Sobre Ovos e Hackear Pessoas

Por esses dias, um amigo meu foi ownado. Deram um wipe nos seus devices, o envergonharam no LinkedIn e ele virou “o assunto” dos grupos por aí. A coisa foi fruto de seu comportamento na H2HC: inapropriado e desrespeitoso com as pessoas, sobretudo com os mais novos. Se o que quiseram, foi lhe dar uma lição. Estou certo que ele aprendeu.

Ironicamente, o evento teve um debate cujo propósito foi o de reforçar vínculos entre as gerações, com gente das antigas buscando apontar caminhos para os mais novos. Infelizmente não pude estar lá para ver isso — superei o FOMO e estou bem com a limitação de não poder estar em dois lugares ao mesmo tempo — mas os vários relatos que ouvi a respeito dessa sessão de aconselhamento mostraram um desfecho previsível de nossa tão cheia de aspas “comunidade” de segurança e/ou hacking: emoções que a gente sabe onde vão chegar e um limitado resultado convertido em ações práticas.

A gente passa tanto tempo falando sobre técnicas, ferramentas e produtos para se proteger que às vezes perde a referência. Tudo vira uma instância exterior. Mas quando a coisa acontece com alguém próximo é como se o incidente nos puxasse para a realidade. Que não se trata somente de um conjunto de dados, mas da vida do cara. Esse não é um texto em defesa do Sérgio, mas sim uma reflexão sobre como essa imagem que passamos para fora, para a comunidade, pode ser tão frágil como uma casca de ovo. E o que aconteceu ainda pode mostrar que a própria comunidade também é frágil.

Nutrimos o péssimo costume de mirar o gringos como referência, mas trazendo as coisas de fora pra cá em cópias mal feitas. Um desses pastiches é essa cultura do rock star brasileiro. Na batalha em que todos lutam para se diferenciar, gente que estuda pouco, produz pouco conhecimento, mas tem ótima performance de palco é admirada. Enquanto os eventos lá de fora são marcados por salas forradas, os daqui concentram mais gente no bar, como se não houvesse mais nada a aprender. O networking acaba prevalecendo sobre o conhecimento e a busca por ser VIP liga o “important” a quem se conhece, não na contribuição para a comunidade. Sendo que há muitas formas de se contribuir.

Por isso, em meio a essa cultura da celebritização que faz crer que a vida é uma sucessão de eventos épicos, sobram incidentes em que as emoções se exacerbam. Pipocam papers fodásticos dos eventos da IEEE e da USENIX, enquanto a gente aqui nessa puta novela mexicana, em que se produz pouquíssimo conhecimento em razão ao quanto se produz tensões dramáticas.

Lembro que em minha escola havia uma tradição estúpida de jogar ovos e farinha na cabeça de quem fazia aniversário. Alguns enterravam os ovos por dias para fazer com que o aniversariante não voltasse para casa somente sujo, mas também, sob um miasma de podridão que demorava uns três banhos para passar. Boa parte daquilo era pura zoeira, mas, tinha gente que usava da tradição, do sentimento de manada, para acertar contas antigas. Eram os anos 80, uma recessão do cacete, e a gente desperdiçando comida para humilhar os outros.

Talvez o mal de nossa comunidade é que há muita gente focada em jogar ovo. É evidente que temos os nossos charlatães que desfilam por aí se aproveitando dessa nossa cultura de celebritização sem trampo. Mas, também, sobra hostilidade para os que fazem perguntas humildes. Essa divisão entre os “virje” e os “true” é falsa, pois da mesma forma que há muito que aprender é muito difícil absorver tanto conhecimento como alguns gostam de aparentar.

Geralmente os mais hostis são os que ficam apegados ao pequeno território do que sabem, dando patada em quem chega perto e ignorando que o seu conhecimento é uma fazendinha do Farmville ao se comparar com a vastidão do que poderiam aprender se trocassem mais, se tolerassem mais. Mas esses Gollums da comunidade arrebanham outros vários no embalo, Beavis e Butt-heads que não sabem a hora de parar. Isso porque, em grupo, duas coisas escalam de maneira imperceptível: a zoeira e a violência. Às vezes convertendo uma na outra.

Como resultado, as patadas acabam gerando efeitos nos outros, sobretudo nos mais novos, acanhando-os. Limitando-os. Assim, por mais que os Gollums odeiem os charlatães, esses só emergem por conta da sua própria mesquinharia. Porque eles fecham o caminho para gente nova, sobrando um vácuo ocupado pelos que estão mais interessados na grana. Se o cara não colabora com a renovação e prefere usar seu anel da invisibilidade para agredir os outros, que resultado ele pensa que vai construir?

Deixar de dar ovada, no mínimo cria um ambiente sadio para que outros mostrem trabalhos que podem ser ótimos, mas ficam restritos ao seu quartinho por um baita cagaço de mostrar para os outros.

Uma certeza que tenho é a de que, em algum momento todos nós seremos superados. Então escrevo isso com o otimismo de que essa maré vai passar. Vejo gente se organizando em eventos pequenos, porém autônomos, cada um contribuindo com aquilo que pode. É a galera aprendendo que as grandes conferências, embora fundamentais, não os limitam a se reunir quando e como bem quiserem. E, embora alguns mereçam ovos na cara, eles geram melhores resultados no estômago.


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Esse texto é parte da Nossa Coletividad, uma publicação sobre Design, Educação, Empreendedorismo, Ciência e Tecnologia, que junto da Plataforma e dos nossos Eventos, fazem essa Coletividad.

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