No Brasil, tudo é mal distribuído
Observar o Brasil como se o país fosse uma coisa só sugere uma densidade demográfica menor que a da ilha de Santa Helena
(Tenho publicado no Numeralha textos que escrevo para a disciplina de Análise Sociodemográfica Brasileira, que estou cursando na FESPSP. Como os temas me parecem ter um interesse mais amplo, publico aqui com alguns ajustes.)
Caminhando pela Avenida Paulista em um domingo de sol, precisamos desviar a cada segundo. Muita gente concentrada. Dias depois, pela janela de um avião, vemos lá embaixo vastas terras aradas, com uma ou outra casinha no meio, sem sinal de pessoas.
A população do Brasil historicamente se adensa nas proximidades da costa. Especialmente em áreas urbanas. E ainda há vastas áreas subpovoadas — um amigo pantaneiro costuma dizer que o seu Mato Grosso do Sul tem mais bois do que gente.
O Brasil é o país do futuro em vários sentidos. Um deles é o da frase de William Gibson: “o futuro já está aí, só que ainda não está bem distribuído”.
Richard Florida, que tem feito interessantes pesquisas sobre a distribuição do que chama de “classe criativa” nas cidades, usou em seu livro “Who’s Your City?” as imagens noturnas de pontos de luz como uma espécie de indicador das condições econômicas de uma região. Quanto mais pontos aglomerados de luz, mais regiões urbanas, mais atividade humana.
Aos olhos de um satélite, à noite, os pontos de luz são ainda mais concentrados do que a população. Ao invés de se espalharem com certa uniformidade ao longo da costa, concentravam-se ao redor das capitais. Compare o Brasil da densidade demográfica ao país visto do céu à noite:

Os grandes números se tornam progressivamente mais enganosos quando há concentrações; o desvio-padrão fica muito alto, para quem é disso.
Dividindo-se a população inteira pela área total, o Brasil tem 23,8 habitantes/km², uma densidade mais baixa do que a da ilha de Santa Helena, onde Napoleão foi degredado.

Enquanto isso, a cidade de São Paulo apresentava no Censo de 2010 uma densidade demográfica de 7.398 habitantes/km² — menos do que Singapura, mais do que Hong Kong. No distrito da República, central, eram 25.835 habitantes/km². Maior do que Macau, com seus 20,8 mil habitantes/km².
Em parte, isso se deve a um modelo tradicionalmente concentrador das oportunidades.
Nas menores densidades demográficas, as oportunidades estão concentradas na produção agrícola em vastas extensões de terra — que, devido às inovações tecnológicas, demandam cada vez menos braços. Nas maiores densidades demográficas, elas se concentram em alguns pólos econômicos, que concentram empregos atrás dos quais se aglomeram os moradores.
A distribuição da população do Brasil é pouco equilibrada, de várias maneiras. Isso se reflete em quase todos os aspectos da vida nacional. Alguns padrões se refletem em praticamente todos os indicadores socioeconômicos:

Continua sendo verdade o que Celso Furtado observou, na entrevista que abre o tomo “Estatísticas do Século XX” (2003), do IBGE:
“A verdade é que o Brasil continua sendo uma constelação de regiões de distintos níveis de desenvolvimento, com uma grande heterogeneidade social, e graves problemas sociais que preocupam a todos os brasileiros.”
“Mas o processo de urbanização da sociedade brasileira não é semelhante ao que se verifica na Europa e em outras partes do mundo. Na Europa, a urbanização decorreu da criação de um mercado de trabalho muito intenso nas cidades, que absorveu o excedente de população rural, transformando o continente ao longo dos anos. No Brasil, o processo migratório do campo para a cidade ocorreu de forma distinta: houve uma fase, na metade do século XX, em que se criou muito emprego no setor industrial, mas nos últimos 30 anos o emprego industrial já não cresceu. O crescimento da população urbana inchou as cidades, mas nelas não se criou emprego suficiente para absorver toda essa gente, daí as taxas de desemprego crescentes, a marginalidade.”

