Os héteros não estão preparados para ‘Crônicas de São Francisco’

Nathan E. Fernandes
Aug 2 · 5 min read

Outro dia o jornalista Jardel Sebba — que (além de “patologicamente tímido, morbidamente mudo, estupidamente passional e constantemente ridículo”, como ele se define no Twitter) foi meu mentor-editor na finada Playboy — publicou um tweet que virou hit.

Em menos de 280 caracteres ele disse isso aqui: “Era pra gente estar discutindo: big data, inteligência artificial, células-tronco, fim da fome no mundo, aquecimento global, reciclagem. Estamos discutindo: terra plana, legalização do trabalho infantil, juiz imparcial, sexualidade de jornalista, que cor vestem meninos e meninas.”

Essa ideia me veio à mente enquanto assistia à “Crônicas de São Francisco”, a série da Netflix que retomou a história original dos anos 1990, baseada na saga literária de Armistead Maupin.

Logo nos primeiros episódios, um casal formado por uma mulher cis lésbica e um homem trans hétero enfrenta um dilema complexo que não caberia nas novelas da Glória Perez — até porque a Glória Perez acredita no Pavão Misterioso. Isso porque, apesar de se definir como hétero, o cara trans começa a perceber que sente atração por outros homens. E se isso já parece confuso para você, imagine para uma pessoa que tá passando por uma transição de gênero. Mas não para por aí: a moça lésbica vive outro conflito, porque, apesar de ter acompanhado toda a transição do namorado e apoiá-lo desde o início, ela agora é uma lésbica que namora um homem. Ou seja, os dois se amam, mas seus gêneros e orientações sexuais não são mais compatíveis.

É como se Romeu e Julieta tivesse sido escrito pela Judith Butler. Aqui, o clássico “nosso amor é impossível” ganha uma camada psicologicamente tão profunda que seria preciso uma plataforma da Petrobras pra acessar o pré-sal dessa questão.

Uma vez entrevistei a escritora Amara Moira, a primeira pessoa trans com título de doutorado pela Unicamp. Na conversa, ela, que estudou crítica literária, questionou a ideia de que as histórias do mundo parecem ter acabado e que agora a gente só reconta as mesmas tramas em um contexto diferente. “ Vejo na universidade essa discussão sobre crise, de que os escritores já não sabem mais sobre o que escrever, que não existe mais assunto, que já se escreveu sobre tudo e eu penso: ‘Nossa, continua essa perspectiva dos homens brancos, cis, heterossexuais, cristãos e das classes dominantes’. Só essas pessoas não têm mais o que dizer, só elas contaram todas as historias que tinham para contar. Mas as pessoas trans, os negros, as mulheres estão só começando a ter o direito de contar nossas histórias.”

Ao assistir “Crônicas de São Francisco”, esse raciocínio fica evidentemente gritante, já que os conflitos vividos por esses personagens jamais poderiam ser retratados por um casal hétero. Eu tenho paixão por novelas (e meu senso crítico em relação a elas é tão baixo que eu gosto até de novela com o Eri Johnson), mas confesso que acompanhar o dilema de uma mulher lésbica que já não se sente atraída pelo namorado, o qual passou por uma transição de gênero, é muito mais interessante do que ver a Juliana Paes chorando. Se poupe, Juliana.

Essa complexidade toda do roteiro não vem do nada. Como afirmou o produtor Alan Poul à Variety: “Ter uma equipe de roteiristas completamente queer, um grupo o qual ninguém precisava explicar as coisas, o qual as coisas já estavam todas em nossas cabeças, as experiências que todos tivemos por crescer como queer — o qual nós podíamos pegar nossas bases comuns e partir daí — fez uma grande diferença.”

De fato, “Crônicas de São Francisco” não explica nada. Enquanto a novelas (que eu amo) subestimam a inteligência dos espectadores explicando a trama a cada dois minutos, a série da Netflix quer mais é que o espectador se foda. Ou melhor, que ele fique curioso o suficiente para levantar a bunda do sofá e fazer uma pesquisa no Google.

Isso fica bastante evidente com o casal gay da trama, que para delírio das viada, como eu, aparece de cueca ou transando em quase todos os episódios. O mais interessante é que eles não aparecem transando só para satisfazer meu desejo por soft porn, a pegação toda tem sentido na história.

O casal vive uma relação sorodiferente, ou seja, um deles vive com hiv e o outro não. Em uma cena, o cara positivo questiona o médico sobre a possibilidade de fazer sexo sem camisinha com o namorado. Ele faz tratamento, tem a carga viral indetectável e o namorado toma PrEP (uma espécie de anticoncepcional para hiv). Ou seja, a possibilidade de transmitir o vírus é ZERO. Tanto que mulheres que vivem com hiv e pretendem engravidar podem gerar filhos da mesma forma que mulheres que não vivem com hiv. Isso não é ficção, é cientificamente comprovado. Mesmo assim, o cara positivo vive um bloqueio que o impede de transar com o namorado sem camisinha. Ele acha que vai expor a pessoa que ama ao vírus, mesmo quando todas as evidências científicas mostram o contrário.

A série não explica o que é carga viral indetectável, ou PrEP, não fala sobre o estigma da aids, não explica nada. Em vez disso, joga o dilema na cara do espectador como quem joga uma bola pra outra pessoa e fala “pensa rápido”.

Foi por isso que lembrei do tweet do Jardel. Pessoas que assistem séries no século 21 já estão maduras o suficiente para elevar o nível da discussão, mas em vez disso estamos discutindo sobre as mesmas histórias de amor há mil anos. Não é apenas uma subversão da Jornada do Herói, é um sepultamento sob concreto — apesar de alguns arcos seguirem uma linha dramática mais tradicional.

Como se não bastasse, “Crônicas de São Francisco” tem um humor muito esperto. E, apesar de beirar o novelão algumas vezes, aposta altíssimo na inteligência de quem paga 45 reais por um streaming. Corre, sim, o risco de deixar o espectador perdido, mas só aquele que é preguiçoso demais, desinteressado demais, ou hétero demais. Afinal, se as pessoas podem inundar o Google em busca de teorias que expliquem a trama de Game of Thrones ou Dark, por que não se informar sobre questões de gênero e a evolução médica no tratamento do hiv?

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tempo. Viajante do

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