Torcer

Notas de rodapé de uma arquibancada qualquer


Quando eu era criança pensava muito no dia em que iria a um estádio pela primeira vez. O futebol me fascinava, como a tantas outras crianças. Desde cedo, porém, sabia que nunca seria jogador, mas tinha toda a certeza de que saberia, como muitos, ser torcedor. Eu adorava ouvir o barulho, sempre pelas transmissões de tv, e aquele povo todo pulando. Como eu não morava em Belo Horizonte, a chance de ir no campo era pequena. Estádio de futebol não é lugar de criança, diziam.

Oras, lá é lugar de basicamente pular e gritar sem parar, vendo futebol. Se isso não é lugar de criança, não sei o que pode ser.

Haviam duas questões importantíssimas para mim, ao observar aquele povo todo num grande estádio, como o Mineirão. A primeira era: “Como é que eles fazem para não cair?” Era uma pergunta válida. Aquele tanto de gente junto, pulando, gesticulando, já me dava agonia, os que ficavam no fim da arquibancada então. Meu Deus. O medo era tão real, que vez ou outra tinha um que caía no fosso. Morria de medo de cair no fosso.

Outro medo latente, e muito mais sério do que cair no fosso, era o medo de não saber torcer. O que eu faço na hora do gol? Eu só grito? Eu grito gol igual narrador? Eu pulo olhando pra frente pra não cair no fosso? Essas perguntas, na cabeça de uma criança, que se importa de verdade com isso, é coisa séria. Muito séria. Eu sempre falo que tem coisas que ninguém ensina na vida, que deveriam ensinar.

O que fazer na hora do gol, por exemplo, é uma das coisas que deveriam ser explicadas, mesmo que teoricamente, para uma criança. Até porque não tem como explicar como acontece, e o que exatamente você deve se comportar no momento de uma catarse cega de alegria.

Ninguém sabe

Acontece é que até hoje, depois de várias idas a vários estádios, eu não sei o que que faz na hora do gol. Se uma criança me perguntar, eu acho que diria para ela que você não tem que fazer nada. Você só precisa estar lá. Se importar. Amar loucamente um símbolo, uma ideia. E deixar que a mágica aconteça.

Ser torcedor do Atlético, me ensinou muito sobre futebol. Principalmente que futebol não é título e que merecer não quer dizer muita coisa. Na verdade quer, mas você tem que esperar muito, muito tempo para essa conta se pagar. Me ensinou como é a relação do amor com o sofrimento e o êxtase.

Hoje parece bonito ser torcedor do alvinegro mineiro. Você falar para algum paulista, carioca, ou qualquer um que não é daqui, que é atleticano, ele meio que já te olha diferente. Eu nunca torci pra outro time, então não posso dizer que é “melhor”, “pior.” Só posso dizer que a história desse clube é única e, como eu sou um cara que gosta tanto da viagem quanto do destino, a forma com tudo vem acontecendo é que me emociona tanto.

Às vezes, em momentos de pura loucura, penso que minha vida seria melhor se eu não gostasse de futebol, de Atlético, de nada disso. Até invejo quando ouço um “não gosto de futebol.” Eu não só gastaria dinheiro com outra coisa, como teria infinitas horas de mesas redondas e programas esportivos gastas com outras coisas.

Você já se perguntou porque tem tanto maluco que viaja milhares de quilômetros “só” para ver um time jogando bola? Você já se perguntou porque tanta gente se submete a muita coisa para ir ver um jogo de futebol? Você já se perguntou quantas oportunidades muita gente perdeu na vida, por ir num estádio?

Dizem que quando você atinge o orgasmo sua mente fica totalmente desligada por alguns segundos. Você atinge o cosmos, o significado da vida, ou coisa assim nesses instantes. Torcer é mais ou menos a mesma coisa. Envolve gemidos, urros, muito suor, corpos balançando e momentos de puro prazer. Além dos tais segundos de desligamento.

Há poucas certezas na vida. Eu por exemplo, só tenho duas. Uma que eu vou morrer. A outra que até lá, eu vou torcer.