Hoje descendo a rua para pegar um ônibus e então um metro e então comprar as coisas que (não) precisava para me manter viva em casa vi um gato. Uma coisa comprida e peluda, em um tom amarelo meio sujo, sentado entre dois carros que estavam estacionados na beira da calçada. Ele tinha a cabeça grande demais para o corpo desajeitado, porque tinha aquelas bochechas inchadas que gatos tem quando brigam demais na rua, e me olhava com dúvida/desinteresse. Parei e encarei de volta, direto nos olhos, porque quando encaramos outros animais precisamos demonstrar segurança e superioridade e jamais desviar o olhar, raramente piscar, até que o mais fraco desista. O homem não chegou onde está em seu estágio evolutivo desviando o olhar ao enfrentar tigres e mapinguaris, então ali me mantive por milênios. O gato amarelo piscou um olho, então o outro, e decidiu que era muito mais relevante higienizar seus genitais do que disputar território no meio da rua com uma menina mirrada. Mais uma vitória para o ser humano.

Tirei o celular da bolsa para tirar uma foto do gato e registrar sua fraqueza felina, o que ele prontamente respondeu levantando correndo e entrando ligeiro pelo portão da casa mais próxima. Ainda deu tempo de ver seu rabo pelado quando pulou em uma estátua feia dentro do pátio e dela para o quintal da casa do lado.

Quando cheguei em casa depois de participar do mundo extremo das compras, tinha um rato morto bem na frente a porta. Era um ratinho pequenininho, com uma expressão meio tristonha, o bucho escapando por um corte indefinido onde suponho fosse sua barriga. Lá na outra ponta do muro consegui ouvir a Diná, assassina de ratos bebês, miando e correndo até onde eu estava para me receber. Manobrei em volta do ratinho, coloquei a sacola dentro de casa, afofei a gata de leve, peguei o morto com uma pazinha e joguei no terreno baldio vizinho. Era de lá que os ratos vinham, era para lá que deveriam voltar. Dentro de casa tinha um outro gato, gordo e cinza, dormindo no encosto do sofá. O outro gato, tigrado e miúdo, entrou correndo pela janela dos fundos miando desenfreado na torcida que eu tenha esquecido que alimentei todo mundo antes de sair e alimente de novo. A outra gata, preta, entrou logo atrás, trazendo uma mariposa contorcionista na boca. Presentes e mais presentes.

Em vez de alimentar os gatos pela quarta vez no dia, tirei da sacola um brinquedo novo, aquelas bolinhas de plástico vazadas que tem um sino irritante dentro. Balancei na frente de um gato e do outro, um deles tentando bater a bolinha da minha mão, e então joguei no chão. Eles olharam um instante para o brinquedo, então um deles me olhou de novo e inclinou a cabeça. O outro lambeu a pata, passou na cabeça e decidiu sair de volta pela janela. O gato gordo dormindo no sofá abriu um dos olhos e me encarou feio. A outra gata, a Diná, pegou com a boca a mariposa contorcionista que a gata preta tinha colocado no chão, subiu no muro e pulou para o terreno baldio, imagino para dar um enterro digno não só ao ratinho mas também à moribunda.

Mais tarde fui colocar umas roupas no varal e deitado e preguiçoso em cima da máquina de lavar estava o gato malhado vadio que volta e meia vem comer um pouco de ração e afiar as unhas na capa plástica que protege o eletrodoméstico. Não posso dizer que ele é meu gato, mas a linha entre um gato ser de fato seu ou ser só um gato que gosta de você e todo dia aparece para comer e dormir é bem tênue quando se mora em casa, não apartamento. Você pode dizer que aquele gato ali é seu porque você mandou castrar e vacinar e acorda com ele dormindo no seu travesseiro quando está frio, mas ele dorme pelos telhados da vizinhança tanto quanto os gatos que não tem dono nenhum. É uma vida complicada essa de pátio aberto, mas o ponto é que o gato vadio malhado volta e meia vem comer, leva umas amassadas, e então fica por ali dormindo. Dessa vez precisei tirar ele de cima da máquina de lavar porque tinha que pegar as roupas lavadas, e em troca ganhei meia indignação e meia ronronada.

Às vezes outros gatos estranhos aparecem, comem da comida que deixo por ali e vão embora. Às vezes um que outro tenta ganhar no grito o direito de posse do pátio, mas não dura muito tempo, não porque outro gato toma seu lugar, mas porque ele simplesmente enche o saco e vai limpar seus genitais com a língua em outro quintal. Uns são fofos e aparecem sempre, como esse gato vadio que é malhado que nem uma vaca, ou meus próprios gatos que digo que são meus só porque tem meu nome na carteirinha de vacinação. Outros são terríveis — tem um gatão laranja que parece o Garfield, uma vez tentei chegar perto dele com o pratinho de ração e ele quase arrancou meus olhos fora. Tem um outro gato que é igualzinho minha gata preta e por algum motivo aparece de noite e segue ela para todo canto, mesmo seu amor sendo impossível por ela ser castrada. Tem um gato branco com uma mancha grande marrom do lado da barriga que só gosta de comer minhas flores e nunca toca na ração. Tem um outro cinza todo tigrado que gosta de deitar perto da piscina para pegar um sol, mas nunca chegou perto da comida ou de mim.

Dizem que também tem um que se veste de samurai, um que se veste de cozinheiro, uma gatinha que usa peruca e óculos escuros, e um outro que se fantasia de cowboy, mas nunca encontrei nenhum deles. Sei que você pode ter tudo isso na sua vida também, acessando a appstore mais próxima.

-Mariana Maciel

Show your support

Clapping shows how much you appreciated NOT_VIDEO’s story.