escritório central da SC Johnson & Son. Sem divisórias convencionais as colunas brancas, armários de arquivo e escrivaninhas ovais (ambos customizados) criavam separação dos espaços.

Escritório Johnson Wax de Frank Lloyd Wright. Imagem retirada daqui.

Pulando para 1960, a Herman Miller —mais famosa pelas cadeiras sofisticadas — criou uma divisão de pesquisa sob a direção de Robert Propst, para junto de antropólogos, matemáticos e psicólogos, avaliar como os escritórios funcionam de verdade em termos de comportamento e desempenho das pessoas.

A Herman Miller vem a muitos anos realizando pesquisas muito importantes sobre ergonomia, espacialidade, produtividade. Site deles aqui!

Essa pesquisa trouxe uma conclusão:

Escritórios abertos precisavam ser divididos. As pessoas precisavam se levantar, se movimentar e interagir mais.

Daí veio o Action Office. Modular, ele foi pensado para modernizar os ambientes de trabalho com um sistema de design que revolucionaria (sem exageros) os escritórios: o cubículo.

Imagem promocional de lançamento do Action Office I em 1964. Cortesia da Herman Miller com todos os direitos reservados. https://www.hermanmiller.com/en_br/

Em 1968, a Herman Miller optou por iniciar as vendas do sistema por componentes modulares. Isso significa um grau de customização e liberdade, pensando nas demandas específicas dos usuários e espaços.

Imagem do Action Office II em ação. Cortesia da Herman Miller com todos os direitos reservados. https://www.hermanmiller.com/en_br/

O problema é que isso possibilitou que as empresas escolhessem os aspectos do sistema visando quase que unicamente economia de espaço, ignorando o conforto, ergonomia e toques em favor das pessoas.

Imagem do Action Office II em 1978 menor e aglomerado. Cortesia da Herman Miller com todos os direitos reservados. https://www.hermanmiller.com/en_br/

Tava ruim, tava bom, mas parece que piorou

Com essas mudanças, o cubículo virou o que muita gente conhece hoje. Ele passou a ser sinônimo de exaustivas jornadas, hostilidade e ambientes de trabalho estressantes e instáveis. Veio uma privacidade na forma de “isolamento no cinza”, de gente que praticamente não via/ve a luz do sol o dia todo.

Com a escalada na adoção do sistema por parte das empresas, George Nelson, outro designer, arquiteto e também precursor dos sistemas, mais tarde (1970) lamentou o efeito desumanizador do que viriam a se tornar:

“…definitivamente não é um sistema que produz um ambiente gratificante para as pessoas em geral, mas é admirável para os planejadores que procuram maneiras de encher um número máximo de corpos, para funcionários e pessoal, zumbis corporativos, mortos-vivos, a maioria silenciosa. Um grande mercado.”

Robert Propst também rejeitou a criação e a chamou de insanidade monolítica.

Então espaço amplo e aberto é melhor. Certo?

Escritórios abertos em startups, coworkings/espaços de inovação e grandes empresas são a tendência, a ponto de em 2017, por volta de 70% dos escritórios dos EUA tinham poucas ou praticamente nenhuma divisão.

O autor Jeff Pochepan no entanto argumenta, através de um estudo, que 54% dos funcionários de alto desempenho declaram que seu ambiente de trabalho é muito perturbador.

O que os fazem assim?

Centenas de pequenas distrações e ruídos, como telefonemas, conversas com colegas de trabalho e sons de pessoas andando a todo momento. Para o estudo do psicólogo Nick Perham esses ruídos significam prejuízo para a capacidade das pessoas lembrarem informações simples e fazer cálculos básicos.

“Ahhh mas eu sou multitask…”

Segundo o neurocientista cognitivo Anthony Wagner, da Universidade de Stanford, as pessoas que se consideram “multitarefas intensos” não só são mais suscetíveis à interferência de estímulos pequenos e irrelevantes, como essas pessoas quando interrompidas, demoram mais para voltarem ao que estavam fazendo.

É verdade que, quando bem projetados de acordo com as necessidades específicas de cada contexto, os escritórios abertos frequentemente promovem um senso simbólico de única missão, fazendo com que os funcionários se sintam parte de um empreendimento mais descontraído e inovador.

Lembrando: os espaços moldam comportamentos das pessoas e das tarefas realizadas.

Mas segundo as análises feitas em 2011 pelo psicólogo organizacional Matthew Davis de mais de cem estudos sobre ambientes de escritórios, os espaços abertos também prejudicam a atenção, a produtividade, o pensamento criativo e a satisfação das pessoas.

A ausência de privacidade faz mais do que simplesmente matar a produtividade.

Pesquisas indicam que os escritórios abertos indiretamente exaltam o sexismo e criam ambientes mais propicios ao assédio, tanto físico, como verbal e emocional das mulheres e minorias.

A troca e sacrifícios por uma flexibilidade criativa, não compensam, segundo pesquisadores da Universidade de Sydney de 2013. Pessoas são forçadas a comparecer a mais reuniões por estarem aparentemente “à disposição”, e força introvertidos e pessoas mais vulenaváreis a interagir.

O espaço cria uma demanda constante das pessoas parecerem ocupadas. O que não converte em produtividade. A pessoa está ansiosa, com capacidade de concentração reduzida e à esse ponto, qualquer atividade — como vídeos no youtube, whatsapp — é trabalho quando o objetivo é ser uma pessoa “ocupada”.

Medindo interações

Tudo isso pode ser circunstancial. Por isso os pesquisadores Ethan Bernstein e Stephen Turban de Harvard, tentaram medir as interações e indicadores com mais precisão. Eles recrutaram 150 funcionários para usar um aparelho chamado de “crachá sociométrico”.

Crédito da imagem de Sociometric Solutions/Humanyze: https://www.humanyze.com/

Eles alteraram a configuração de um espaço de escritório visando duplicar as salas privadas e cubículos, e também um escritório aberto.

Durante três semanas antes e depois do redesenho, eles registraram o movimento, a localização, a postura dos participantes e todas as conversas com colegas — pessoalmente e também por mensagens de texto e e-mails enviados — durante o período de teste.

Os resultados mostram que quando as paredes saem de cena, o mesmo acontece com a interação e tempo presencial entre as pessoas é 70% menor.

Em contrastem, o uso de e-mail e mensagens de texto aumenta entre 22% e 50%.

Cal Newport, outro professor de ciência da computação, comenta os resultados colocando em perspectiva:

“Para tornar esses números concretos: nos 15 dias anteriores à reformulação do escritório, os participantes acumularam uma média de cerca de 5,8 horas de interação face a face por pessoa por dia. Após a mudança para o layout aberto, os mesmos participantes caíram para cerca de 1,7 horas de interação cara a cara por dia”

Quatro horas a menos de colaboração por dia.

O problema é não saber

Esse é um assunto em constante progresso e motivo de estudo com muitas perguntas sem respostas ou validação centífica precisa. O importante é continuar perguntando.

A mensagem do texto é que você deve usar o cubículo, o escritório aberto, o móvel colorido e a mesa de bilhar e tudo mais que quiser. Contanto que seja consciente.

As consequências são reais, em vidas e pessoas reais.

O problema é simplesmente adotar alternativas — métodos, software, títulos, frameworks, qualquer coisa — como soluções perfeitas e instântaneas aos problemas de cada pessoa, empresa e situação. Isso não existe.

Não podemos falar e vender inovação, quando o que fazemos é só copiar a última tendência do momento, pelo simples fato dos outros estarem fazendo.

Une maison est une machine-à-habiter

Ou “Uma casa é uma máquina para viver” como diria Le Corbusier em seu livro “Toward an Architecture” enquanto refletia sobre sua visão funcionalista para o futuro do design do espaço residencial.

Mas é uma reflexão a ser feita sobre todosos espaços e por todas as pessoas.

O que fazemos e como usamos todos os nossos espaços? Nossas escolas, hospitais, parques, escritórios, congresso e câmaras, estradas, etc…