Em defesa dos imbecis

“Je ne suis pas d’accord avec ce que vous dites, mais je me battrai jusqu’à la mort pour que vous ayez le droit de le dire.” Voltaire (citação apócrifa)

Os imbecis estão por toda a parte. Sempre estiveram, não é de agora. Mais: os imbecis sempre disseram imbecilidades. Daí serem imbecis, entenda-se. A propagação da imbecilidade é ainda aumentada por pessoas que não sendo imbecis dizem imbecilidades. Vivemos, portanto, num pot-pourri de imbecilidade.

Nas últimas semanas, houve uma série de casos na sociedade portuguesa de pessoas que são ou actuaram de forma imbecil. Tudo começou com Jaime Nogueira Pinto que, apesar de me parecer um homem inteligente, é um defensor do fascismo e do Estado Novo e, como tal, no que toca a escolhas de modelo governativo, é, na minha opinião, um imbecil. Mais tarde, foi a vez do eurodeputado socialista Manuel dos Santos ser imbecil ao chamar “cigana” e “não só pelo aspecto” a uma outra deputada, esta da Assembleia da República, que imagine-se, até era do seu próprio partido. Mais recentemente, a sociedade portuguesa indignou-se com a homofobia do médico António Gentil Martins e com o racismo latente do super-ignóbil candidato à Câmara Municipal de Loures, André Ventura (também por causa de ciganos).

Do meu ponto de vista (que é irrelevante), e para que fique bem claro, todas estas pessoas podem e devem ser debatidas, porque de facto aquilo que defendem ou exprimem é, e não me quero repetir mas vai ter de ser, imbecil. Contudo, isso é muito diferente de dizer que podem (ou devem) ser censuradas. Por tudo isto, aqui venho eu defender os imbecis. Porque quer a nós pessoas de bem, quer aos imbecis assiste-nos um valor mais alto que é o da liberdade de expressão.

Vamos então por partes. “Onde é que a liberdade de expressão está em causa?”, pergunta-me o leitor. Pois bem, nos quatro casos a liberdade de expressão está bem em causa e não, não é porque eu ache que qualquer das ideias ou frases pronunciadas pelos interlocutores a viole, mas sim pelas reacções que a maioria de nós, pessoas de bem, vamos assumir, tivemos.

No primeiro e mais antigo caso de Jaime Nogueira Pinto, este nem pôde falar. Na sequência do convite daquele “pacóvio-moçoilo-de-idade-mas-velho-de-espírito” da Nova Portugalidade, que tanto admira Salazar como Hugo Chávez (?!), para dar uma palestra na FCSH, a AE da faculdade, ou pelo menos uma facção bloquista da mesma, decidiu boicotá-la e impedir a sua realização. No caso de Manuel dos Santos, ele foi acusado de racismo e foi censurado pelos colegas de partido que lhe chamaram racista e quiseram expulsá-lo do mesmo, esquecendo-se esses próprios colegas que “cigano” é um insulto barato e comum que não quer necessariamente indicar uma predisposição racista. Se assim fosse, eu estaria rodeado de 65000 racistas de cada vez que vou ao Estádio da Luz, eu (mea culpa) incluído. Que, em seguida, o queiram remover do partido, eu compreendo, mas não por achar que ele seja racista, mas sim por achar que ele é uma besta (qualquer pessoa que insulte alguém no Twitter, é uma besta, como Trump pode facilmente servir de exemplo). Atenção: até pode ser que ele seja racista, mas não é por este género de comentário que o podemos induzir ou sequer inferir tal coisa. Quem nunca chamou “cigano” a ninguém que atire a primeira pedra.

Jaime Nogueira Pinto foi impedido de dar uma palestra num local de diálogo por excelência: uma faculdade.

Nas últimas semanas, foi a vez da Ordem dos Médicos processar o conceituadíssimo médico pediatra e cirurgião plástico de 87 anos Gentil Martins que, numa entrevista ao Expresso, disse que a homossexualidade é uma anomalia e que nunca poderá defender os homossexuais. Prosseguiu dizendo pouco de Cristiano Ronaldo por este recorrer a barrigas-de-aluguer.(Pequena declaração de interesses: eu defendo quer o casamento homossexual, quer a adopção de crianças por parte casais do mesmo sexo e nada tenho barrigas de qualquer género ou forma ou fetos em qualquer tipo de situação locatária). Ora, partamos das seguintes premissas do seguinte raciocínio não-formal:

  • Gentil Martins nasceu em 1930;
  • Gentil Martins estudou Medicina na época em que se assumia que ser gay era um distúrbio psiquiátrico tratável com lobotomia;
  • Gentil Martins, apesar de não ser, parece catatónico, senão vejamos esta fotografia em baixo:
Gentil Martins, além dum excelente gosto para gravatas, apresenta-se na flor da idade.

Bom, será que só eu é que sou capaz de induzir que a probabilidade deste senhor gostar de pessoas que amam pessoas do mesmo sexo é tão grande como a probabilidade de ele não padecer de alopecia? (Já agora aqui fica o link para quem não está familiarizado com o termo: https://www.priberam.pt/dlpo/alopecia.) Vai na volta e se calhar sou e entretanto, eu não soube, e também abriu a época de caça aos gambozinos e o caso BES não passou duma pequena falha contabilística. O mais escandaloso da entrevista ao Expresso é mesmo o velho dizer que ainda opera! Como é que ninguém fala disto?!

Por fim, chegamos ao caso de André Ventura que disse umas frases que poderiam ser ditas por um qualquer gajo de Alfama (sem qualquer desprimor para o bairro que não merece ser conotado com alguém do gabarito de André Ventura) da seguinte maneira: “esta ciganada anda toda a viver à custa do Estado!”… Eu sinceramente, nem sei por onde é que hei-de começar, porque este senhor (ou será gajo?) é de facto preconceituoso e racista (disso não há dúvida). Além do mais o que ele disse é facilmente contradito pelos factos e estatísticas disponíveis nos portais estatísticos oficiais do Estado. O CDS, e bem, apartou-se da sua candidatura, mas o PSD (declaração de interesses, o partido do qual mais me aproximo ideologicamente), por absurdo que pareça, manteve o apoio à candidatura, na pessoa do seu líder, Pedro Passos Coelho, que continua a desbravar caminho de forma intrépida rumo a perder todas as eleições enquanto se mantiver líder do partido. Ademais, para quem não sabe, André Ventura é um benfiquista assumido que defende o meu clube num programa desportivo da CMTV cujo nível é absolutamente escatológico e em que eu, benfiquista dos quatro, não, dos trinta-e-seis costados e sócio desde o dia em que nasci, acho que ele é a pessoa que mais contribui para esse tratado escrementício. Como tal, para mim, ou para qualquer pessoa que viu cinco minutos desse programa onde se brada aos céus durante duas horas, André Ventura não mostrou nada sobre a sua pessoa que nós não já soubéssemos há muito: é uma besta! Uma besta doutorada, mas uma besta contudo!

André Ventura diz, perdão, berra coisas na CMTV.

O que me desassossega não são as imbecilidades que foram ditas, porque já as esperava, mas a reacção das supra referidas “pessoas de bem” como nós e a relevância que lhes damos (as aspas são referentes ao facto de eu estar prestes a falar do Bloco). Ora o “Bloquinho” decidiu proceder a uma queixa-crime contra a besta acima referida por “incitação ao ódio racial”. E é aqui que eu me presto a defender, infelizmente, André Ventura. Ele não incitou ao ódio a ninguém. Quanto muito ele é odiável, mas ele não incitou ao ódio a ninguém. Incitar ao ódio seria, por exemplo, incitar à violência contra o povo cigano. Ora ele não fez nada disso. Ele é, é uma besta! Mas, por favor, deixem as bestas ser, na verdadeira etimologia da palavra, bestiais (perdoem-me o pleonasmo). Ser um imbecil não é ilegal! Porque se for, o Bloco que me mande um email, visto que eu tenho uma lista por demais extensa de pessoas a quem quero processar e não estou para pagar selo por isto!

A grande desvantagem desta sociedade moderna, onde os Facebooks e os Twitters servem de tribunal público, é que chegamos a uma sociedade indesejada: uma sociedade onde as pessoas comuns fazem-se passar por “polícias dos costumes” ou por “brigadas do literal” que raramente compreendem humor, ironia (falada ou escrita) e que andam à caça de delinquentes para lhes dizer: “o senhor não pode dizer isso, porque isso insulta A!”, “a senhora não pode escrever isso, porque ofende B!”, etc. Este tipo de prática, é o tipo de prática anti-democrática própria de regimes ditatoriais. O que é mais irónico, por exemplo, no caso de Jaime Nogueira Pinto, é o que os estudantes do Bloco boicotaram a sua palestra em defesa da liberdade de expressão, sem repararem que estão a violar a liberdade de expressão do orador. (Ai aquele tique ditatorial tão trotskistazinho!) A liberdade de expressão não pode só servir para aquilo que é bom de ouvir, porque se assim for, ela não tem qualquer tipo de utilidade! A liberdade de expressão, se todos acharmos o mesmo, é inútil. Ela tem de existir para que vozes dissonantes se possam ouvir. E é aí que nós, democratas, vencemos os totalitários: é que nós deixamos Jaime Nogueira Pinto falar, mesmo que aquilo defenda seja um regime de opressão onde nós democratas não poderíamos falar!

Ao impedirmos os imbecis de falar, ou melhor dizendo, ao processá-los e persegui-los publicamente, o que nós estamos a fazer é a projectar as vozes dessas pessoas à enézima potência, porque elas aí vão poder dizer: “estão a ver? Eles têm tanto medo das verdades que eu tenho para dizer que nem me deixam falar!” Isto é por demais evidente quando, imagine-se a hedionda ironia, deputados do PNR (neo-nazis) vão para a frente da FCSH defender a liberdade de expressão, algo digno duma qualquer obra surrealista e distópica de Orwell, Huxley ou Zamyatin.

José Pinto Coelho, ou a expressão máxima da ironia bacoca: neo-nazis a defender a liberdade de expressão usando o seu próprio cinto.

Do que é que nós, pessoas de bem, temos medo? Que Jaime Nogueira Pinto conspurque a mente da pequenada universitária com esse “canto de sereia” que é o Estado Novo? Que André Ventura convença pessoas as pessoas de que a etnia cigana é a causa dos males do Estado? E ao que é que afecta à vida dum homossexual ou do Cristiano Ronaldo a opinião dum velho senil da velha-guarda médica saudosista?

Eu tenho 24 anos e sinto-me velho, porque sou dum tempo em que as coisas não se resolviam em tribunais. Soa-me infantil pedir a um tribunal para sentenciar coisas tão irrelevantes como declarações do Manuel dos Santos ou do André Ventura. Mas que hipersensibilidade social é esta? Será que não temos idade suficiente, para travar batalhas no jardim da escola sem atirar com a clássica do “olha que vou contar aos meus pais”? Isto é contraproducente por quatro motivos:

  1. Dar importância a imbecis é que os imbecis querem: eles vivem de atenção. Ao dar-lhes importância, fazemos com que outros imbecis os ouçam e se juntem aos primeiros;
  2. Corolário do ponto primeiro: uma aglomeração de imbecis nunca será útil para a sociedade;
  3. Os tribunais já estão cheios. Por favor, não os entupam mais (ouviram Benfica e Sporting?);
  4. Há uma utilidade social em deixar imbecis falar: identificá-los. Se André Ventura não pudesse ter dito o que disse havia o risco de alguém que nunca tivesse passado cinco minutos na CMTV (espero que a maioria de vós, excepto aquando da passagem das escutas do Sócrates), ir ao engano e votar nele. Assim, ele poderá, espero eu, ser devidamente aniquilado nas urnas. O mesmo ocorre com os neo-nazis. Eu agradeço que eles andem de suásticas tatuadas e carecas ao léu, porque assim eu não corro o risco de falar com um e não ter tempo suficiente para saber que ele é uma besta. Ou seja, deixar os imbecis falar, ou agir, ou expressar de qualquer maneira as suas opiniões, permite-nos, à sociedade decente, criar nós próprios preconceitos defensivos extremamente úteis que tornam a sociedade mais higiénica.

Normalmente, usa-se o chavão de “a minha liberdade termina quando começa a dos outros”, mas eu discordo em absoluto com ele, porque não só o conceito de liberdade não é o mesmo para toda a gente (é um conceito por demais relativo e suvjectivo), mas também se o levasse à letra nada poderia dizer a ninguém, porque qualquer coisa que eu possa dizer pode sempre ofender alguém! Todos os benfiquistas sabem disso: todos temos um amigo do Sporting que não se importa de levar bocas sobre o jejum de títulos e ele próprio se ri de achar que “este ano é que é” todos os anos, mas também todos temos outro que diz “à minha mãe tudo bem, agora ao Bruno de Carvalho, não te admito!” O mesmo ocorre no sentido inverso, obviamente.

Há que ganhar maturidade e perceber que a democracia é o mais belo dos sistemas pela liberdade que permite aos seus intervenientes. As liberdades são tais que o sistema tem em si mesmo as armas da sua auto-destruição. É a sua fragilidade que a torna única e por isso é preciso defendê-las. E defendê-las não é abolindo-as. Defendê-la, não é impedindo parvos de falar, mas sim debatendo-los e pondo em evidência as suas falácias, ou até mesmo ignorá-los (a Associação 25 de Abril, num acto de grande classe, cedeu as suas instalações para a realização da conferência de Nogueira Pinto). Tudo o resto só lhes dará mais força, porque fará deles mártires, e os mártires, se a Igreja Católica e a sua história nos servirem de exemplo, normalmente viram santos e santos é que eles não são.

Assim defendo os imbecis, porque os valores democráticos que preconizo permitem aos imbecis falar tanto como eu. Por favor, não façamos dos imbecis criminosos.

P.S. 1: Quanto ao caso do Salvador Sobral nem me vou dar ao trabalho de escrever. Ele mandou uma piada. Por favor, sociedade, ofende-te.

Salvador Sobral fez uma piada escatológica (literalmente!) e hiperbólica, e o país, como não tem mais nada para se preocupar, irritou-se de sobremaneira e deu-lhe no focinho.

P.S. 2: Lá fora, também há bons casos de violação da liberdade de expressão. E como sempre o que vem de fora é melhor do que o que é nosso, ficam aqui duas bestialidades estrangeiras:

  • A peça The Vagina Monologues (Os Monólogos da Vagina, em português) de Eve Ensler foi proibida na faculdade feminina de Mount Holyoke College, nos EUA por não ser inclusiva para mulheres que não tenham vagina (não, não estou a gozar).
  • O clássico livro de Harper Lee, To Kill a Mockingbird (título português, Por Favor, Não Matem a Cotovia) e ainda mais clássico The Adventures of Huckleberry Finn (As Aventuras de Huckleberry Finn) desse pináculo da literatura universal que é Mark Twain foram removidos das escolas de Accomack Country, Virgínia, EUA, porque pais queixaram-se que os livros tinham a palavra “nigger” (não, mais uma vez não estou a gozar).

P.S. 3: Para a brigada do literal e para a polícia dos costumes aqui fica o seguinte disclaimer: o uso de palavras como “imbecil”, “imbecilidade”, “besta”, “bestial” (no sentido de proveniente da besta), “parvo”, entre outras, visam criar uma certa comicidade mordaz, sarcástica e irónica na aliteração, repetição e uso das mesmas e não visam ofender nem denegrir as pessoas visadas nesta coluna de opinião. Até porque elas, para se denegrirem, não precisam da ajuda de ninguém.

O Bardo

Gonçalo Levy Cordeiro

Written by

O Bardo

O Bardo

Uma análise inútil à política e sociedade portuguesas

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade