Nossas relações sociais estão em crise. Por isso nos sentimos sozinhos.

Um Movimento Social para Pessoas Desalentadas

O mundo já é um lugar bem atrapalhado. Então, como podemos consertá-lo quando nós mesmos estamos todos também em má situação? Essa é uma pergunta que raramente é feita — entretanto, é uma peça fundamental para soluções de todas as crises mundiais.

Aquecimento global? Não dá para consertar isso e criar relações saudáveis com o planeta se não formos capazes de ter relações saudáveis com a nossa própria família, amigos e com quem amamos.

Política corrupta? Não há como ter líderes capacitados e que tenham compaixão quando nós mesmos não trabalhamos bem em grupos e não conseguimos nos organizar de forma efetiva para agir coletivamente.

A mídia é mentirosa? Não vai dar para discernir entre a verdade e falsidade quando nós mesmos não conseguimos discernir os padrões que causam dano em nossa própria vida.

Violência e guerras sem fim? Não vai dar para conviver com outras pessoas fodidas quando ainda não aprendemos a nos curar de nossos desalentos.

Quando eu escrevi sobre a doença mental nos estágios finais do capitalismo, eu não esperava que o texto viralizasse. Embora eu soubesse que a sensação de vergonha e o isolamento viraram lugar comum nesse sistema econômico tão fragmentado, eu não estava preparado para a imensa demanda por cura que parecia uma inundação quando centenas de milhares de pessoas foram tocadas pelo que eu escrevi.

E agora — algumas poucas semanas depois — eu chego a conclusão que meus amigos ativistas tem ido em um caminho muito errado nos seus esforços para causar transformação social positiva. Eles estão lutando contra seus inimigos culturais quando na verdade o que precisamos é de sermos curados. A “grande transição” nos afastará do consumismo desenfreado que irá destruir o planeta; nos afastará da intensificação da desigualdade de riquezas que está matando de fome bilhões enquanto essas palavras são datilografadas; e nos direcionará no caminho de uma sociedade inclusiva, participativa que consiga suprir as necessidades de cada ser humano, enquanto alcança harmonia na Terra… tudo isso requer ações propositais dos maiores movimentos sociais na história humana.

A maioria de nós, humanos que vivem nesse momento, estão fodidos. Nossas comunidades tiveram seus lugares de encontro extirpados. Nós nos encontramos isolados e sozinhos, com as cabeças na nuvem digital e os olhos fixados em telas. Não estamos mais prontos para olhar nos olhos uns dos outros. A vergonha que sentimos enquanto tentamos fazer tudo certo (da forma como aprendemos) — enquanto falhamos em conseguir empregos, enquanto não damos conta de pagar o aluguel crescente, e enquanto somos desalojados de nossas casas — essa vergonha e humilhação explica o por quê de não nos unirmos.

Então, como criar um movimento social com pessoas fodidas? A resposta é que o processo de transformação social em si deve ser um caminho para a cura. Nós podemos (e devemos) viver esses tempos turbulentos. Embora possa ser verdade que cada um de nós é um refugiado cultural, também é verdade que nós somos a espécie mais social que esse planeta já viu.

Psicólogos irão falar que nos desenvolvemos durante a infância por meio da interação com os adultos. Antropólogos irão explicar o quão importante é fazer parte de grupos tribais. Sociólogos irão expressar como o comportamento “normal” nos é ensinado por nossos colegas. Até mesmo os economistas reconhecem o poder das instituições, pois estas dão estrutura para os mercados e governos.

Sim, nos sabemos muito sobre confiança e cooperação. É a forma que nações são construidas! É a forma como as equipes esportivas atuam. Cada empresa ou negócio na Terra é uma colaboração entre animais sociais que chamamos de humanos.

O que não podemos ser, no entanto, é permanecermos como seres humanos emocionalmente machucados.

Nesses tempos de grande consequências — quando nossas escolhas coletivas vão nos aprisionar em um aquecimento global desenfreado ou nos colocar em um caminho de regeneração — precisamos trabalhar a cura interior, enquanto melhoramos nossa habilidade de trabalhar com os outros.

Eu acredito que esses movimentos sociais de pessoas desalentadas são possíveis e essenciais para o que precisamos fazer juntos nas próximas décadas. É hora de encarar honestamente nossas próprias limitações. Precisamos cada um de nós reconhecer e aceitar nossas falhas e fracassos. Depois disso, devemos rapidamente caminhar no desconforto que isso cria e estarmos prontos para a ação.

Todas as gerações futuras dependem de nós. Devemos entender que precisamos desmontar alguns sistemas. E precisamos cultivar a capacidade humana para, passo a passo, erigir as mudanças que precisam ser feitas. Eu estarei fazendo minha parte, como escritor e designer cultural prático.

Você estará pronto para fazer a sua parte?

Avante, companheiros humanos!

(Artigo original: “A Social Movement for Broken People”, de Joe Brewer)

Joe Brewer (autor)

É estrategista de transformação social, trabalhando em nome da humanidade. É também um pesquisador da complexidade, cientista cognitivo e evangelista do campo de design cultural.

Renato Orozco (tradutor)

É empreendedor social, fundador e presidente da Associação Nossa Cidade e curador da Awesome Foundation Minas Gerais.

AGRADECIMENTO: Agradecemos Joe por ter permitido a reprodução de seu artigo em português. Como uma associação de voluntários que depende do engajamento de seus membros para gerar impacto social, sentimos cada vez mais que é impossível desassociar a transformação social das comunidades em que atuamos do processo de cura e transformação pessoal dos indivíduos envolvidos em nossas ativida.

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