Te amo, mãe. Tô com saudade

Oi, mãe. Tá tudo bem por aí? Espero que sim, quero acreditar que sim. Mande lembranças ao pai, mas hoje eu quero falar com você. Quero falar que eu te amo e tô suando e chorando de saudades.

Hoje faz 22 anos que você foi embora daquele jeito estranho. Na madrugada depois de Brasil x Camarões na Copa, único jogo da campanha do tetra que a gente viu junto em casa. Horas depois de pedir que eu pegasse uma garrafa de água com gás lá no quintal. Tava tão frio que, mesmo fora da geladeira, a água estava gelada. Foi nossa última conversa. Como agora, também era uma madrugada de sexta pra sábado.

Por anos eu carreguei uma certa culpa inconsciente. Porque eu fiquei até feliz, ou aliviado, de você ter pego aquela gripe, porque assim você não iria na reunião de pais da escola que seria no sábado. E não saberia da bronca que eu tinha tomado da coordenadora por causa da animação pornô que acharam no meu disquete. (De toda a classe, é verdade, mas você ia dizer o de sempre, “você não é todo mundo, é o meu filho”, eu já devia estar até preparado.)

Eu estudava Processamento de Dados no colegial técnico e todo mundo tinha seu disquete. Estava no segundo ano e meses antes alguém tinha trazido uma animação muito tosca, um pré-GIF animado, com dois desenhos que mostravam uma mulher cavalgando sobre um cara com o pênis em diferentes alturas. Você apertava a barra de espaço e parecia um desenho pornô. Sim, era tosco, mas não se esqueça de que estávamos em 1994 e metade dos computadores da escola eram com monitor de fósforo verde. Enfim, era proibido não só por ser pornô, mas porque podia passar vírus pra rede da escola. Como ninguém assumiu o “crime”, reviraram os disquetes de todos (cada um tinha o seu que não saía da escola) e deram uma carcada em todo mundo,uma espécie de advertência verbal. Mas a coordenadora conhecia a minha mãe, e achava que eu era ótimo aluno, por isso mesmo ia contar a ela e não adianta eu pedir que não.

Eu só não achava que aquela gripe, que eu também carregava desde a semana anterior, ia virar pneumonia, que ia descompensar sua diabete, provocar uma parada cardiorrespiratória e te levar embora, tudo isso em questão de horas. Malditos tempos sem comunicação por celular, sem whatsapp, aquele desespero de o dia amanhecer e a cama de vocês continuar vazia. Até eu acordar com a porta, ir ao corredor, dar de cara com o pai e a Mariclara, sua melhor amiga, minha ex-professora de OSPB e Geografia que cobrava que a gente respondesse à chamada com “Presente com a graça de Deus”. E perguntar o que estava acontecendo, e antes mesmo de ele falar eu tive um arrepio, achei que você tinha ficado internada no hospital, e ele “sua mãe faleceu”, e eu virei as costas e voltei ao quarto. Dormir. Não chorei, não gritei, não acompanhei a conversa deles com o Caco, que só tinha 9 anos.

Lembro de ter pensado apenas “não quero que tenham dó de mim por ser órfão” e pegar no sono até uma hora indeterminada. Não comi. Não sei o que se passou em cada hora daquele dia — que era um sábado, como hoje. Acordei à tarde ao me dizerem que tinha gente em casa. Não lembro de todo mundo que estava lá, mas eram alguns da turma da igreja e outros dos vicentinos. Nominalmente, só me lembro da Patricia, que nunca mais vi, e da Flávia. Fiquei algumas horas ali, ligamos a TV, estava passando algum jogo da Copa, fingimos um pouco de normalidade, logo voltei a dormir. Nao lembro de mais nada do dia.

A Flávia era minha então ex-namorada, tínhamos terminado dias antes e voltamos naquela hora sem nem conversar sobre o assunto. Terminamos de novo e de vez meses depois. Ela hoje tá casada com o Rafael, também meu chapa desde aquela época, e eles têm um lindo casal de gêmeos. Não sei se eles vão ler. Espero que não se chateiem de eu nominá-la aqui.

No domingo, resolvi que queria ir no seu velório. Estava um frio do cão, dizem que chegou a zero grau em Sorocaba naquele dia. A Tia Ana me levou, acho que ela ainda tinha o Chevette prata. A Flávia foi junto, acho. Cheguei lá na Ofebas, era no salão maior, estava lotado, muitos amigos meus, inclusive da escola. Fiquei pouco tempo. Fui te olhar só uma vez, não tive coragem. Logo depois estava em casa de novo. Não sei o que comi. Dormi. Meu pai voltou. Não me lembro de mais nada do dia.

Durante a semana, dois amigos da escola foram em casa, o Alexandre, vulgo Formiga, e o Fábio. Eles também foram na missa de sétimo dia, que foi na sexta à noite. Nem era dia de missa normal, mas o padre fez essa só pra você, eu acho. Encheu a igreja. Foi bonito, e eu lembro até hoje de algumas das músicas. Tocou Herdeiros do Reino, do Padre Ricardo, aquela linda que conta a história do Juízo Final, Mateus 25, “vinde benditos de meu Pai”. E tocou uma bem simples, mas que eu adorava, de entrada:

No céu, onde não há dor, não há tristeza e nem mesmo angústia
eu vou morar com o meu Jesus, onde o inimigo ausente estará
Em plena luz junto de Deus bendirei o nome do meu Senhor
E com mil cânticos eu louvarei, e com Deus pra sempre viverei

(Nunca mais ouvi essas músicas em missa nenhuma sem chorar; mas naquele dia, na missa, não chorei.)

E aí a gente foi aprendendo a tocar a vida. Eu, o pai, o Caco, não tinha outra saída. A vó Amália armou um esquema pra vir aqui fazer o almoço e ficar com a gente até o começo da tarde, ainda bem que ela morava perto, depois ela veio morar aqui em frente de casa. Eu lembro que demorei pra chorar mesmo, a valer, foi só duas semanas depois, estava em Serra Negra com a família da Flávia, vimos Brasil x Holanda, depois o capítulo de A Viagem, não lembro o que foi o gatilho, talvez tenha sido a novela, mas eu passei pelo menos meia hora desidratando de chorar.

Passaram os anos, eu fui pra Bauru, depois pra São Paulo, depois voltei, o Caco foi pra São Carlos, eu casei com a Camila, o Davi nasceu, o pai foi se juntar a você (vocês combinaram de fazer do mesmo jeito, sem dar chance pra gente dizer tchau?), o Caco casou, fui trabalhar lá no mesmo prédio em que você teve seu primeiro emprego, embora a empresa seja outra; a Camila e eu viemos morar aqui na nossa velha casa, nasceram o Gustavo e o Mateus, parece que só tem cromossomo Y nessa família, não veio a filhinha que você queria chamar de Maria Carolina ou algo assim, era esse acho o nome caso o Caco fosse menina, não veio nenhuma netinha (e suspeito que as fábricas fecharam, vai ficar pra próxima geração).

E você sempre esteve por aí, mas, ao contrário do pai, eu sempre tive uma dificuldade enorme de falar de você pras pessoas. Deve ser porque ele era bonachão, deixava tudo, e a gente acabou convivendo junto por 16 anos a mais, enquanto você era brava, cobrava de mim excelência na escola, reclamava do quarto bagunçado, das cuecas e roupas fora do cesto de roupa suja. do banheiro trancado na hora do banho, achava que meu namoro era sério demais pra minha idade, que era cedo pra eu sair nos bares com a moçada. Vivíamos bem, não era briga de ficar sem se falar, mas era o auge do nosso momento treta: de um lado um aborrecente pentelho, de outro a mãe de meia idade chegando na menopausa num momento duro para a família, pai desempregado, grana curta.

A primeira lembrança sua que me vinha à mente é que na sexta série você não me deixou ir na festa do cara mais rico da classe, a festa de arromba que a escola esperava pelo ano inteiro, porque eu fui mal na prova de matemática. “Fui mal”: tirei 7. Consegui recuperar e ficar com 9,5 de média, mas você não deixou. “Mas todo mundo foi mal”, “Você não é todo mundo”, o cara foi lá em casa pedir e você não cedeu. Era agosto. No fim, como prêmio de consolação, o irmão caçula me chamou pra festa dele em novembro, quase a mesma turma. E, pensando agora, sei lá se você estava certa ou foi ranzinza demais, eu como pai acho que faria diferente, se você visse as notas que os meus alunos têm… Mas a verdade é que a festa deve ter sido uma bosta, não perdi quase nada, eu não bebia, não ia ter coragem de chegar em alguma menina nem pra dançar, quanto mais pra ficar, ia passar o tempo falando bobagem com alguém e ir embora cedo, porque eu quase sempre era o primeiro a ir embora. Talvez não tenha sido um castigo tão grande assim, talvez fosse castigo maior eu ir depois de a classe toda ficar sabendo que eu não ia por causa de um 7.

Bom, é fácil enxergar isso hoje, aos 38, cheio de cabelos brancos (pelos brancos até na barba, puta merda), um casamento de 10 anos, um filho de quase 7, 16 anos no mercado de trabalho, oito morando sozinho ou em república, um monte de cabeçadas a mais dadas na vida. Mas 22 anos atrás não era, e acho que nunca disse isso nas minhas orações a você, eu queria pedir desculpas por ter guardado essa mágoa por tanto tempo, por causa de uma bobagem, uma droga de uma festa que nem deve ter sido grandes coisas assim — e se foi, também, dane-se, fui em centenas de festas depois, curti bastante a vida, não me fez falta.

Eu prefiro, daqui pra frente, guardar a lembrança da mãe espetacular que você foi, que me ensinou tanta coisa bacana durante nossos 16 anos de convivência. Que me ensinou a ler, a ser gente, a gostar de futebol e do Palmeiras, que me disse que valia a pena esperar que um dia a gente ia ser campeão, que consolou meu choro no dia da Inter de Limeira, catou o telefone e ligou pro Paulo, que era o maior responsável pela minha escolha de time, e falou “Agora explica pro menino que a culpa é sua”, e ele teve que interromper o choro do outro lado da linha pra falar comigo. Que ia na escola conversar com todos os professores mesmo fora de reunião e mesmo eu só tirando nota alta, porque queria saber como eu estava. Que me obrigava a ir na igreja até eu começar a gostar de ir sozinho, e talvez se chateie por ver que hoje eu só vou de vez em quando, mas por outro lado deve entender meus motivos — e se não entender, paciência (mas hoje eu vou, porque vou cantar com o pessoal, e vou lembrar de você e chorar um monte).

Você que provavelmente errou pra burro e se arrependeu, que fez um monte de cagadas e me deixou como um prato cheio para um bom terapeuta, que nunca me contou que tinha repetido de ano no colegial por causa de Desenho Técnico (a Tia Dora que me contou isso duas semanas atrás, reclame com ela), mas que fez tudo isso por amor. Porque me amava e achava que era isso o que devia fazer. Porque era o seu jeito. Era você.

Além de falar pouco, eu quase nunca sonho com você. E é engraçado, sempre que acontece são sonhos estranhos, eu olho e penso “Mas ela morreu, isso não faz sentido”, fora duas ou três vezes que eu sonhei que você tinha feito uma viagem escondida e fingido a própria morte tipo um agente secreto. E com o pai eu até hoje sonho direto, como se ele ainda fosse parte da nossa rotina quando aparece no sonho. Por que será?

Tô com saudades. Como eu queria que você voltasse pra gente conversar, nem que fosse só por um dia. Dá um beijo no meu pai, também tô com saudades dele. Divirtam-se aí que aqui nós vamos levando, vocês sabem.

Te amo. Onde quer que esteja, fica bem que eu ficarei bem. Até.

Salto (acho), agosto de 1982
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