Houve um tempo em que a aventura era somente sobre um, e esse um era único e mudo. Havia um “motivo primal”, claro, qualquer coisa sobre um grande mal, mas a aventura era sobre você, ó nobre escolhido, e sobre seu prêmio, que geralmente se resumia à gloria monetária e sexo com membros da família real. Nesse tempo nem sempre você era bem visto, de começo, mas era sorrir seu sorriso de dentes muito brancos, fazer uns serviços de entrega, sacudir seus cabelos loiros ao vento, matar um ogro agressor sexual ou dois e pronto, nosso salvador chegou. Mas quem é você, realmente? Bom, devemos realmente nos importar? Independente de sua origem — vindo de família humilde; militar de baixa patente do reino; elfo mágico da floresta -, você é o único que pode nos salvar, filtrar da nossa terra esse suposto mal, restaurar o tão precioso status quo. Você, escolhido não só pela sociedade mas desde seu nascimento pelos deuses. E não importa sua força, não importam seus ideais: só você pode nos ajudar. E não existe motivo nenhum, ou motivação que o faça decidir o contrário sobre isso. Você, ó escolhido, não tem escolha. E isso é uma grande honra.

Então por que você, chosen undead, desistiu de seguir seu destino, sua profecia, e montou banca aqui nessa igreja destruída, a espera da eternidade passar? Dias e dias e anos e milênios aqui, aquecendo os pés e apontando dedos para todos que iam e vinham. Ou ainda você, chosen undead, encarcerado por conta própria em uma torre dilapidada afiando infinitas espadas que nunca serão usadas, implorando para qualquer um por uma distração, qualquer uma. Vocês todos, undead e escolhidos, como ousam não arcar com as consequências já traçadas para vocês desde os tempos primórdios, nas profecias não escritas, e tocarem os sinos prometidos? Não existe livre arbítrio quando, de berço, a maldição de seguir em frente cai sobre sua cabeça. Não importa sobre quantas mais ela caiu.

É uma desonra para todos nós, chosen undead, quando um só que seja decide que é mais interessante vender musgo do que conquistar os céus.

Já não acredito mais nos boatos que ecoam por aí. Ouvi dizer que você, chosen undead, viajou por cidades infestadas e igrejas decrépitas e tocou um dos famigerados sinos. O que corre por toda terra é que dava pra ouvir as badaladas roucas do destino, e o som foi tão alto que todos os pássaros abandonaram seus descansos e voaram para longe. Mas quantas vezes me contaram a mesma coisa, e quantas vezes isso nunca se concretizou? Houve um uma vez, não só escolhido como de alta casta, que chegou onde nunca chegamos, e então decidiu guardar seus pertences valiosos em uma sala vazia e a defender para sempre, ao invés de prosseguir. Quem em sã consciência desistiria de cumprir o único motivo da sua existência só por sentimentalidades?

Corre a boca solta que os sinos se foram, as armadilhas se foram, os deuses se foram, que a profecia já foi cumprida há tanto tempo que perdemos a conta. Mas nada disso importa, porque sei meu lugar e sei que eu sou o escolhido, chosen undead, mais do que todos vocês. Está no meu nome, está nas promessas da serpente, e não vou permitir que nada me engane com suas mentiras.

Entendo que o mundo é vasto, que as coisas vivem por si só, que você possa se sentir pequeno e insignificante. Tem sido cada vez mais difícil, chosen undead, ser um de nós. Houve vezes em que me perguntei se você, qualquer um de você e de nós, notava quantas vezes exauria as poucas almas que ainda existiam em mim, com uma estocada bem mirada, virando as costas antes que pudesse me ver ressurgir na última fogueira, enquanto meu esforço e destino eram os mesmos que o seu. Mas não me pergunto mais, não por não querer, exatamente, mas por não existir muito motivo para isso. Não existe muito motivo para muita coisa. Quando eu era tão forte quanto você, chosen undead, recolocava minha armadura esfiapada e ia o mais longe possível, pelos túneis e túmulos e cadafalsos, sabendo que o sino estava depois deles em algum lugar. Hoje não consigo sequer subir todas as escadas, entrar no aqueduto, e não mais enxergar Firelink Shrine. Mas não deixe a vastidão te enganar: não existe nada além do seu destino, não existe vida além da profecia, não existe acontecimento que não seja para o seu bem.

Exceto o fato de eu ser o único e verdadeiro escolhido.

-Mariana Maciel

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