Odete Annable como “Stella”

[N.A.S.T.] Capítulo 23: Paris enjaulada

Cuidado com o flagrante.


No capítulo anterior (para ler, clique em Capítulo 22: uma questão de sorte):

Um tempo atrás, Dona Othea questiona Thomas, seu neto, sobre o tal frasco sem invólucro encontrado no quarto dele. A senhora sabia que Thomas tinha uma grande habilidade em esconder e dissimular coisas, desde pequeno, em benefício próprio. Mas o rapaz, então, diz que se tratava de um remédio para dormir e convence Othea. Othea revela que Dona Marthinha ficou preocupada demais que Thomas fosse se matar ou algo do gênero.
No tempo atual da história, Stella está tomando café na casa de Thomas e começa a expor seus sentimentos de aflição e dúvida em relação a um evento da noite anterior: foi obrigada a ir a uma delegacia para prestar depoimento sobre a morte de Maurício, pois se constatou que o evento foi criminoso. Os policiais tinham ido atrás de Stella na casa da mesma, mas só foram encontrá-la com Thomas. Na delegacia, Stella foi atentamente ouvida pelo delegado Horácio, que exigiu, inclusive, que a moça depusesse sozinha, sem a presença do namorado. Thomas estranhou isso, mas se manteve ok.
No hospital, Liz e Rob “encurralam” Teresa sobre as mortes de Maurício e, mais recentemente, de Verônica. Teresa descontrola-se e cai em prantos na fachada do hospital. Liz revela que ela mesma e Rob já trataram de dizer tudo o que sabem para a polícia.

Para ler todos os capítulos anteriores, clique aqui.


[Na delegacia]

Teresa, definitivamente, não pertenceria àquele lugar nem se todas as reencarnações que sofresse fossem muito impiedosas com ela: a prisão. Teresa, mesmo desarrumada, com um par de chinelos pegos à pressa, o cabelo num coque desgrenhado e um moletom acinzentado, ainda assim, parecia ser uma modelo desfilando um look despojado na São Paulo Fashion Week.

“Não precisa ficar com medo, tá?”, disse uma zeladora que ali trabalhava. Ela que falou com Teresa. A nossa espirituosa personagem costumava ganhar a simpatia das pessoas gratuitamente.

“Ah, não estou. Só estou me sentindo ruim com isso tudo. Eu não merecia estar aqui”, confessou Teresa.

De fato, Teresa, estava bem calma agora, embora o choque ainda não tivesse passado. Estava sentada a uma cadeira na sala de espera da delegacia, as mãos aprumadas sobre o colo, as pernas entrecruzadas formando um “xis”. Ali, para onde Teresa havia sido gentilmente conduzida após uma série de depoimentos recentes, os quais vocês sabem bem.

Horácio, aquele homem gigante, saiu da sala onde estava. Encarou a jovem moça e quase foi possível perceber um certo esgar de sorriso, já maculado pela profissão que ostentava, e que parecia dizer “tão nova, tão bonita e já vai ser enjaulada”.

Teresa ficou conhecida ali na delegacia como a Paris presa. Ou Paris enjaulada. O termo tinha pegado depois que ela reclamou de que não iria vestir o uniforme padrão de presidiárias e já chegou “pondo banca”, dizendo que não ia ficar na mesma sala com três tipos de pessoa: ladrão, psicopata e estuprador.

Um dos presos, que era muito letrado e estava preso por participar de manifestações e passeatas, que deu a sugestão do apelido.

Um policial respondeu à demanda da moça, com um olhar que quase a desnudava:

“É claro que você não vai ficar, Péris” — era assim que os policiais conseguiam pronunciar o nome de uma herdeira Hilton, ou sua semelhante. “Você vem de boa família, vai ficar na cela separadinha. Não se preocupe”.

Teresa sentiu um arrepio na espinha, pois pensou ter entendido “peladinha” em lugar de “separadinha”. Ela tinha muito medo dessas coisas, uma vez que estava na prisão.

Mas Teresa não precisou sofrer muito. O advogado da sua família, sem dúvida, era muito bom e havia impetrado um habeas corpus. Umas conversinhas de cá, outras conversinhas de lá (com o juiz do caso), e Teresa não tinha passado nem 24 horas presa.

Ao sair da delegacia, percebeu que havia um certo amontoado de curiosos em volta dali. Uns da imprensa, outros, colegas da própria faculdade dela mesmo.

Os boatos correram rápido demais.


[05h30. Dia da morte de Maurício.]

Thomas estava agitado, mas não podia perder o controle. A qualquer momento, a sua namorada poderia estar acordando.

Ele pegou o frasco e começou a agitar todos aqueles comprimidos. Analisou detidamente a densidade de cada um deles. O melhor jeito seria descartá-los dando descarga na privada. Mas será que uma descarga só seria suficiente?

Além disso, o barulho da descarga no vaso sanitário, mesmo estando no banheiro de porta fechada, poderia acabar acordando Stella.

Thomas estava bem tenso. Mas, ao mesmo tempo, uma grande descarga de adrenalina tomava o seu cerne. As narinas infladas, os olhos com expressão de susto. Um certo suor perpassando o seu rosto angélico.

Ele, então, resolveu colocar o frasco sobre a pia. Saiu do banheiro, que formava uma suíte do seu quarto, e pegou cuidadosamente roupas de academia no guarda-roupa. O móvel rangeu um pouco, o que fez Thomas verificar como estava Stella: e esta dormia confortavelmente na cama do rapaz.

Voltando ao banheiro, Thomas pegou o frasco e pôs no bolso.

Fechou a porta do quarto com cuidado. Foi descendo por uma escada pomposa que levava ao térreo, onde poderia sair pela porta principal da casa. Thomas levou um susto, pois alguém lhe tocou no braço.

“Está fugindo, Thomasinho?”.

Era Dona Marthinha que se apresentava ali, sempre bem cedo. Uma merda de testemunha!

“Vou caminhar, minha querida. Avisa Stell, tá bem?”.

Marthinha assentiu com a cabeça, em cujo topo já repousava um pano enrolado e demonstrava que os trabalhos na cozinha haviam de começar na madrugada mesmo.

Thomas deu-lhe um beijo sereno e saiu pelo porta principal.


[Alguns dias depois da prisão de Teresa]

“Eu não sei mais o que pensar”, disse Stella. Havia aproveitado que Thomas tinha dito que ia para uma aula e convocou Liz e Rob para uma reunião de emergência numa pizzaria a que elas costumavam ir.

Depois que fizeram o pedido e, todas as três amigas ali com uma cara de que não estavam dormindo ou muito abaladas por tudo que vinha acontecendo, trataram de cochichar mais abertamente.

“Eu vi o estado em que ela estava”, disse Liz, com pausas. “Decididamente, ou ela é tão boa atriz quanto Vê era. Ou é mesmo inocente.”

“Eu acho que Vê sempre foi mais autêntica do que todo mundo”, pontuou Rob, um tanto deslocada e sob o olhar de censura de Liz e Stell.

Passado um momento:

“Mas, meninas, eu ainda estou encucada com as perguntas que me fizeram sobre o Thomas na delegacia”, assinalou Stella, com grande desalento no olhar. “Não consigo pensar também que ele tenha contribuído para uma coisa dessas”.

Sim, pelo visto, Stella não era tão boba quanto transparecia para o seu namorado. Na verdade, a pedido do delegado Horácio, Stella tinha que agir como se o próprio Thomas não tivesse nenhum tipo de envolvimento no ocorrido com Maurício.

Mas tinha. Não teria como deixar de pensar isso com base nas perguntas que foram feitas à Stella.

E o sexto sentido dela, tão bom para as cadeiras práticas de Psicologia na faculdade, sabia que havia algo estranho envolvendo o nome de Thomas.

[CONTINUA…]


Como surgiu a N.A.S.T. — Eu nunca tive amigos?

A você que chegou até aqui pela primeira vez: sei que esse não costuma ser o estilo de texto que se vê nessa plataforma de blog’s, o Medium. Mas a verdade é que eu estava com vontade de escrever algo parecido como uma novela. A história começou como “N.A.S.T.”, que são iniciais para “Novela Ainda Sem Título”. Mas agora tem um título, veja só! (risos).
[Dei o nome de “Eu nunca tive amigos” e você pode ler a sinopse aqui.]
Sempre achei que deveria voltar a escrever enredos longos, mas toda vez que eu encarava a tela do Word, começava a me dar uma preguiça instantânea. O chato de começar a escrever um livro por si só é que você não tem muita troca com outras pessoas, pelo menos, não inicialmente. Outra: você não sabe bem por onde deve ir; se os personagens estão bem construídos; essas coisas. E isso, convenhamos, favorece MUITO a procrastinação.
Como vou estar falando, aqui, com uma grande quantidade de escritores (e leitores!) maravilhosos, vou me deixar aberta para desconstruir uma das maiores vaidades de qualquer escritor: pedindo para que as pessoas, se assim quiserem, deixem seu comentário após a leitura dos meus capítulos e isso me faça pensar sobre o rumo que a história está tomando.
É isso: quero fazer uma história baseada no feedback. Loucura? Talvez. Mas aproveita que está aqui e, segue os perfis aí de baixo, não custa nada, né? Se achou legal essa história, deixe seu “coraçãozinho”, apertando o ícone ❤ abaixo! Ah, e informação importante: todo capítulo novo sairá às sextas, 22h — hora de Brasília. Abraço!
Like what you read? Give S. Paiva a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.