Fiscais do alheio

Dia desses uma das minhas alunas do 2º semestre de Jornalismo, que mora numa cidade relativamente pequena (com cerca de 50 mil habitantes) me mandou em plena tarde de domingo uma saraivada de perguntas sobre o que fazer, jornalisticamente, com a situação abaixo:

Profffffff
preciso de uma orientação…
desculpe-me pelo incômodo em pleno domingão
mas é que apareceu uma boa matéria hoje…
estamos com um problemão aqui no bairro..
os bares são obrigados por lei a fecharem 1:00 da manhã
depois disso
aproximadamente 300 jovens
de 7 a 17 anos, ficam com disputa de som
usando droga
rolando prostituição
enfim
a questão é que os moradores do bairro já foram reclamar, fizeram B.O, as viaturas em muitas vezes não encontram-se disponiveis, dizendo que não têm só esse bairro pra atender e o conselho tutelar não faz nada em relação a horário de menor..
o que eu posso fazer?
meu tio mandou um e-mail pro prefeito, e é claro nada foi feito kkk
e aí que entramos em ação não é? rs
o que eu posso fazer?
uma matéria e procurar um jornal da cidade para publicar?
ou Tv Tem?
ou não seeeeeeeei
poderia me orientar?
obrigadaaaaaaaaaaa desde já

E aí eu fiquei pensando nas respostas que daria para ela. Ela pode tentar fazer uma reportagem infiltrada no local, com câmera escondida, pegando eventuais flagrantes de crimes — claro, depois mostrando esses flagrantes para a polícia e ouvindo a versão das autoridades.

Como ela é estudante, porém, acho complicado fazer esse tipo de matéria, que exige um pouco mais de cancha, pode ser perigoso mexer com isso para quem ainda mal sabe manejar o gravador, então a opção é fazer uma denúncia a uma das emissoras da região, por telefone ou por um aplicativo colaborativo que quase todo mundo hoje oferece.

(Particularmente, sou contra câmera escondida, mas isso é uma opção pessoal minha. Acho que o jornalismo já prestou importantes contribuições à sociedade com esse tipo de coisa, mas não me agrada bancar o detetive e fazer papel de polícia sem ter cursado Barro Branco. Mas, enfim, reitero, esse sou eu.)

Também é preciso, claro, avaliar a relevância da pauta. Quantas pessoas estão na confusão? Quantas pessoas são afetadas? O que de fato acontece? Isso é importante mesmo ou é só um mimimi de meia dúzia de pessoas? Tudo isso, afinal, é decisivo para definir se uma pauta vira ou não notícia, afinal, e qual destaque ela eventualmente terá em sua publicação.


Quanto à técnica jornalística, creio que é mais ou menos isso. Mas essa história ficou me martelando desde que as mensagens chegaram. Minha primeira reação à pergunta “o que eu posso fazer?” foi “Deixa eles em paz”. Não vou a essa cidade há uns 20 anos e obviamente não tenho ideia do que acontece nessas noitadas, mas as palavras-chave “prostituição” e “usando droga” me dão a clara sensação de que tem um excesso de moralismo e de controle da vida alheia nessa história aí. Afinal de contas, cidade pequena, jovem fazendo “arruaça”, só podem estar drogados fazendo orgia, não é mesmo?

Bom, e se estiverem? Estão cometendo algum crime? Ou só o pecado nefasto de estar se divertindo fora dos limites que alguém decidiu por bem estabelecer? Afinal “gente de bem não fica na rua depois da 1 da manhã”, “lugar de jovem é em casa”, “é preciso fazer coisas saudáveis” e blablabla.

A meu ver, uma “arruaça” dessas só diz respeito a quem está de fora se: 1. Houver algum crime sendo cometido; 2. Está incomodando o seu sono; 3. Seu (sua) filho (a) está no meio. A resposta para alguma das perguntas é “sim”? Então você deve se preocupar. Se para todas a resposta é “não”, e mesmo assim você “um absurdo aquela molecada fazendo bagunça”, lamento, mas você é mais um dos milhões de fiscais do alheio que infestam a sociedade brasileira, preocupados não apenas com sua própria vida, mas que ocupam seu tempo com algo que não lhe diz o menor respeito. Gente que acha absurdo os outros se divertirem, que no fundo não tem prazer na propria vida e se incomoda com o prazer dos outros.

E vá lá se ainda fosse só isso, meia dúzia de fofoqueiras querendo meter o bedelho na diversão alheia. E quando a preocupação sai da diversão e passa a ser sobre a vida sexual da pessoa, com quem ela dorme ou transa? Pois é, chegamos à homofobia. Por trás de cada Candinha pode estar um Fidélix, querendo “afastar o jovem da rua” e decidir o que “moral” e “correto”.

Portanto, que tal pensar melhor antes de se preocupar com a vida dos outros?

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