Ethereum — Evolução

Nuno Rolla
Jul 30, 2017 · 5 min read

A Bitcoin foi sem dúvida a grande impulsionadora da indústria das cryptomoedas, mas o seu domínio tem estado sob ameaça nos últimos meses. Neste artigo aborda-se a evolução da Ethereum, cujo valor de mercado mais se aproxima ao da Bitcoin, e que se assume como a mais séria candidata a superá-la.

Capitalização de mercado das diferentes cryptomoedas

A Ethereum começou a ser negociada em mercado em agosto de 2015, com uma cotação em torno de $1 por unidade. Permaneceu nesses níveis até ao início de 2016, ano em que deu os primeiros sinais do que estaria para vir: no final de 2016 já negociava em torno dos $10 (uma valorização de aproximadamente 1000%). No entanto, tem sido este o ano da grande ascensão da moeda, que em meados de junho fixou os seus máximos históricos nos $412. Isto traduz-se numa valorização de quase 4000% em 2017, refletindo um enorme aumento da sua popularidade.

Como sempre, um vasto conjunto de fatores poderiam ser apontados para justificar este comportamento, mas vale a pena destacar três: o primeiro diz respeito às ICOs, que se assumiram como um dos grandes sucessos da Ethereum, promovendo uma elevada procura pela moeda. O segundo relaciona-se com a procura por parte dos investidores por uma alternativa à Bitcoin, nomeadamente devido aos seus problemas de escalabilidade (a rede deixou de ter capacidade para suportar o aumento do volume de transações, levando a demoras na sua execução e a um aumento das taxas cobradas). Como já foi referido, o potencial da blockchain em que assenta a Ethereum permitiu que esta se assumisse como a alternativa mais procurada. Finalmente, o terceiro fator está ligado à entrada de novos investidores no mundo das cryptomoedas, na maioria dos casos sem terem grandes conhecimentos ou até interesse sobre o mesmo. Sentindo que “perderam o barco” com a Bitcoin, quando esta cotava a preços muito inferiores aos registados atualmente, procuram uma oportunidade de investimento semelhante e, impressionados pela valorização da Ethereum, investem nela apenas pelo “medo de ficar de fora”.

Evolução do preço da Ethereum (ETH/USD)

Vale a pena analisar cada um destes três fatores e perceber como, estando na base da valorização da Ethereum até junho, podem estar também a contribuir para a correção que se tem dado a partir daí: em finais de julho a moeda já negoceia em torno dos $200, perdendo assim 50% do seu valor no espaço de apenas um mês.

A questão das ICOs e a sua popularidade assumiu, de facto, um papel crucial na forte valorização da Ethereum na primeira metade do ano. O sucesso e os retornos proporcionados aos investidores nestas operações foram tais que, mais uma vez, ninguém quis ficar longe delas. Isso gerou uma escalada do número e dimensão das ICOs, que implicam quase sempre o recurso à Ethereum a quem nelas queira participar. Daí resultou não só um forte aumento da procura pela moeda, mas também uma redução da oferta (sendo utilizadas nestas operações, não são disponibilizadas ao mercado). Contudo, nas últimas semanas houve uma certa diminuição da euforia em torno das ICOs, com as operações de grande dimensão a escassearem, ajudando a diminuição da procura a explicar a redução dos preços. A este respeito, importa ainda salientar um outro risco: as empresas financiadas nestas operações não irão manter as suas ethereum para sempre. Em muitos casos irão vendê-las de modo a sustentar o desenvolvimento dos projetos, significando isso uma maior pressão vendedora na moeda.

No que diz respeito à procura por uma alternativa à Bitcoin, esta esteve muito ligado às dúvidas que começaram a pairar sobre o seu futuro, devido ao facto de a comunidade tardar em arranjar uma solução para o problema de escalabilidade: developers e mineiros defendiam estratégias diferentes, e visto que para uma solução ser posta em prática tem de haver um consenso geral (acima de 90%), isto deu uma vantagem às altcoins. De acordo com uma sondagem conduzida recentemente pelo site CoinDesk (um dos mais populares na área), apenas 49% dos inquiridos se mostravam otimistas para a Bitcoin, sendo que o problema de escalabilidade era uma das razões mais apontadas para a falta de confiança. Já relativamente à Ethereum, a percentagem ascendia aos 94%. A verdade é que, já nas últimas semanas, começou a despertar alguma atenção o facto de a Ethereum enfrentar também os seus próprios problemas a este nível. A blockchain desta moeda é mais complexa do que a da Bitcoin e à sua rede são exigidos ainda mais recursos. Em junho, quando o recorde de transações em Ethereum foi registado (em grande medida devido ao boom das ICOs), muitas demoraram a ser confirmadas e uma das maiores bolsas de negociação suspendeu temporariamente levantamentos devido a um congestionamento da rede, gerando alguma apreensão. Da mesma forma que esta questão conteve o entusiasmo em torno da Bitcoin, o mesmo pode acontecer com a Ethereum se não provar ser capaz de suportar um aumento do volume de transações.

Por fim, relativamente à entrada de novos investidores em busca de uma oportunidade de investimento semelhante à que a Bitcoin ofereceu a quem nela apostou desde início, estes são muitas vezes pouco (ou mal) informados sobre as cryptomoedas, sobre a tecnologia por trás delas, e em muitos casos sobre o próprio ato de investir. Nesse sentido, são agentes de mercado geralmente menos preparados para enfrentar uma descida de preços, e por isso mais propensos a liquidar posições ao primeiro sinal de alerta. Qualquer ativo dominado por este tipo de investidores estará sempre sujeito a uma maior volatilidade e a oscilações mais significativas, o que poderá ajudar a explicar parte da dimensão da queda sofrida pela Ethereum nas últimas semanas.

Independentemente da evolução recente dos preços, importa salientar uma diferença marcante entre a decisão de investir na Ethereum há uns meses, e na Bitcoin na sua fase inicial. Em 2009, quando a Bitcoin começou a ser transacionada, o futuro das cryptomoedas era totalmente desconhecido. Apenas uma minoria acreditou que seriam compreendidas por milhões de pessoas e que a sua adoção poderia ser global (talvez por isso fossem necessárias 10 mil bitcoins para comprar uma pizza). Oito anos depois, as cryptomoedas e sobretudo a tecnologia blockchain em que assentam já merece um reconhecimento totalmente diferente. Continuamos sem certezas nesta área, mas pela forma como estas moedas se têm imposto, muitas das dúvidas que existiam no início já não se verificam. Isto não significa que as altcoins não possam subir significativamente de valor, mas não será razoável esperar que os seus investidores sejam remunerados na mesma medida que os primeiros investidores de Bitcoin: o risco que em 2009 assumiram não será repetido com nenhuma outra cryptomoeda, pelo que a expectativa de retorno não pode ser a mesma.

Nuno Rolla

Apostas desportivas, criptomoedas e investimentos alternativos

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