Não, 2016 não foi o ano em que mais famosos morreram

Mas pode ter sido o ano em que mais famosos PARA VOCÊ morreram; isso deve piorar, e 2017 já começou agitado

Pois é, eu também achei que as retrospectivas 2016 tinham acabado. Mas vamos falar de números?

Muito se falou sobre a quantidade de gente muito famosa que morreu no ano passado. Poxa, David Bowie, Prince, George Michael, Carrie Fisher pra dar aquela porradinha final. Na opinião de muita gente que acompanha o assunto, foi o ano em que aquela moça cobiçada pelo Thanos mais teve trabalho. O Tony Goes consultou seu caderninho de mortes e cravou que foi isso mesmo.

O problema é que o nosso critério de atenção sobre pessoas famosas é muito pessoal, variando conforme a amplitude das nossas curiosidades. Exceto algo tipo Chapecoense ou Muhammad Ali, mortes do esporte me passam batido porque eu não acompanho esporte. Mortes do cinema pré anos 60 também me passam batido porque eu não acompanho. Mortes da música fora jazz e rock também não me chamam a atenção.

Em texto que republiquei algumas vezes ao longo do ano passado, observei que as mortes de famosos tinham a ver com a pirâmide etária.

Resolvi checar isso numa fonte cheia de falhas, mas ainda assim importante: a Wikipedia. Alimentada por usuários que, no agregado, têm interesses muito mais variados do que os meus, ela inclui mortes em que eu nunca pensaria em observar, de países que eu sequer observo.

Por exemplo, quem dentre os leitores sabia que a historiadora russa Olga Ulianova, radicada no Chile, morreu em 29 de dezembro? Como eu costumava brincar olhando listas de notícias, jornalismo é dizer que Olga Ulianova morreu para quem nunca ouviu falar em Olga Ulianova. O pior é que ela parece ter uma obra bem interessante.

Enfim, os colaboradores da Wikipedia registram essas mortes, e as reúnem em índices mensais, como este de janeiro de 2017. Observando a estrutura, montei um robô para coletar e analisar as 5.430 mortes indexadas pelo site entre 1º de janeiro de 2010 e 31 de dezembro de 2016.

No ranking por ano, 2016 aparece como o ano mais mortal desde 2012, mas os anos 2010 a 2012 tiveram mais notáveis mortos.

Mas por que nos parece que morre mais gente conhecida agora? Em parte, isso pode se dever à composição das décadas de nascimento dos mortos por ano. Em 2010, 42% dos mortos tinham nascido antes da década de 1930. Em 2016, foram 32%. E, com isso, uma fração maior dos mortos já começa a estar no radar de quem tem 40 anos ou menos.

Quem nasceu na década de 1930 fez carreira a partir dos anos 50, explosão do cinema e da televisão. Isso inclui a Debbie Reynolds, mãe da Carrie Fisher e atriz de “Cantando na Chuva”. Também inclui o Ferreira Gullar, o Leonard Cohen e o Umberto Eco. Isso só para citar os mortos de 2016.

Em compensação, veja o salto na porcentagem dos mortos nascidos na década de 1940 no ano de 2016. Foi a década em que nasceram Bowie e Keith Emerson.

Claro que existe um certo viés no critério da Wikipedia sobre o que é ser famoso, e aqui entra um senão importante.

A descrição do motivo da fama de cada morto é muito variada, mas agreguei os tipos para os anos de 2012, 2014, 2015 e 2016.

Em média, sete a cada dez mortos registrados pelos colaboradores da Wikipedia são ligados ao esporte (24%), às artes, incluindo cinema (19,5%), à política (14%) ou à música (13,5%). Todos os outros vêm depois.

Certamente não morreram só 39 empresários conhecidos nesses anos; a questão é que eles eram conhecidos pelo perfil de pessoa que atualiza a Wikipedia. O inventor do Kinder Ovo, que morreu em 29 de dezembro, entrou na lista. Roger Agnelli, que morreu num acidente de helicóptero, também. Andrew Grove, criador da Intel, está lá.

Quem não está lá? Peter Mondavi, por exemplo —foi um pioneiro do vinho na Califórnia. Ou Bill Backer, que fez um dos mais icônicos anúncios da Coca-Cola, nos anos 70. (Quem costuma ler sobre os movimentos de contracultura da época trombou com referências a esse anúncio várias vezes; a mais recente que li foi no livro “The Attention Merchants”, de Tim Wu.)

Ou seja, o número certamente pode ser maior.

Repito abaixo a avaliação que fiz no texto do ano passado:

Pelas minhas contas, a sensação de “tá morrendo gente que nunca morreu antes” vai piorar até o final da década de 2030, quando a idade começar a levar as personalidades dos anos 90. Depois, deve cair lentamente a frequência. Não é que faltem grandes artistas de 2000 para cá; é que todos os artistas apenas são famosos para proporcionalmente menos gente e têm carreiras mais curtas.

Antes da explosão da internet, havia muitas referências compartilhadas, o que facilita que artistas sejam famosos até entre quem não acompanha seu trabalho.

Hoje, alguém que tem 25 anos raramente sabe o que faz a cabeça de quem tem 15. Quem tem 40 desconhece boa parte das referências de quem tem 25 e, diga-se, desconhece até as referências do vizinho da mesma idade que curte outras coisas. É mais fácil nos fecharmos em nossos próprios gostos.

O mainstream meio que acabou. Há alguns dias, o New York Times publicou uma impressionante reportagem com mapas que mostram como varia geograficamente nos EUA a audiência de vários programas.

Ou seja, o tipo de referência compartilhada que gerava sucessos nacionais já era. Digamos que os que fazem sucesso hoje tenham mais ou menos a idade de Bowie nos anos 70. Os que forem vitimados pelo câncer na mesma idade que ele devem passar desta para melhor na década de 2050. Mas, ainda assim, não serão referências compartilhadas tão fortes.

Enfim, este ano já começou agitado e tudo indica que deve continuar assim.

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