Aprender sempre: vamos juntos?

(Em tempos bicudos para a educação brasileira, uma breve reflexão sobre meus velhos professores e a missão de ensinar — e de aprender, como tenho percebido nesses dois anos em que estou na profissão. O texto foi publicado no Jornal Expresso, produzido por um grupo de meus alunos na FCAD/CEUNSP que pode ser lido clicando aqui. Leiam que está muito bom.)

A primeira delas foi a Tia Cris, mas eu confesso que não lembro da cara dela. Não sobrou nenhuma foto, apenas o nome ficou gravado na memória. Depois vieram as tias Salete e Zélia, no que, naquele tempo, ainda se chamava de pré.

Já no chamado primário, hoje Ensino Fundamental I, vieram a Tia Nadir, a Madre Rosa (que quase teve uma síncope cardiorrespiratória quando minha mãe disse que ia me tirar do colégio ao fim da 2ª série porque a escola estava cara e, na visão dela, pouco produtiva). Mudei de escola, vieram a Tia Rita, a substituta Marisa. o seu Odilo. Então a família se mudou para Sorocaba e fechei o primário com a Dona Wilma.

No ginásio, começou aquela coisa de um professor para cada matéria e a memória se torna mais exigida, mas ficaram registrados a Maria Regina de História, o William de Matemática, a Hilídia e a Heleni em Português, o seu Roberto de Ciências, pobre seu Roberto que falava “pranta” e “pé-de-atreta” e era zoado até a morte, como adolescente é mala e propotente, né? Em outra escola, conheci o Pedrão de Matemática, o Paulo Jackson de História (e também técnico do time de vôlei campeão dos Jogos Escolares de 1992, categoria infantil, meu único sucesso esportivo da vida), a Mariclara de OSPB e Geografia, que exigia que a gente respondesse “presente com a graça de Deus” e nem reclamar eu podia porque era a melhor amiga da minha mãe. A Regiane de Inglês deu aquele exercício de “preencher lacunas”, cada dupla escolhendo uma música, e nossa turma quase completou o disco preto do Metallica. (Eu e meu amigo Amendoim fomos de “Sad But True”, foi um choque. Por onde andará o Amendoim, aliás?)

No colegial (hoje Ensino Médio), comecei a trabalhar e meio que desandei pra escola. Matava muita aula, ficava no pátio jogando truco ou descia pra quadra jogar bola. No segundo ano, fugia pra namorar uma garota que morava ali perto. Mas ainda tenho lá minhas lembranças da Tina de Matemática, do Carlão de Química, da Tânia de Estatística, da Benedita de Contabilidade, da Idalina de Português, do Zé Roberto e do Vitório que dividiam as matérias técnicas de Processamento de Dados, curso que eu empurrei com a barriga quase o tempo todo, pois logo vi que a informática para mim seria só meio e não fim.

Veio então a faculdade de Jornalismo, na qual cresci para burro com as aulas do Manoel de Linguística, a Lúcia Helena e suas visões fálicas em todas as aulas de Semiótica, o Clodoaldo filosofando, o Max antropologando e o Murilo sociologizando. O Angelo ensinando a botar a mão na massa, o Luciano mostrando onde e o que colocar as coisas, a Maria Helena cobrando nas aulas de TV “faz passagem, Fernandinho” e eu me recusando, o Dino brincando com a gente na rádio.

Diploma na mão, muitos professores nas redações da vida (abraços especiais para o Benevides, o Celso, o Arreguy, o Colibri e o Jotabê), um retorno tardio à pós-graduação para o Edvaldo e o Sérgio me ensinarem que jornalismo e literatura podem ter tudo a ver e que uma boa matéria vai além, muito além de um bom lide.

(Tudo isso sem esquecer o Sergio de Matemática e a Inês de Estudos Sociais, ambos de vida, os maiores professores que alguém poderia ter em casa, inclusive saudades.)

E eis que, depois de passar uns 20 dos meus até então 35 anos em salas e bancos escolares, apareceu a chance de ser professor. De ensinar um pouco da minha profissão, de mostrar a jovens esperançosos o caminho para a comunicação num mundo repleto de transformações, num momento em que o jornalismo repensa sua essência e existência, vivendo um futuro tão incerto quanto o preço do dólar na semana que vem.

Dar esse norte, ou tentar encontrá-lo junto com a molecada, é o que venho tentando fazer nesses dois anos em que estou na FCAD/CEUNSP. E é muito bacana ver que a gente pode ser útil na formação de alguém, colaborar para que uma pessoa alcance seus sonhos e desenvolva seu potencial. Fazer a diferença na vida de alguém, ainda que mínima, é um prêmio e tanto.

Mas vou contar um segredo: o que eu mais faço como professor, no fundo, é aprender. Na hora de preparar as aulas, nas apresentações para os alunos, nas discussões sobre os trabalhos, nas reuniões de pauta para os nossos projetos de labortatório e nos TCCs. Junto com os alunos, ou por causa deles, o tempo todo descubro coisas novas, recordo informações vistas anos (ou décadas) atrás, revejo conceitos, encontro maneiras diferentes de encarar o mundo e o trabalho. Até a oportunidade de escrever um texto para um jornal impresso eu tive, olha só, depois de uns oito anos trabalhando só com internet.

E assim segue essa gloriosa missão que é aprender. Aos alunos que me proporcionam essa experiência diária, meu muito obrigado e o convite: vamos juntos?