Victory of Light over Darkness (1883–1884) , Hans Makart.

Sobre Pokémon GO, surtos psicóticos e o maniqueísmo nosso de cada dia

Assunto novo e interessante, Pokémon GO pode ser abordado de diversas maneiras, aqui eu faço uma rápida observação de um caso recente. Não é nada de mais, aliás, apenas reproduzo um comentário que fiz em um post a respeito do jovem que enfrentou uma grave crise psicótica em uma Universidade brasileira. O jovem gritava “Pokémon”. Alguns — talvez os mesmos que acreditam que a infestação de algas (responsáveis pela maré vermelha) seja o que João afirma em Apocalipse 16:4, ou que os eventos de eclipse total sejam, sem sombra de dúvidas, a “lua de sangue”, como exposto em Apocalipse 6:12 — creem veementemente que é o diabo que está a agir.

Não se enganam na totalidade. Quaisquer ações humanas são manchadas pelo pecado e pela deformidade da imagem de Deus em nós, causada por nossa conduta perversa. Não diria que é uma ação diabólica, mas que é uma conduta maligna. Somos, como não canso de afirmar, vermes, perante a glória do Altíssimo. O que acontece é que, inundados por um desejo de elencar inimigos personificados e polarizados para lutar contra, acabamos entrando numa lógica dualista como se ocorresse, a todo momento, uma luta entre o bem e o mal. Não enxergo dessa forma. É útil para representações e é de muito mais credibilidade a ideia maniqueísta de disputa eterna entre duas forças equivalentes, mas é errado pensar que as forças diabólicas tenham quaisquer possibilidades de êxito frente à excelência de Yehowah.

Encurtando a conversa: não somos nada mais que personagens inundados por tendências malignas, perpassadas por uma imagem de Deus como a que resulta do reflexo num espelho quebrado. Não há luta igualitária entre o bem e o mal. Há uma disputa já vencida pelas forças “do bem”.

Viajei demais. Voltando ao tópico, reproduzo abaixo o supracitado comentário, com algumas alterações:

Eis a história de uma Igreja que ignora a ciência. Psiquiatria, psicologia e neurologia. Três campos distintos mas que pretendem explicar um aspecto comum da humanidade: a mente. Não é difícil encontrar casos e mais casos da perseguição e morte de milhares de pessoas deficientes — intelectualmente ou fisicamente — por parte da Igreja. Matamos (falo como Cristão) MILHARES, pra não falar milhões, de pessoas porque não compreendíamos sua condição. É extremamente lamentável notar que a ignorância domina os meios socioreligiosos que frequentamos e nos aprisiona de maneira cruel, provocando, inclusive, brigas familiares: não é o diabo não, é a ignorância alheia que faz um pai proibir um filho de jogar pokémon porque o R.R. Soares (que tem o próprio pacote de TV a cabo e cobra dízimo por débito automático) recomendou. Se foi para a liberdade que Cristo nos libertou porque mantemo-nos presos aos dogmas ECLESIÁSTICOS — sim, os mesmos contra os quais Martinho Lutero lutou — e esquecemos que só há, para o Cristão reformado/protestante, um guia: Jesus Cristo.

Um dos mais agradáveis teólogos que já passaram por essa terra, C.S. Lewis, uma vez escreveu:

“Há dois erros semelhantes mas opostos que os seres humanos podem cometer quanto aos demônios. Um é não acreditar em sua existência. O outro é acreditar que eles existem e sentir um interesse excessivo e pouco saudável por eles. Os próprios demônios ficam igualmente satisfeitos com ambos os erros, e saúdam o materialista e o mago com a mesma alegria.”