Como Hans Rosling ajudou a vencer o ebola na Libéria

Sueco, famoso por suas palestras performáticas, morreu aos 68 anos; em 2014, ele enfrentou uma epidemia letal com dados

Em novembro de 2014, eu caminhava para um plantão num sábado, muito cedo pela manhã, e ouvia com atenção um podcast More or Less, da BBC. Nele, dois craques dos números que admiro muito conversavam sobre uma doença pavorosa, o ebola, que mata 90% dos infectados.

No estúdio, estava Tim Harford, economista do Banco Mundial, colunista do Financial Times e apresentador do programa. Ao telefone, estava o médico e estatístico sueco Hans Rosling, que havia acabado de chegar à Libéria para enfrentar o ebola, uma doença pavorosamente letal, a golpes de planilha.

“Já avisei aos meus netos que não vou passar o natal em casa”, ele disse. Estava preparado para ficar um ano, se preciso. Ficou três meses.

Desde março daquele ano, uma série de países, principalmente Senegal, Guiné e Libéria, enfrentavam o pior surto de ebola da história, que afetou 28.616 pessoas e matou 11.310 (no mais grave anterior, foram 425 e 224). Em abril, a Organização Mundial de Saúde calculava que controlaria tudo em quatro meses, ou seja, em agosto, mas não rolou.

O ebola é uma doença mais contagiosa do que evitável, mas ainda assim pode ser prevenido por medidas simples como lavar as mãos frequentemente e colocar as vítimas em quarentena. Se espalha pelo contato, direto ou indireto, com dejetos infectados. Inicialmente causa febre, dor de cabeça, dores nos músculos e fraqueza. Numa fase mais aguda, causa vômito, diarreia e sangramento, que leva o vírus para fora do corpo dos doentes e ameaça infectar qualquer um que os toque. A doença se espalha mais rápido onde a população é mais densa e o saneamento é mais esparso.

Em outubro, a situação na Libéria era tão grave que se passou a incinerar os cadáveres — o contato com os mortos pela doença era uma grande fonte de infecção. Àquela altura, liberianos já tinham deixado de apertar a mão dos amigos, visto que o contato manual era um vetor importante de contaminação. Passaram a se cumprimentar batendo os antebraços.

Harford perguntou a Rosling se havia mais contaminação de mulheres, devido aos hábitos tribais. O professor disse que não. “São as mulheres que cuidam dos doentes, mas são os homens que cavam as sepulturas”, ele explicou. Aproveitou a ocasião para deixar claro o quanto nós não conhecemos a realidade africana. “Nos últimos dez anos, desde o fim da guerra civil, a Libéria reduziu sua mortalidade infantil de 25% dos bebês nascidos para 8%”, disse, afirmando sua confiança na capacidade dos médicos liberianos.

Rosling era fascinado pela África desde jovem, quando, recém-formado, foi com sua mulher trabalhar em Moçambique e descobriu uma doença chamada konzo. Foi seu trabalho de doutorado. Ele sempre dizia ter entrado na faculdade com os preconceitos de um jovem de país desenvolvido e jogado todos esses preconceitos fora ao fazer intercâmbio e ver que jovens médicos indianos sabiam muito mais do que ele.

Sempre que falava sobre o assunto, enfatizava que todo o mérito pelo combate ao ebola era dos médicos e enfermeiras nativos, que estavam em campo. Muitos morreram tentando salvar vidas.

Meses depois da entrevista, falando à revista Science, Rosling resumiu assim o tamanho do trampo: “Precisamos fazer um sistema meticulosamente perfeito funcionar num país onde um sistema assim não tem como existir. Esse é o maior desafio intelectual de que participei na minha vida.”

O coreógrafo dos dados

Rosling lutava sobretudo pelo conhecimento. Armado de informação, o mundo poderia finalmente erradicar causas evitáveis de morte, inclusive o ebola, transmitido pelo contato com dejetos de pessoas infectadas.

Ele lecionava Saúde Global no instituto Karolinska, na Suécia —um dos locais onde se descobriu, no século 19, que se os médicos lavassem as mãos seus pacientes morreriam menos. (Leia a homenagem feita pelo instituto ao seu mais ilustre funcionário deste século.)

Ele também sabia, porém, que não adiantava apenas gerar evidências. Era preciso ser ouvido, num mundo que, embora seja cada vez mais escolarizado, vive cada vez mais distraído. Por isso, ele desenvolveu técnicas de showman para apresentar coisas tão malvistas quanto os números.

Uma maneira de fazer isso é por meio de visualizações, infografias animadas. Outra é explicando os dados numa linguagem que todo mundo entende. Para garantir que a mensagem chegasse direito aos ouvidos certos, ele não poupava neurônios: usava as duas técnicas.

Quando escrevi pela primeira vez sobre Rosling para a Folha, em 2012, apelidei-o de “coreógrafo dos dados”, porque ele literalmente fazia os dados dançarem. Era fascinante vê-lo transformar dados em histórias, como no famoso vídeo sobre 200 países em 200 anos e quatro minutos que sempre mostro em aula:

Em nome de espalhar o conhecimento, não havia mico que não valesse a pena pagar. Em sua homenagem a Rosling, a conferência TED colocou em uma só página as dez palestras que ele fez em seus eventos. Inclusive a famosa palestra em que ele engolia um sabre do Exército sueco do século 19 para ilustrar a observação de que não há nada que seja mesmo impossível.

Com a força de sua didática e a capilaridade da internet, Rosling se tornou mundialmente famoso já depois dos 60 anos. Virou um palestrante pop. Cobrava caro por palestras aos ricos para dar de graça palestras aos pobres. E tinha a simpatia de gente como Bill Gates, por exemplo (veja a homenagem do criador daquele sistema que a gente vive xingando).

Sua ONG, a Gapminder, levantou fundos próprios vendendo para o Google a ferramenta criada por seu filho, Ola Rosling, para fazer os gráficos animados de bolhas dançarinas que tornaram suas palestras famosas. Hoje, todos podemos usar o Public Data Explorer.

Detetives na tribo

Em outubro de 2014, o mês em que os liberianos passaram a incinerar seus cadáveres, Rosling fez um alerta em seu “Factpod”: ou se enfrentava o ebola a sério naquele momento, ou a contagem de vítimas dobraria mês a mês, pela velocidade de transmissão que se verificava.

Assim, quando ele decidiu ir à Libéria, não tinha grandes planos além de arregaçar as mangas e oferecer ajuda. Sabia que seria bem recebido.

“Fui para lá como professor universitário, entrei no Ministério da Saúde e conheci Luke Bawo, o chefe da vigilância epidemiológica”, escreveu ele para a BBC ao voltar. “Ele me pediu para assumir o cargo de chefe adjunto de vigilância epidemiológica e dividimos um escritório pelas 12 semanas em que eu trabalhei no ministério.”

Em qualquer análise de dados, a qualidade dos dados originais é fundamental para embasar a tomada de decisões. Quando se trata de vida ou morte de milhares de pessoas, isso é ainda mais crucial.

O maior problema para enfrentar o ebola era a dificuldade de coletar estatísticas, especialmente em áreas tribais mais isoladas, que podem estar a horas de distância da estrada mais próxima. Sem saber o dado no detalhe local, é impossível saber onde a doença já está controlada e onde ela ainda está em crescimento.

Ele atacou o problema da seguinte maneira, segundo a revista Science:

Rosling começou fazendo coisas simples, como revisar os relatórios epidemiológicos do ministério, algo que ele diz que ninguém tinha tempo de fazer. Ele mudou um detalhe importante nas atualizações: ao invés de listar ‘zero casos’ nas aldeias que não informaram números — o que pode ser enganoso —, ele deixou os campos em branco. A seguir, ele enfrentou o problema dos dados faltantes. Alguns trabalhadores da saúde não tinham dinheiro para telefonar e passar seus relatórios, porque eles próprios tinham de pagar a conta telefônica; Rosling criou um pequeno fundo para pagar por cartões com créditos telefônicos.

Uma ferramenta crucial era um quadro-branco onde ele e seus colegas liberianos mapeavam os pontos da cadeia onde os dados poderiam se perder. Cada informação contava. Margaret Lamunu, médica que sabia tudo sobre a dinâmica do ebola ensinou muito a ele naqueles dias.

Durante as semanas em que esteve na Libéria, Rosling fez várias edições da sua série de vídeos Factpod dando atualizações sobre o que acontecia. Uma das coisas que ele fazia era entrevistar os responsáveis pela coleta de dados para mostrar a dificuldade da tarefa. Além de ter muita sensibilidade para formar relações com as pessoas nas aldeias, era preciso ter habilidades de detetive para interpretar as informações.

Rosling enfatizava que, como em média um infectado pelo ebola transmitia a doença para outras duas pessoas, o ebola não crescia como 1, 2, 3, 4, 5 pacientes, e sim como 1, 2, 4, 8, 16. Era preciso mapear tudo. Era preciso conhecer quem conhece as pessoas que poderiam ter sido infectadas.

Com a melhoria na coleta das informações, a equipe conseguiu traçar os relacionamentos entre os pacientes. Ele demonstrou, por exemplo, que uma só paciente, uma mulher de 50 anos, causou involuntariamente outras 21 infecções em três meses. Apenas sete estavam vivos em março de 2015; seu marido, dois filhos e três filhas morreram em menos de três meses.

Outra medida de Rosling foi enfatizar a métrica correta para medir o avanço da luta contra a doença sinistra. Não era o número total de casos, e sim o número de novos casos por dia. Quando se reduzissem os novos casos por dia, eles saberiam que estariam vencendo a luta.

Na conversa com Harford, que ouvi no podcast, ele deu uma cutucada certeira num dos vícios profissionais dos jornalistas: “a mídia sempre quer o máximo possível de zeros nos números”. Para ele, o número importante era apenas 28. Esse era o total de novos casos registrados no dia anterior. Um mês antes, eram 60. A meta era chegar a zero.

Em março de 2015, Rosling deu uma palestra, transmitida pela BBC, para explicar como a Libéria conseguiu reduzir a curva da morte. Num trecho crucial dela, ele mostrou como funcionava o motor da curva.

Assista à palestra inteira aqui:

Em maio de 2015, a OMS e a Libéria anunciaram que o país tinha erradicado o ebola. As pessoas já poderiam aposentar o “aperto de mão do ebola”, aqui encenado pela presidente do país e pela embaixadora dos EUA na ONU:

Essa batalha pública estava praticamente ganha. Mas ainda haveria uma outra. Essa, sem indicadores muito claros para a vitória — mas alguns muito certeiros para a derrota.

Indiana Rosling e a última cruzada

Meses antes de partir para a Libéria para enfrentar o ebola, Hans e seu filho, Ola Rosling, deram juntos uma palestra TED sobre a doença mais infecciosa dos nossos tempos: a ignorância.

Segundo eles, o maior problema que o mundo enfrenta é o quanto nosso conhecimento sobre temas básicos está geralmente ultrapassado.

Para demonstrar isso, Rosling fazia algumas perguntas muito básicas sobre estatísticas globais de desenvolvimento a qualquer plateia a que tivesse acesso, fosse na TED, em Davos ou na BBC. Em média, todas as respostas mais sinceras dos entrevistados eram piores do que o acaso. “Apresentei essas mesmas perguntas aos chimpanzés do zoológico e eles acertaram metade”, ele brincava.

Segundo ele, parte da razão dessa desatualização era o fato de as pessoas aprenderem noções básicas sobre o mundo na escola e dificilmente se atualizarem fora de sua área específica depois disso. Ideias preconcebidas, portanto.

Pouco depois de voltar da Libéria, ele foi à BBC dar uma entrevista e aplicou o teste na repórter Ruth Alexander, do programa More or Less. Ela acertou apenas uma das três perguntas.

Uma ideia que o irritava muito era a divisão do mundo entre “países desenvolvidos” e “países em desenvolvimento”, noção que coloca o Brasil na mesma categoria que a Libéria, digamos assim. “Muita gente só conhece dois tipos de país; eu conheço duzentos”, dizia.

Em dezembro, a Nature publicou um perfil seu que anunciava:

Então, agora, no entardecer de sua carreira, Rosling está escrevendo um livro com seu filho Ola e sua nora Anna Rosling Rönnlund, para acabar com crenças ultrapassadas. Tem o título provisório Factfulness, e eles esperam poder informar a todos, de estudantes a especialistas, sobre como o mundo mudou: como o número de partos por mulher no mundo caiu nas últimas décadas, por exemplo, e como a expectativa média de vida (71 anos) está mais perto da registrada no país que a tem mais alta (Japão, 84) do que do que a tem mais baixa (Suazilândia, 49). Ele acredita que os especialistas não possam resolver os maiores desafios se não operarem com fatos. ‘Mas primeiro você precisa apagar as ideias preconcebidas’, diz, ‘e essa é a parte difícil’.

Na tal “era pós-fato” de que tanto se fala, esse é provavelmente o livro que mais espero em 2017. Rosling, porém, não entrou nesse debate.

O perfil, provavelmente a última declaração pública feita por Rosling, não menciona o câncer de pâncreas que ele enfrentava — mesma doença, de dificílimo tratamento, que vitimou o tecladista Jon Lord, do Deep Purple, há cinco anos.

Rosling, que passou boa parte de sua carreira ensinando o mundo a enfrentar doenças evitáveis, descobriu no começo do ano passado que tinha uma versão particularmente intratável de uma doença incurável. Tratou-a em silêncio. Discretamente, contou a alguns amigos, como Bill Gates, que escreveu isto:

No último ano da sua vida, Hans nos enviou uma carta muito tocante. Ele nos disse que tinha câncer e fez um pedido. Não era nenhum favor pessoal. Apenas queria que prometêssemos continuar espalhando a mensagem pela qual ele era tão apaixonado: a de que o mundo vem progredindo e de que decisões de políticas públicas devem ser baseadas em dados.

O mesmo recado foi dado a Ruth Alexander, da BBC, que o entrevistou em casa, na Suécia, em meados de dezembro. “Continue fazendo isso, continue trabalhando com evidências”, disse ao final da conversa.

Margaret Lamunu ficou abalada ao saber do diagnóstico do médico, com quem aprendeu muito. Foi por telefone. Ela disse a ele que tivesse fé, mas ele respondeu que, por mais que pudesse ser religioso, sobretudo compreendia a ciência do diagnóstico que recebeu. Lamunu passou boa parte de janeiro tentando levantar fundos para visitar Rosling, de quem recebeu um cartão no natal. Semana passada, quando estava prestes a conseguir fechar a viagem, recebeu a triste notícia da morte do mestre.

À BBC, um dia depois da morte de Rosling, um amigo seu da África do Sul disse que telefonou a ele no final do ano para fazer um convite. Ouviu do sueco que não poderia aceitar pois tinha apenas dois meses de vida. Chocado, tentou animá-lo — “Hans, não fala isso” — , mas ouviu:

“Trabalhar com fatos faz isso. A gente precisa saber.”

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