Desde Sarney, a Cultura teve tantos ministros quanto a Fazenda

O ministro da Cultura, Marcelo Calero, pediu para sair do governo Temer na noite de sexta. Rapidinho foi substituído pelo deputado Roberto Freire.

É a quinta troca de ministro em menos de 200 dias de governo Temer; tal como ao menos três das anteriores, traz de carona mais um pepino de corrupção para o governo descascar — são bastante sérias as afirmações de Calero de que o ministro Geddel Vieira Lima (Planejamento) teria feito pressão para que o IPHAN liberasse um luxuoso empreendimento em que Geddel tem um apartamento de R$ 2,6 milhões, na Bahia. Disse ele:

Eu fiquei surpreendido, porque me pareceu — não sei se estou sendo muito ingênuo — tão absurdo o ministro me ligar determinando que eu liberasse um empreendimento no qual ele tinha um imóvel. Você fica atônito. Veio à minha cabeça: “Gente, esse cara é louco, pode estar grampeado e vai me envolver em rolo, pelo amor de Deus”.

(Sério: não acredito que ele não soubesse quem eram seus colegas. Até eu, que não ando com essa gente, sei qual é o apito que eles tocam.)

A própria posse de Calero foi uma resposta do governo a protestos no Brasil inteiro contra a extinção do ministério da Cultura. Se considerarmos que ele entrou no lugar da extinção do ministério, é a sexta troca.

Desde a redemocratização, a Cultura teve tantos ministros quanto a Fazenda: 19 em cada pasta. No governo Sarney, era Ministério da Educação e Cultura, então eu conto uma vez em cada pasta.

Tal qual a Fazenda, durante o governo FHC um mesmo ministro ocupou a pasta do começo ao fim (Francisco Weffort). No governo Lula, Gilberto Gil chegou a pouco mais de dois terços da marca do seu antecessor. O período de Guido Mantega na Fazenda, somando suas passagens pelos governos Lula e Dilma, somou mais tempo do que Gil na Cultura.

No governo Sarney, com a montanha-russa de planos econômicos, o Brasil teve quatro ministros da Fazenda — e cinco da Cultura, ainda que o último tenha sido… um economista, Celso Furtado. (Na época, a pasta também acumulava a Educação.)

Tendo passado 178 dias no cargo, o mandato de Caleiro não foi o mais rápido dentre os ministros da Cultura. Mas todos os que ficaram lá por menos tempo do que ele foram meio improvisados.

Imediatamente abaixo dele, com pouco mais de três meses de mandato, ficou o também diplomata Jerônimo Moscardo. Em seguida, um ex-governador do Distrito Federal e um ex-deputado do Piauí, ambos no governo Sarney. Logo depois, uma servidora que apenas esquentou cadeira até o final do primeiro governo Dilma.

Direto do meu banco de dados de ministros, estes foram os capitães da Cultura até hoje, com as respectivas durações dos seus mandatos:

  • Francisco Weffort, governo FHC (2921 dias)
  • Gilberto Gil, governo Lula (2037 dias)
  • Celso Furtado, governo Sarney (895 dias)
  • Juca Ferreira, governo Lula (884 dias)
  • Marta Suplicy, governo Dilma (789 dias)
  • Ana de Hollanda, governo Dilma (621 dias)
  • Sérgio Rouanet, governo Collor (572 dias)
  • José Aparecido de Oliveira, governo Sarney (541 dias)
  • Juca Ferreira, governo Dilma (497 dias)
  • Luiz Roberto do Nascimento e Silva, governo Itamar (381 dias)
  • Ipojuca Pontes, governo Collor (361 dias)
  • Antônio Houaiss, governo Itamar (334 dias)
  • Aluísio Pimenta, governo Sarney (259 dias)
  • Marcelo Calero, governo Temer (178 dias)
  • Jerônimo Moscardo, governo Itamar (99 dias)
  • José Aparecido de Oliveira, governo Sarney (75 dias)
  • Hugo Napoleão, governo Sarney (53 dias)
  • Ana Cristina Wanzeler, governo Dilma (48 dias)
  • Roberto Freire, governo Temer (1 dia)
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