Como a chegada do Natal coloca a seu alcance a mudança que você quer ver na sua cidade

Esse texto tem três personagens — e um deles é você.

Vamos começar pela Júlia

Júlia adora se sentir bem com o que está vestindo. Ela tinha o costume de comprar roupas baratas no shopping, até que assistiu ao documentário The True Cost. Não dava para continuar agindo como se não soubesse que consumir produtos de cadeias de lojas multinacionais significava apoiar condições de trabalho desconhecidas, muitas vezes de trabalhadoras e trabalhadores muito mal remunerados do outro lado do mundo.

Mas ela não queria deixar de ter as roupas que gostava. Com incentivo de amigas, decidiu criar sua própria marca. Os tecidos são reaproveitados. O tingimento, na maioria das vezes, é natural. Júlia conhece bem o costureiro que trabalha com ela, e o remunera justamente. Outro dia, quando completou 21 anos, ela ganhou um presente de uma loja que costumava frequentar no shopping e gostou, mas faz tempo que não pisa por lá. Falta pouco para conseguir pagar todas suas despesas mensais com o que recebe da própria marca.

Sabe o Ricardo?

O Ricardo trabalha em uma agência de publicidade que atende grandes marcas brasileiras e internacionais há quase 10 anos. Não faz muito tempo que decidiu usar seu tempo livre para começar uma marca de objetos de design. Ele já tinha o costume de passar os fins de semana criando objetos inusitados com os mais variados materiais — até que pegou gosto pelo cimento. Decidiu juntar isso ao interesse por plantas ornamentais. Ficou bonito. Ricardo começou a vender em feiras e lojas que apoiam a produção local. Seu sonho é que a renda da nova marca seja suficiente para ele ter um emprego de meio horário, e assim poder passar as tardes mais perto da filha de três anos.

Agora, você.

Você, Júlia e Ricardo moram na mesma cidade. Talvez você ainda não os conheça, mas até percebeu algumas semelhanças com pessoas do seu círculo de convivência. Você tem um emprego fixo, de carteira assinada. Ou talvez seja freelancer. Quem sabe tenha um empreendimento próprio. Nesse ano de tantos acontecimentos (que tá-pra-acabar-mas-ainda-não-acabou), você teve uma postura clara e rígida sobre alguns assuntos. Em outros, você ficou em dúvida. Você chegou a se irritar com amigos em conversas acaloradas em uma mesa de bar. Talvez você tenha desfeito algumas amizades que estavam incomodando no Facebook. Ou pode ser que você tenha convidado essas pessoas para um café e tentado entender melhor essas opiniões diferentes da sua.

Você tem lá seus pensamentos sobre o rumo das coisas, que definem as ações do seu dia a dia — come carne ou não come carne, leva ou não suas próprias sacolas para o supermercado, prefere assistir filme no shopping ou no cinema de rua. Esse foi um ano intenso pra você. Pra Júlia e pro Ricardo também. De certa forma vocês três estão aliviados com a chegada do Natal.

Mas antes da virada do ano, você caiu nesse texto aqui. E está começando a perceber que ainda tem chance de fazer algo pela sua cidade. Algo que pode impactar positivamente a vida da Júlia e do costureiro que trabalha com ela. E que pode dar pro Ricardo um incentivo para não desistir da ideia de passar mais tempo com a filha.

É bem possível que você considere muito distante a relação entre mudar a nossa vida (minha, sua, da Júlia e do Ricardo) para melhor deixando de comprar um produto de uma loja multinacional para comprar a roupa que o costureiro da Júlia faz. Ou talvez você perceba a ligação, mas ache que sua ação individual não faz tanta diferença assim. Você pode estar precisando de alguns dados para ter certeza que vale a pena — e também pra dizer praquele amigo que vai questionar a sua ação. Tudo bem.

Feira da Casa Imaginária com produtores locais de Belo Horizonte. Foto: William Gomes.

Sete pontos que você precisa saber sobre o impacto de negócios locais

  1. O nível de capital social, engajamento civil e bem-estar de uma comunidade está positivamente relacionado à fatia da sua economia mantida por negócios locais, enquanto a presença de grandes empresas de varejo faz cair o capital social e a participação civil. Key Studies: Why Local Matters, Institute for Local Self Reliance
  2. Estudo no Canadá mostrou que o dinheiro consumido em negócios independentes gera 2,6 vezes mais emprego do que o mesmo valor se consumido em cadeias de lojas. Small Business and the British Columbia Economy, Civic Economics, 2013
  3. Negócios locais independentes tipicamente usam mais fornecedores e produtos locais, o que diminui a poluição gerada pelo transporte. Ao privilegiar fornecedores locais, esses negócios geram um efeito multiplicador que traz mais prosperidade para a comunidade e protege a biodiversidade. Why Buying Green Means Buying Local, American Independent Business Alliance
  4. Reverter o tamanho das grandes lojas de varejo e trazer de volta lojas de bairro poderia não só diminuir a distância que as pessoas dirigem, mas também induzir o uso de transporte público. Neighborhood stores: An overlooked strategy for fighting global warming, Grist.org
  5. Negócios locais geram benefícios econômicos substanciais para suas comunidades em relação a cadeias de competidores, e mudanças modestas em hábitos de consumo podem produzir imensos impactos. Small Business and the British Columbia Economy, Civic Economics, 2013
  6. Os pequenos negócios possuem vínculos ainda mais fortes com as comunidades em que atuam, são mais próximos e, portanto, tem grandes possibilidades de serem agentes de mudanças. SEBRAE
  7. Comprar de negócios locais que usam recursos de forma sustentável, empregam trabalhadores locais com salários decentes e atendem primariamente consumidores locais é trazer o controle de distantes corporações para a comunidade onde ele pertence. Michael H. Shuman, Going Local

Se você se interessou por esses pontos, provavelmente vai gostar de conhecer o Nossa Grama Verde: Um Manifesto de Apoio ao que é Local.

Feirantes da Grama — roupas ecológicas na Feira da Casa Imaginária. Foto: William Gomes.

Vamos voltar aos seus presentes de Natal

Se você não quiser contar tudo isso para quem você tirou no Amigo Oculto, não tem problema. Provavelmente ele ou ela vai ficar feliz em ganhar um presente que não viu nas lojas mais comuns e que ainda é super criativo e original.

Talvez, a história da Júlia ou do Ricardo (que você contou num cartão de Natal) vai mostrar para a pessoa presenteada que é possível acreditar nas suas habilidades e dar o primeiro passo naquela ideia que ela deixou na gaveta esse ano.

Ou talvez essa pessoa seja você. Afinal, está chegando um ano novinho em folha por aí. Comece a escolher agora como você quer vivê-lo.

Neste Natal, compre local.

Essa é a mensagem do Nossa Grama Verde, um movimento em rede de valorização do que é local criado em Belo Horizonte. A gente sonha com uma cidade que é pensada para dar bem-estar e alegria para quem vive nela, privilegiando suas necessidades e vontades.

Sim, é pra acabar com aquela história da grama do vizinho ser melhor, mais fofinha, mais verdinha. A gente tem certeza que a grama do vizinho é bem boa também. Tomara que eles levem o Nossa Grama Verde pra lá.


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