Hoje eu quero falar de música japonesa. De videogame também, mas de música japonesa.

Gosto muito de observar o dia começando. Acordar lá pelas 6 da madrugada, abrir a janela, ir fazendo o café ouvindo música, até ficar claro. Aí aproveito o começo do dia, é um processo deveras gostoso, especialmente quando não se tem nada pra fazer depois. Devido a alguns problemas relacionados ao meu sono completamente desregulado, fica muito mais fácil ter esse momento antes de dormir. Fazem 5 anos ou mais que eu acabo fazendo isso pelo menos uma vez por semana. Durante as férias é mais constante. Inclusive, foi durante as férias que aconteceu: descobri o meu costume favorito: ouvir música que veio do Japão contemplando o começo do dia. Acho que já faz uns dois ou três anos, foi no comecinho da faculdade, cá estava eu ouvindo outra das minhas artistas preferidas — Kyary Pamyu Pamyu — , quando pensei:

“Ei, que tal se eu pesquisasse um pouco mais sobre isso?”

Aí isso desencadeou primeiro num trio chamado Perfume (a minha preferência de verdade), que consequentemente me fez saber sobre Yasutaka Nakata (sério, pesquisa esses nomes aí também, não vai se arrepender) até que descobri Capsule, e daí Pizzicato Five e aí veio o termo “Shibuya-Kei”. Ok, foi sim um pouco mais desorganizado que isso, passei por outras coisas. Mas nessa ordem que tá aí é muito melhor para o que eu queria contar. Enfim, música pop japonesa. Essas músicas que vieram da região de Shibuya tem um charme único, porque tinha um monte de japa escutando Tom Jobim nas rádios do japão — que qualquer outra coisa que você vá ouvir não tem. Não sei explicar qual é o ponto exato, não sei também se quero racionalizar uma coisa assim. O que sei é que tem a garota na frente do microfone, cantando enquanto faz uma dancinha simples que consiste em ficar mexendo só a cabeça e o quadril no ritmo da música. É sinestésico. Se você pegar uma música chave desse estilo e escutar, depois ver o clipe dela (torcemos para que tenha um clipe) e então escutar outra, você visualiza exatamente isso.

É algo fácil de entender ouvindo. Bom, eu não sei vocês, mas de tanto ver esse movimento posso dizer que tenho uma preferência por garotas que fazem ele enquanto cantam — só falando, quem quiser me seduzir que busque referências em Toshiko Koshijima ou Nomiya Maki. E comecei (ou terminei, se for o caso de ficar acordado) muitos dias com isso. Combina com café e manhã esse tipo de música. Sem contar que é bom de ficar olhando os clipes, ou a janela aqui do quinto andar do prédio.

Não conta pra ninguém isso, mas às vezes odeio ficar acordado até tarde.

Depois descobri que aquele Tom Jobim que os japas ficavam escutando nas rádios também combinava muito com esse meu costume. Mas aí vou ter que criar outra historinha pra isso, o que não vai dar tempo.

Ouvir música pop japonesa me fez descobrir outra coisa: que tem um joguinho com a trilha sonora inteira baseada naquelas músicas que gosto tanto. Graças a uma certa playlist do youtube. Katamari Damacy. Imagina só, poder jogar video game e ainda ouvir um tipo de música que gosto muito sem precisar ligar no computador (vamos fingir que trilhas sonoras de jogos não existem nesse texto) outra música lá, no media player. Eu até conhecia Katamari Damacy antes, mas era daquele jeito de primeira impressão de gente que tá vendo coisa do Japão: “uooou, esses japinhas são maluquetes mesmo hein” e queria jogar baseado nisso. Felizmente, não joguei nessa época. Felizmente, a gente cresce. A melhor parte de ter ouvido a trilha sonora toda e saber só o conceito do jogo foi ter o choque da primeira vez jogando: minha imaginação tinha quebrado. Eu pensava só numa bola rolando por aí e juntando coisas. É bem diferente. Na verdade, acho que é uma boa hora pra explicar o que é Katamari Damacy. É assim: o todo poderoso Rei Do Cosmos tem um filho, o pequeno (minúsculo) e jovem príncipe; e já que ele tem esse filho, ele vai aproveitar que ocorreu um problema: todas as estrelas sumiram. Ele vai jogar a responsabilidade de fazer novas estrelas e constelações em cima do filho. Enquanto isso, é claro, ele vai fazer uma bela turnê pela Terra com a Rainha Do Cosmos. Você já visitou a Rússia? E a Espanha? Que tal o Brasil? Meu Deus, como a Terra é cheia de coisas. Você também deveria tentar visitar esses lugares um dia. Ahahahaha! Até parece.

Ah! Continuando…

Já que todas as estrelas lá no céu sumiram, as noites românticas com a bizuzinha olhando as estrelas, enquanto ela (gosto de imaginar que é ela, não entendo muito de constelação) aponta para as constelações lá no céu, fazendo carinho em seus cabelos, nunca mais existirão. Alguém precisa dar um jeito nisso e, como dito anteriormente, vai ser o príncipe. Ele vai usar um… Katamari pra juntar o máximo de coisas possíveis na Terra (!) e formar uma estrela, constelação (essas têm receita pra fazer) ou até a Lua. O Katamari é que nem uma bola, uma bola muito maior que o príncipe. O objetivo é girar ela por cima das coisas para elas grudarem no Katamari — quanto mais coisas no Katamari, maior ele fica. E meu Deus, como a Terra é cheia de coisas.

Gosto muito de jogos que fazem coisas interessantes com relação a controles. Aqueles que tem um jeito estranho de andar, executar alguma ação e que exige um trabalho mental extra por não ser o que… um jogo normalmente é.

Metal Gear Solid 3 fez isso com a sensação de segurar armas, você tem que apertar várias coisas: segura um botão pra entrar na visão de primeira pessoa, segura outro botão pra segurar a arma, depois disso, usando o analógico você mira, e aí solta o botão de segurar a arma pra atirar. Ufa. Juro com todas as minhas forças que esse processo fica gostoso e tranquilo de fazer quando se acostuma com Metal Gear Solid 3.

Movimentar um Katamari é tão Katamari Damacy quanto Katamari Damacy é suas músicas. Funciona assim: você move ele para frente, trás, direita e esquerda usando o botão dessas direções em ambos os analógicos. Com as duas mãos, igual nosso príncipe. Para girar em volta do Katamari, assim mudando a direção com a qual ele está de frente você move para esquerda numa mão e direita na outra, o contrário também serve. R3 e L3 faz você pular num ângulo de 180° no Katamari (extremamente útil!!). As coisas se comportam como… coisas de verdade, mesmo. O Katamari vai bater no que for grande demais pra ele e as coisas que ele consegue rolar por cima, ao grudarem, vão ter cada uma delas uma fricção diferente, de acordo com o tamanho do Katamari (eu repeti isso demais já) e com o tamanho delas. Não é algo genial, na verdade é (ou deveria ser) a coisa mais natural do mundo. Quer dizer, imagina só, as coisas se comportam como coisas. Mas sério, quando o Katamari (de novo!) estiver meio grandinho, tenta pegar uma cerca, um poste ou qualquer coisa com forma cilíndrica e grande. A sensação é extremamente engraçada. Dá pra dizer que sem as coisas que são chamadas por muitos de “presentation”, Katamari Damacy continuaria sendo um ótimo jogo. Ele é puro demais.

Eu gosto que o Rei Do Cosmos é uma pessoa (pessoa?) que conhece muito do mundo. Ele sabe muito sobre vários idiomas, já passou por tudo quanto é lugar do mundo com a mulher dele e agora tem um filho que resolve os problemas pra ele. Alias, é ele quem carrega as coisas lá no planeta Terra pro príncipe fazer uma estrela. Se você já jogou Katamari Damacy num playstation 2 com um leitor problemático, ou com um disco um tanto quanto defeituoso, você também sabe exatamente o que ocorre na tela enquanto uma fase está carregando. O Rei fala uma por uma as coisas que estão carregando, isso vai desde árvores, cães, pessoas, pastas de dente, peças de joguinho de tabuleiro, sentimentos, ilhas, deuses, cidades, e assim em diante. É um grande apreço por todas as coisas que temos por aqui e dá pra sentir o jogo querendo que você olhe e preste atenção em cada uma delas em algum momento; ele coloca cabines de telefone em circulo numa fazenda, uma sequência de bananas que fazem um caminho que te leva diretamente pra outra sequência de abacaxis que estão jogados ali, no chão. Aliás, jogados não, colocados. Tem reuniões de maloqueiros em lugares improváveis, coroas, estátuas, pessoas, super-heróis, o monstro do Lago Ness, peças de mahjong, carro.

Alguém no time responsável pelo jogo teve o trabalho de escrever sobre cada uma dessas pequenas coisas, que você pode encontrar tudo num menu que conta todas as coisas que você pegou, separando por tipo, tamanho, nome, lugar, etc.

Ah ! Permita-me outro parênteses: a disposição das coisas é genial também: você começa dentro de uma casinha simples, mas tudo parece gigante porque seu Katamari tem poucos centímetros de altura. Conforme ele cresce e você já pode pegar coisas maiores, você percebe que aquela casinha fazia parte de uma cidade, que fazia parte de um país, numa ilha, no mar, no mundo. O que quero dizer é que se a vida é linda, Katamari Damacy é provavelmente a homenagem mais singela a ela.

Nós, aqui da NOT_VIDEO, consideramos o homem que escreveu descrições para as coisas no mundo alguém que está muito acima de tudo. Ele provavelmente é um grande escritor. Eu tenho certeza de que ele seria um, se quisesse. Se duvidar, essa pessoa é o próprio Sr. Takahashi. Nós não achamos necessário escrever mais sobre essas coisas, sem contar que hoje em dia há um twitter inspirado nas escritas que esse jogo contém. Se alguém nos perguntasse agora se Katamari Damacy é um “clássico cult”, nós diríamos que não, Katamari Damacy não é um clássico cult. Ele é um clássico.

Eu penso muito mais em Katamari Damacy do que jogo ele — na verdade devo ter jogado ele duas ou três vezes, porém passei o triplo ou quádruplo do tempo de jogo só ouvindo suas músicas. Minha música de videogame preferida tá nele, ela soa bonita, tem uma garota com uma boa voz cantando, é tanto sobre Katamari quanto é sobre amor e me lembra de todos os pop japonês que ouvi na vida. Quando terminei pela primeira vez e o Katamari estava num tamanho onde ele alcançava o céu, então conseguia rolar por nuvens, deuses, ilhas inteiras e até do arco-íris, eu não conseguia fazer nada além de ficar com um belo sorriso no rosto. Foi quando todas as peças encaixaram e eu entendi porque isso era tão, tão bom.

Voltei pra casa e, assim que o outro dia estava para começar, tive de ouvi-la novamente.

-Lucas Rafael Andrade