Essa rua era minha

Por Allan Gomes

Eu não conhecia a Suzy.

Mas conhecia aquela rua. Sempre passo por ela, e no meu trajeto é uma das mais importantes.

É nessa rua que costumo fazer as observações sobre a situação econômica do meu bairro. Quantos mercadinhos estão funcionando nela, quantos carros ficam estacionados. A rua São Pedro sempre foi pra mim umas espécie de termômetro do que microcosmo que é o bairro de Petrópolis, em Manaus.

Nos últimos meses tem sido tenso transitar por ela.

São muitos os relatos de assalto, e em geral com o mesmo modus operandi: dois assaltantes de moto, a mão armada, rendem transeuntes e levam o celular, de preferência, e o que mais de valor a pessoa entregar no susto.

Eu não conhecia a Suzy, mas essa semana descobri que tínhamos a mesma idade. E que ela faz… fazia aniversário exatamente um dia depois de mim.

A rua em que a Suzy morava sempre foi cheia de vida aos meus olhos.

Desde os meus primeiros passos a caminho da escola primária — e na época do colégio militar — a rua São Pedro era uma referência em ânimo.

É de lá que sai o time que disputa o Peladão, e onde se enfileiram pet shops, eletrônicas, padarias e igrejas.

Mas passei pela Rua São Pedro ontem e ela parecia de luto.

Muita gente cabisbaixa e reconheci a casa da Suzy pelo aglomerado na frente.

Na conversa que entreouvi alguém narrava o ocorrido no dia anterior. Triste.

Eu não conhecia a Suzy, mas soube agora que ela era massoterapeuta.

Uma profissão importante ao aliviar as dores das costas que carregavam hoje o fardo do absurdo abandono em que vivemos.

Uma dupla de assaltantes tem aterrorizado a rua São Pedro desde meados de 2015 e fez nesse início de ano sua primeira vítima.

Ai que bom que seria se essa rua fosse minha e eu pudesse voltar ao que ela era na minha memória só com um aceno de mão