Ao Trajano, com carinho

Éramos poucos lá na Unesp de Bauru, mas todos os moleques que gostavam de esporte e estudavam Jornalismo nos anos 90 queriam trabalhar na ESPN. Era um canal bacana, que fazia reportagens legais, que batia nos poderosos, o sonho de todo garoto. O SporTV tinha mais jogos e tal, mas era da Globo, e todo mundo quando é jovem e estudante de Humanas detesta a Globo. (Eram tempos em que a gente assistia Além do Cidadão Kane em VHS durante as aulas de Comunicação Comparada.)

A gente nem sabia, mas a ESPN era tudo o que era por causa do José Trajano, aquele cara com um cabelo estranho que começou a aparecer no Cartão Verde depois que o Armando Nogueira morreu. Um desses moleques realizou o sonho: o Vinicius Nicoletti terminou a faculdade e se arrancou pra São Paulo decidido a trabalhar na ESPN. Fez fono, perdeu o sotaque de Itapeva, virou um baita repórter e ficou mais de 15 anos na casa (fez a Olímpiada pela Band e agora não sei mais dele).

Eu fui pra São Paulo um ano depois, mas desde a faculdade sabia que TV não era minha praia. Sempre, no entanto, em todas as redações de impresso e eletrônico que eu trabalhei (e não foram poucas), sintonizava com prazer na ESPN e pensava “Quem sabe um dia, né?” Era o canal que tinha os melhores programas, os documentários, as melhores entrevistas.

Durante esse período eu peguei certo bode do Trajano, menos pela forma do que pelo conteúdo: ele me parecia um cara preso demais ao futebol do passado, a um jogo que já não existe, uma daquelas viúvas de Telê e da seleção de 70. Mas nunca deixei de admirá-lo pela coragem com que defendia seus pontos de vista, mesmo quando eles eram claramente contrários aos da maioria.

O encanto pela ESPN foi se perdendo aos poucos. Primeiro quando eles criaram a rádio, e eu percebi que os jornalistas lá (repórteres, comentaristas, apresentadores) trabalhavam PARA CARALHO, pareciam nunca ter folga. Depois o Trajano saiu da chefia, eles acabaram com programas bacanas e perderam o PVC pra Fox — e sem o PVC, e já sem o Trajano no comando, parece que a graça foi embora de vez. Em vez de reportagens, bate-bolas intermináveis, debates sem sentido, aquela mesmice de todas as outras emissoras.

Até que de repente o dia de realizar o sonho chegou de um jeito meio torto, no fim de 2014, quando meu amigo Fabio Chiorino me convidou pra escrever um blog sobre o Palmeiras no ESPN FC, a área dos torcedores dentro do site. Não era exatamente o “trabalhar na ESPN”, mas era um jeito de fazer parte daquilo e de ter um espaço pra expor minha visão sobre o time e o futebol em um lugar com muito mais audiência do que este simples blog. São quase dois anos de um trabalho bacana à frente do Corneta & Amendoim, com muito reconhecimento, algumas tretas e olhares estranhos na última vez em que fui ao estádio, mas, acima de tudo, espaço para escrever o que eu quero do jeito que eu quero. Tenho muito orgulho do projeto e do que ele rendeu até hoje.

A saída do Trajano, anunciada hoje, é um tapaço na cara de todo mundo que tem saudade da velha ESPN — que hoje é uma empresa na qual o Trajano não serve, mas o Alê Oliveira faz sucesso com suas piadas sem graça misóginas. Dá um desânimo pensar que o leifertismo venceu e até a sua emissora favorita caiu nessa, às vezes a vontade é jogar tudo pro alto, mas é preciso resistir e defender o jornalismo e as causas nas quais acredito. Em nome do Velho Trajano, que não me conhece mas a cada dia admiro mais, resistiremos.

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