As mudanças da religião, no Brasil, no mundo — e nos dados

Para entender dados, é preciso entender a dúvida que os gerou

Marcelo Soares
Aug 8, 2017 · 8 min read

Neste ano, completam-se 500 anos da Reforma Protestante. Por isso, religião acabou sendo o tema do meu mais recente trabalho para o “Guia do Estudante: Atualidades”. São seis páginas de infográficos resumindo a história e aspectos socioeconômicos da religião, no Brasil e no mundo.

Se passar por uma banca, leve pra casa; está incrível

Procure nas bancas. Além de a publicação ser um belo “semestrário” com o contexto de todos os grandes temas dos últimos meses, essa seção de infográficos, feita com a arte do mestre Mario Kanno e a edição do sempre alerta Fabio Sasaki, tem sido um trabalho muito gratificante.

O mais fascinante é a pesquisa, especialmente quando se puxa a linha do tempo das religiões. Elas se conectam, se desconectam, geram variações muito curiosas em suas clivagens.

Às vezes, quando se pensa em dados, pensa-se em coisas exatas, precisas. Mas quanto mais lidamos com dados, mais distante fica essa ilusão. Na ponta, os dados são humanos até demais; alguém respondeu a um questionário, preencheu um formulário ou passou por um sensor.

Tanto “dados” quanto “sociedade” são ideias aparentemente evidentes, mas na realidade a definição é muito difícil. Muitos conceitos que passam ao vocabulário do dia-a-dia parecem assim — coisas como “a economia”, por exemplo, debatida como algo redutível a um número cheio de zeros que cresce ou cai ao sabor das decisões governamentais (geralmente erradas).

O livro “The Leading Indicators — a short history of the numbers that rule our world”, de Zachary Karabell, quase espanta ao expor quão recentes e em boa parte ambíguos são conceitos tão corriqueiros como o do Produto Interno Bruto. Escreve Karabell:

“Por quase um século, as pessoas vêm criando estatísticas para medir nossas vidas, e desde a metade do século 20, nossa compreensão do mundo foi integralmente moldada por esses números. Nosso mapa estatístico, porém, mostra sinais da idade. No nosso desejo de fazer com que números simples deem conta de um mundo complicado, esquecemos que nossos indicadores têm uma história –um motivo pelo qual afinal eles foram inventados–, e essa história revela suas forças e limitações tanto quanto nossas próprias histórias pessoais. Saber como passamos a viver num mundo definido por alguns indicadores fundamentais é o primeiro passo para avaliar se ainda somos bem servidos por eles.”

Sociedades — esse termo tão claro e tão nebuloso— mudam ao longo do tempo. Com isso, mudam as perguntas que merecem ser feitas para compreendê-las. Mudando as perguntas, nem sempre as respostas são comparáveis ao que se sabia antes. Não mudar é atacar problemas do século 21 com armas do século 20.

Aqui, estamos falando de dados, esse outro termo tão claro e tão nebuloso. Dados são pistas codificadas sobre elementos da realidade. São codificadas por alguém, com algum critério, visando um objetivo. São pistas porque não são a realidade em si; como uma boa caricatura, buscam descrever em poucos traços uma realidade reconhecível, para revelar aspectos simplificados mas ainda assim precisos dela.

Gosto de comparar um bom conjunto de dados à capa do disco “Imagine”, de John Lennon. Com poucos rabiscos, o artista fez um auto-retrato definitivo. Que só é definitivo porque infelizmente Mark Chapman o matou. Se ele cortasse o cabelo, ou viesse a ficar careca, aqueles dados ficariam defasados.

Embora o debate corriqueiro use a noção de dados como sinônimo de frieza, quem os conhece de perto sabe que, na ponta, geralmente, os dados são demasiado humanos.

Os dados da saúde, por exemplo, são o resultado de milhares de prontuários preenchidos por enfermeiros ocupados, não raro em horas inglórias, não raro em condições pouco razoáveis. Variam brutalmente de acordo com o fator humano.

O fato de que o RS tem a maior incidência de câncer de mama no Brasil diz respeito ao churrasco e chimarrão, ao cigarro, à incidência solar, à composição social ou às campanhas de prevenção, que levam a mais mamografias e portanto a mais detecção? A microcefalia explodiu mesmo em 2014 ou apenas sua subnotificação ficou indefensável?

Não sabemos ao certo. Sem um padrão de referência, não é fácil saber. Provavelmente, muita informação sobre cânceres não detectados é enterrada com mulheres que nunca foram diagnosticadas. Muitos bebês microcefálicos pré-Zika provavelmente tiveram a infância difícil de tantas crianças desfavorecidas pela renda e pela saúde sem que isso fosse considerado uma emergência nacional e internacional.

Bom, eu comecei falando de religião.

É um tema pouco ambíguo: há quem tenha e há quem não tenha. Quem tem pratica em algum lugar ou não. Quem não tem pode ser porque não acredita em nada ou pode ser porque acredita em um pouco de tudo. Este é o gráfico mais comparável possível da evolução da religião no Brasil:

Em menos de 150 anos, católicos caíram da quase totalidade para cerca de 2/3

Por trás desta imagem arrumadinha, está uma história bem atribulada.

As perguntas feitas pelo IBGE sobre religião mudaram bastante no tempo:

  • No primeiro Censo, de 1872, contava-se “católicos” e “acatólicos”. Ponto. Católicos eram a maioria absoluta declarada.
  • Em 1950, época de modernização do Brasil, contava-se “católicos romanos”, “Protestantes”, “Espíritas”, “Ortodoxos”, “Israelitas”, “Outras Religiões” e “Sem religião ou declaração de religião”. Hoje soa curioso o uso do termo “israelitas” para denominar judeus, mas o termo era usado desde o Censo de 1900.

Há um fascinante estudo feito pelo IBGE em 1952, debatendo se é ou não função do Estado inquirir sobre a religião. Segundo o estudo, no Censo de 1940 os evangélicos relutavam em responder a essa pergunta.

“ Impunha-se, pois, ao Serviço Nacional de Recenseamento fortalecer a confiança de todos os religiosos, demonstrando-lhes a imparcialidade e a isenção de ânimo que presidem os levantamentos censitários. Provas inequívocas de que isso foi conseguido encontram-se na indistinta colaboração de todos os fiéis, assim como das figuras mais representativas das religiões professadas pela população, as quais, sem exceção, prestaram ao Censo de 1950 a mais completa ajuda.”

Quem se declarava umbandista contava como espírita, segundo esse estudo.

  • Em 1970, no primeiro Censo da ditadura militar, simplificou-se a listagem. Contava-se “Católicos Romanos”, “Evangélicos”, “Espíritas”, “Outras religiões”, “Sem religião” e “Sem declaração”. O que se perde em detalhe se ganha em simplicidade. Não encontrei nenhum estudo como o de 1950 para justificar as escolhas feitas.
  • Em 1991, a sociedade era outra. Já não estávamos no meio da ditadura, a sociedade era mais diversa, mais aberta. Contava-se as religiões “Católica Romana”, “Evangélica tradicional”, “Outra cristã tradicional”, “Evangélica pentecostal”, “Cristã reformada não determinada”, “Neo-cristã”, “Espírita”, “Umbanda e Candomblé”, “Judaica ou Israelita”, “Religiões Orientais”, “Outras”, “Sem religião” e “Sem declaração”.
  • Em 2000, tínhamos registrado a explosão evangélica — àquela altura, uma denominação já tinha sua própria TV–e o estouro de crenças new-age, esoterismos, adesivos de acredito em duendes e coisa e tal. Não muitos anos antes, uma professora hippie tentou fazer uma turma de adolescentes levitar na escola onde fiz o segundo grau. Contava-se “Católica Apostólica Romana”, “Evangélicas de Missão” (não mais “tradicional”; quatro denominações + “outras”), “Evangélicas de Origem Pentecostal” (quatro denominações + “outras”), “Testemunhas de Jeová”, “Espiritualista”, “Espírita”, “Umbanda”, “Candomblé” (separados), “Judaica”, “Budismo”, “Islâmica”, “Outras religiões orientais”, “Hinduísta”, “Tradições esotéricas”, “Tradições indígenas”, “Outras religiosidades”, “Sem religião”, “Não determinadas”, “Sem declaração”
  • Em 2010, Censo mais recente, contava-se: “Católica Apostólica Romana”, “Católica Apostólica Brasileira”, “Católica Ortodoxa”, “Evangélicas de Missão” (seis denominações + outras), “Evangélicas de origem pentecostal” (11 denominações + outras), “Evangélica não determinada”, “Outras religiosidades cristãs”, “Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias”, “Testemunhas de Jeová”, “Espiritualista”, “Espírita”, “Umbanda e Candomblé” (juntos e separados, mais “outras religiosidades de origem afrobrasileira”), “Judaísmo”, “Hinduísmo” (antes “hinduísta”), “Budismo”, “Novas religiões orientais” (uma denominação + “outras”), “Outras religiões orientais”, “Islamismo”, “Tradições esotéricas”, “Tradições indígenas”, “Outras religiosidades”, “Sem religião” (subdividido em “sem religião”, “ateu” e “agnóstico”), “Não determinada e múltiplo pertencimento” (duas subdivisões), “Não sabe” e “Sem declaração”.

O questionário claramente se sofisticou com o tempo. Em parte isso se deve às mudanças na sociedade — ainda que igrejas neopentecostais existissem desde antes do Censo de 1970 — e em parte se deve ao refinamento da pergunta, mesmo. O próximo tem chances de ser ainda mais complexo, visto que o Brasil mudou muito nos últimos sete anos.

“Tradições indígenas” obviamente não surgiram na década de 1990 para serem contabilizadas só no novo século. Ocorre que elas passaram a ser consideradas entre as religiões no Censo de 2000. Elas não apareciam porque não eram consideradas religião, porque índios não eram ouvidos ou porque ninguém as incluía entre as opções perguntadas?

Mais: se formos olhar Estado por Estado, a maior proporção de professantes de umbanda e candomblé está no Rio Grande do Sul, não na Bahia. Na Bahia há um grande volume de pessoas que se declaram sem religião — e se bobear muitos não declaram por acreditarem em mais de uma coisa, incluindo entre elas o estigma social.

Enfim. Com todas as mudanças nas perguntas, com todas as incertezas nas respostas, com todos os questionamentos da metodologia, a coleta e análise de dados ainda é muito importante. Os questionamentos possíveis da metodologia e da cambiância das perguntas só reforçam a importância do fator humano numa área que só os que ignoram consideram fria e exata.

Numeralha

Os números falam. Vamos tentar escutar?

Marcelo Soares

Written by

O homem que conversa com os dados

Numeralha

Numeralha

Os números falam. Vamos tentar escutar?

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade