O IBGE perguntou nas escolas com quantas pessoas a molecada transou. Adivinha só

Gosto muito da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar, que sai de tempos em tempos. É reveladora sobre muita coisa: uso de bebida, cigarro, tóxicos, frituras.

Há uma parte delas, porém, que eu acho mais reveladora da cabeça da molecada do que do fenômeno que pretende revelar. É a parte sobre hábitos sexuais. É um tipo de pesquisa sempre complicada de fazer, porque é um assunto com tantas implicações íntimas que é difícil alguém responder a sério.

Agora imagina isso no território shakespeariano do pátio de escola do ensino médio, onde todos os anseios fervem num caldeirão de inseguranças.

O primeiro resultado está abaixo. Veja as diferenças entre os gêneros e as regiões:

O IBGE também perguntou quantos parceiros os meninos e meninas sexualmente ativos já tiveram. Dos que disseram só ter tido um parceiro, ficou assim a distribuição:

Dos que disseram ter tido seis ou mais, ficou assim a distribuição:

Não sei para vocês. Mas para mim os meninos continuam parecendo tão loroteiros quanto éramos na década de 1990.

É tradicional, em pesquisas de opinião a respeito de sexo, que os meninos inflem o número de parceiras e as meninas omitam o número de parceiros.

Vale lembrar que o problema não está na pesquisa em si, e sim nas leituras que se pode fazer dela. Sempre é necessário ler com certo pé atrás. Provavelmente não deve haver problemas de amostragem, fonte dos problemas mais clássicos de estudos a respeito.

O estudo do British Medical Journal sobre os problemas de se medir aspectos do comportamento sexual por meio de pesquisas de opinião levanta pontos importantes para ler esse tipo de pesquisa.

Número 1: “nunca se esquece” — ou não

Sexual behaviour is most commonly studied using self reported recall of behaviours across some retrospective time frame. Even among respondents who attempt to “accurately” report their past behaviours, problems with recall can distort the reported incidence and frequency of specific behaviours.

Número 2: “pera, deixa eu fazer as contas”

Incidence reports (for example, first sexual intercourse) are generally more reliably reported than frequency reports (for example, number of partners, frequency of sex). The reliability of frequency reports decreases with longer recall periods and more frequent behaviours (for example, vaginal sex)

Número 3: “solto o bode mas prendo a cabrita”

In a closed population with a balanced sex ratio, men and women should report the same population mean number of partners over a defined period. However, men consistently report a higher mean number of partners in nearly all surveys.
However, it is likely that there remains some social desirability bias in the direction of overreporting by men and/or underreporting by women. Other examples of social desirability bias include the general tendency for women to underreport their premarital sexual experiences.

Número 4: “mas pra mim isso aí nem conta”

Similarly, evidence from other surveys indicates that men and women may differ in what they count as “sex,” with men more likely to include non-penetrative sex than women.

Número 5: “sério que tem que falar pra você?”

Social desirability bias may also be influenced by data collection modes, with self completion modules typically eliciting higher rates of sensitive behaviours than face to face interviews.

Onde esse tipo de estudo é mais útil é na série temporal. O PENSE foi feito também em 2009 e 2012, mas a forma como os resultados estão organizados é diferente o bastante para ainda não ser possível tirar conclusões sobre o que mudou na atitude dos adolescentes sobre sexo.

Sobre uso de álcool, parece haver uma queda, por exemplo — de 66% para 55% entre a gurizada do 9º ano entre 2012 e 2015.