Os candidatos que você detesta adoram o voto nulo

Uma breve olhada na matemática do voto

Marcelo Soares
Sep 6, 2018 · 3 min read

O candidato mais bem colocado nas pesquisas eleitorais anda defendendo o voto nulo. Detesto dar razão a ele, mas faz sentido. O voto nulo de quem não acredita em político nenhum (e é claro que eles dão motivos) faz bem a ele e pode ajudá-lo a ganhar no primeiro turno.

Digo desde já que o voto branco ou nulo é uma opção individual legítima. Eu mesmo já votei nulo. Mas você precisa saber de duas coisas:

  • Votos brancos e nulos são desconsiderados para o resultado final
  • Os políticos que você não quer ver eleitos sempre acabarão tendo uma razoável quantidade de votos, seja por popularidade ou por motivos menos nobres.

Com isso, quanto mais votos forem desconsiderados porque foram brancos ou nulos, melhor para candidatos que você não aceita e que têm fãs suficientes. Quanto mais brancos e nulos, melhor a vida de quem grita mais alto.

Mais ainda: a insistência de um candidato em ter o nome na urna mesmo impedido pela lei da Ficha Limpa pode facilitar ainda mais a vida desse oponente.

Vamos imaginar o seguinte cenário:

  • 30% dos eleitores pretendem votar branco e nulo
  • 20% dos eleitores pretendem votar no candidato Huguinho, de discurso muito contestado
  • 10% dos eleitores pretendem votar no candidato Zezinho, que tem pouco espaço no horário eleitoral
  • 30% pretendem votar no candidato Luizinho, cuja candidatura está sob risco de anulação por motivos jurídicos
  • 10% dos eleitores preferem outros candidatos.

Na hora de contar os votos, só contam os votos válidos, que representariam 70% dos eleitores. Pela regra de três, estes ficam sendo os porcentuais contabilizáveis:

  • 28,6% — Huguinho
  • 14,3% — Zezinho
  • 42,8% — Luizinho (quase vitória no primeiro turno, mas só quase)
  • 14,3% — Outros

Digamos que na última hora o TSE declare nulos os votos em Luizinho. Pode acontecer. Com isso, teríamos apenas 40% dos votos valendo. Se um candidato tem 20% do total de votos, ele passa a ter metade dos votos válidos e leva no primeiro turno.

Um cenário bem triste.

Matematicamente, portanto, quanto mais votos forem nulos ou anulados, mais chances têm os candidatos de quem você não gosta.

O que fazer, então?

Há três estratégias possíveis:

  1. Votar nulo mesmo e se resignar com isso. Com isso você terceiriza a decisão a outros. Apenas nos poupe de passar os próximos quatro anos dizendo que não teve nada a ver com isso. Teve, sim, e MUITO.
  2. Optar pelo voto útil. É triste tentar escolher o “menos pior”, mas às vezes é o que se tem. Entre o ruim e o inaceitável, ainda prefiro o ruim.
  3. Votar em quem não tem chance de ganhar. Neste ano há candidatos nanicos para todos os gostos, desde os candidatos “de opinião” — e neste ano eles têm uma variedade do PSTU ao Novo — até os candidatos folclóricos que sempre aparecem, seja com meios de transporte fantasiosos ou conspirações sem pé nem cabeça. Eles dificilmente vão ganhar, mas quanto mais votos válidos menor a chance de os candidatos que você detesta levarem no primeiro turno.

Se você decide escolher algum candidato, as opções são aquelas que você acha ruins. Se você não participa da escolha, outros escolhem por você.

A escolha é toda sua. A eleição é uma das muito poucas chances garantidas que a gente realmente tem de influir na política, mesmo que com apenas uma gota d’água na piscina.

A única certeza é a de que o cargo disputado NÃO ficará vago e que o ocupante vai tomar decisões que afetam sua vida — ou pelo menos seu bolso. Seja quem for eleito, ele ou ela vai representar você — por menos que você goste da ideia.

Marcelo Soares

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