Kirby combateu o fascismo com grafite, letras e chumbo

Criador e co-criador de boa parte do universo Marvel, Kirby resumiu o que é o fascismo na noção de Equação Antivida

Foi ontem o dia em que o vetusto senhor Jacob Kurtzberg completaria 100 anos, se não tivesse morrido em 1994.

Kurtzberg era judeu em Nova York nos anos 30, quando era costume artistas e jornalistas judeus trocarem de nome, ou pelo menos usarem iniciais, devido ao preconceito. Na Europa a coisa estava feia. Foi por isso que Jacob virou Jack e Kurtzberg virou Kirby.

Por uma coincidência de idade, chegou a ser convocado para combater na Segunda Guerra Mundial. Chegou à Normandia dois meses depois do Dia D e três anos depois de desenhar sua “cria”, o Capitão América, socando o rosto de Hitler no número 1 do gibi do herói. Em solo europeu, quando seu tenente descobriu que tinha um desenhista famoso no pelotão, incumbiu-o de uma missão de espionagem: entrar nas cidades e desenhar mapas e imagens para reconhecimento. Arriscou o pescoço contra o nazismo.

Quando Kirby desenhava quadrinhos de guerra, aquelas expressões faciais não eram invenção, eram memória.

Na década de 1950, ele enfrentou uma secura de trabalho por conta da perseguição aos quadrinhos após “A Sedução dos Inocentes” e o macartismo. Mentes estreitas da época julgavam que os quadrinhos serviam para perverter as criancinhas (qualquer semelhança com movimentos atuais, inclusive no Brasil, não é só coincidência). Na década de 1960, ele voltou a ver o sucesso ao ser criador e co-criador de boa parte do universo Marvel.

Sua obra mais ambiciosa em termos de ideias, em minha opinião, veio no começo dos anos 70, quando Kirby brigou com a Marvel devido a direitos autorais (só saiu um acordo 20 anos após sua morte) e foi para a concorrente DC Comics. Lá, ele criou o Quarto Mundo, um épico intergalático em quatro revistas mais ou menos interligadas: “New Gods”, “Forever People”, “Mister Miracle” e “Superman’s Pal Jimmy Olsen”. Foi por meio desta última, nas histórias republicadas nos formatinhos da Abril em 1985–1986, que conheci o trabalho de Kirby. Aos dez anos, achei “feio”. Aos 18, achava genial.

Nos anos 70 e 80, muito pouco do Quarto Mundo saiu no Brasil

Foi nesse arco épico, 25 anos depois da guerra, que Kirby criou o vilão Darkseid, provavelmente o mais interessante dos quadrinhos. Uma versão infantilizada dele chegou a aparecer no desenho Superamigos, mas a ideia de Kirby era muito, mas muito mais ampla do que isso.

E a chave disso era a Equação Antivida.

Há alguns anos, a revista “Jack Kirby Collector”, dedicada à análise crítica das obras do Rei, publicou um belo artigo explicitando as semelhanças entre as ideias de Darkseid e o fascismo. O autor lembra até da semelhança entre o Glorioso Godfrey (centro de “Lendas”) e Goebbels.

Soberano de um mundo mítico e opressor, semelhante a Hitler em crueldade e no gestual, Darkseid buscava em mentes humanas a chave para a supressão da vontade individual, cria do medo, da insegurança. Porque, afinal, a banalidade do mal descrita por Hannah Arendt após acompanhar o tribunal de Nurenberg existe: num dado contexto social, num dado contexto de grupo, pessoas comuns cometem atrocidades como se fosse normal. A conformidade pode ser tóxica.

Numa entrevista contemporânea, Kirby explica a antivida:

Se alguém controlasse sua mente e você não pudesse mais pensar por si, você não seria mais você mesmo. Você seria algo sob comando. Você, como indivíduo, estaria morto. Isso é a anti-vida. Em outras palavras, se você se entregasse a alguma causa, e desistisse de tudo como indivíduo para estar à mercê de algum líder, você estaria morto como indivíduo. E é isso que o Darkseid quer. Ele quer o controle sobre tudo. Se estivesse nevando do lado de fora, você estivesse descalço e esse cara dissesse “vá buscar um sanduíche para mim”, você teria de ir mesmo assim, sem casaco, congelando até a morte. Ele não se importa. Você faria mesmo sem que quisesse fazer. Está morto como indivíduo. Não tem escolha. Não pode objetar e não tem estatura como pessoa. Está morto. Uma pessoa escravizada está morta. É isso que Darkseid quer. Darkseid quer subjugar tudo completamente mediante uma palavra — a sua. Ele quer todos os seres pensantes sob seu controle. Eu considero isso um conceito maligno, mas ele discorda, se for Darkseid. Se você tivesse o poder, talvez não desgostasse da ideia. Todos veem o mundo a partir da cadeira onde sentam. Pode ser desconfortável para quem está ao lado, mas pra você é ótimo. O certo para Darkseid é qualquer coisa que o beneficie. Ele não se preocupa com você. Ele vê o mundo a partir de sua cadeira, e é claro que o que ele vê é ótimo. Ele é grande. Darkseid é uma imensa e poderosa figura maligna, e ele vê tudo sob um ponto de vista cósmico. Ele não está preocupado com a loja de doces na esquina ou com o que vai passar no cinema na semana que vem. Se ele vê tudo por esse ponto de vista cósmico que se sobrepõe a tudo, o que mais ele iria querer além da subjugação completa da humanidade? A Terra está incluída nesse tudo, e meu conceito é que em algum lugar da Terra há alguém que possa resolver a Equação Antivida, e o Darkseid está atrás dessa pobre alma. Ele vira tudo de cabeça pra baixo. Ele devasta cidades e cria todo tipo de estratagema.

A equação, em si, sempre foi deixada vaga por Kirby — o mestre Jotapê Martins aponta justamente esse caráter aberto como algo que parecia confuso nos original mas foi extremamente fértil quando outros autores começaram a usar. Às vezes fértil demais, a ponto de um cara que eu de resto admiro, o Jim Starlin, personificar essa equação num monstrinho nos anos 80, numa história que fora isso é muito boa (“Odisseia Cósmica”).

Mas foi o genial e não raro confuso roteirista Grant Morrison quem melhor explicou a Equação Antivida e seu funcionamento, na série “Crise Final”: ele fatora na equação a solidão, o medo, a zombaria, a culpa, a vergonha, o fracasso… “quando eu cerrar o punho para esfacelar sua resistência… será com três bilhões de mãos. Quando eu fitar seus olhos para despedaçar seus sonhos… será com seis bilhões de olhos”.

Pense na violência das torcidas organizadas, que volta e meia matam alguém.

Pense em Charlottesville, onde uma mulher foi morta por um neonazista usando a arma favorita do Estado Islâmico.

Pense neste caso, dois anos depois da publicação do Quarto Mundo de Kirby, quando gente tacanha com a ajuda da Ku-Klux-Klan atirou contra ônibus e matou gente porque não gostava de ver negros em livros escolares.

Pense nas caixas de comentários de sites de notícias e na polarização virulenta das redes sociais.

Pense em gente que carrega político nos ombros. Pense em gente que vandaliza banco pra tentar proibir exposição de quadros que não quer ver e ainda por cima intimida quem quer ver.

Pense em todas as vezes em que a mentalidade de manada deu ruim.

E leia Jack Kirby para entender tudo isso.

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