GALERIA DÉJÀVU: Arte fora da caixinha

MECA — Inhotim 2017 // ph: Pablo Caldeira

A Galeria Déjàvu conecta fotógrafos e fotógrafas independentes com pessoas que gostariam de ter trabalhos originais na parede de casa ou do escritório. A iniciativa foi criada em Belo Horizonte pela Marina e pelo Guilherme, que estarão na feira de iniciativas locais Nossa Grama Verde um fim de semana antes do Natal. Nesse texto, Marina conta da onde surgiu a paixão por fotografia e como ela se transformou na Galeria.

Minha paixão por fotografia começou cedo.

Sempre achei verdadeiramente mágico que uma caixinha pudesse capturar momentos da vida e revelá-los em um pedaço de papel.

Quando criança isso dava um nó na minha cabeça. Via as pessoas paradas, sorrindo para uma câmera quadrada que, após o “clic” de um botão, guardava aquele momento “ali dentro”.

Eu não entendia nada, para mim aquilo era impossível. Era mesmo mágica.

Me lembro do ritual. Me chamavam com pressa, sempre com as mesmas instruções em série: “ei Marina! Olha pra lá! aqui ó! Isso! Agora sorri! Ahêêê!”.

Eu achava gostoso porque depois do “clic”, sempre vinha uma comemoração. Era como se estivéssemos celebrando a alegria de ter conseguido “arquivar um momento”, de poder esconder um pedacinho da vida da fugacidade do tempo.

Muitas vezes, após um passeio ou uma viagem, eu voltava para casa com um “resto do filme” na máquina. Eram duas ou três fotos que sempre vinham de brinde no filme de 12, 24 ou 36 poses e que impediam a abertura da câmera e o envio para a loja de revelação.

Quando finalmente enviávamos para impressão, começava aquele espera eterna (de alguns dias) para ter as fotos em mãos.

A chegada das fotos era um novo momento de união. A família se reunia, os amigos se amontoavam em volta e iam passando as fotos , sempre num fluxo caótico.

Era uma mistura de nostalgia, frustração e risadas. Entre as fotos boas, tinham as queimadas, as sem foco, aquelas cheias de olhos vermelhos ou caretas engraçadas.

Quadro Fine arte Moldura Madeira // ph: Pedro Gravatá

De origem, minha relação com a fotografia foi se construindo a partir daí e cada “clic” tinha muito valor. Para mim a fotografia passou a significar o registro presente de um momento passado que só poderia ser acessado no futuro. Confuso né?

Sempre achei incrível poder acessar lugares, pessoas e revisitar a mim mesma. Percebi que até sentimentos aquela caixinha mágica conseguia guardar.

O tempo foi passando, as tecnologias mudando e eu fui praticando, tirando fotos e mais fotos. Entendi o que me chamava atenção, quais eram as fotografias que eu gostava de fazer, os momentos que eu sentia paixão em registrar. Algumas fotos eu mostrava, publicava na rede, mas a maioria nunca saía para ver a luz do dia, deixaram de ser palpáveis.

Com isso, percebi que o momento de revelação e de compartilhamento tornou-se raro, e que a apreciação das pessoas não mais fazia parte da dinâmica da fotografia. Essa sensação foi me trazendo um incômodo.

Continuei apaixonada por captar momentos, mas parecia não encontrar espaço, não vislumbrava na indústria da fotografia algum mercado que pudesse me representar, não via nenhuma parede que eu pudesse ocupar.

Foi nesse caminho que reencontrei Guilherme, amigo antigo, fotógrafo, que construiu sua própria relação com a fotografia, que compartilhava do meu incômodo e também da intenção de trazer luz e criar espaço para essas fotografias escondidas. Tínhamos a sensação de que, assim como nós, existiam outros fotógrafos guardando seus olhares na gaveta.

Queríamos expor as fotos que gostávamos de tirar. Queríamos mostrar pro mundo os nossos olhares e queríamos criar espaço para que mais fotógrafos também pudessem fazer isso. E mais: queríamos trazer valor e reconhecimento para esses olhares e inspirar com arte a vida das pessoas.

MECA Inhotim 2016 // ph: Willian Gomes

A DÉJÀVU nasceu de todos esses nossos “quereres”.

Hoje a Galeria Déjàvu abriga olhares de aproximadamente 20 fotógrafos independentes, a maioria de Minas Gerais. Temos uma curadoria que traz uma unicidade aos trabalhos expostos e cada fotógrafo possui uma galeria pessoal dentro do site com suas fotografias.

Criamos esse espaço de convergência e levamos a fotografia para dentro da casa das pessoas em quadros Fine art. Fomos também para a rua e participamos de feiras, intervenções urbanas e exposições itinerantes — Circuito Santô; Dmais Design; MECA — Inhotin 2016 e 2017; Chá Comigo; Feira Nossa Grama Verde; Alfaiataria; dentre outros. 
Conseguimos, assim, gerar valor e reconhecimento para fotógrafos e colecionadores.

Intervenção da Galeria Déjàvu em muros da cidade de Belo Horizonte // ph: Guilherme Felipe

Um dos maiores sinais de que estamos no caminho certo vem da reação positiva que recebemos das pessoas que têm contato com nosso trabalho pela primeira vez e que rapidamente se identificam com as imagens.

Daí, inclusive, veio a origem do nome DÉJÀVU que significa acessar memórias nunca antes registradas pela consciência, mas que acessam automaticamente esse sentimento de familiaridade e de recordação em um primeiro contato.

Acreditamos que cada fotógrafo carrega em si uma relação e uma história com a fotografia. E que cada registro revela, à sua maneira, um pouquinho dessa história.

Hoje, a mágica que vejo é outra: devolver para o mundo esses momentos da vida que foram guardados em caixinhas.

Assim como a Marina, outras moradoras e moradores de Belo Horizonte estarão contando suas histórias e apresentando suas iniciativas na Feira de Natal Nossa Grama Verde. Conhecer essas pessoas e valorizar o seu trabalho faz com que nossa cidade seja mais criativa, vibrante e diversa.

Feira de Natal Nossa Grama Verde
Sábado e domingo, 16 e 17 de dezembro
Galpão Paraíso 44
Rua Cachoeira Dourada, 44, Santa Efigênia
Confirme sua presença e faça diferente nesse Natal.