O CÓDIGO #05 — AQUILO QUE ESTÁ ENTRE O CÉU E A TERRA

O despertar.

No trem a caminho do trabalho, Barbara “Bobbi” Stacy só pensava se Nick estava bem.

A jovem menina loira, de óculos grandes fazia o tipo tímida, ainda mais no ambiente de trabalho com maioria de homens, apesar de ter uma líder mulher de nome Iara Gomez. Ela sempre foi aconselhada pela mãe a ser assim, silenciosa. Observar mais, ouvir mais, agir mais, em silencio, respeitando a “proporção divina”. Dois olhos, dois ouvidos, duas mãos e apenas uma boca. Assim conseguiu seu trabalho como uma das designers lideres nos projetos mais importantes da BlockBuilder.

Seus traços eram elegantes, tanto físicos como sua arte. Sim, definia seu trabalho como arte, por mais técnico que fosse. Arte era um termo que envolvia emoção, dedicação, paixão. Era assim que se sentia a cada uma de suas “obras”. Nas vezes onde dividiu um café nos intervalos com Nick Fleming, sentiu uma proximidade do jovem de óculos e cabelos escuros por ver nele a mesma dedicação e paixão pelo o que fazia. Ele, nos códigos, o design interior. Ela no design exterior. Ele era prático, ela estética, apesar de ser um titulo um tanto quanto fútil, ela sabia o quanto o visual dos aplicativos e programas eram importantes para o usuário final.

Nick era uma pessoa triste, na visão dela. Parecia solitário, deslocado. Lógico que servir a Oliver Stone não ajudava muito, mas sempre sentiu necessidade de colocar um sorriso no rosto dele. Ironicamente, foi ela quem deu a dolorosa noticia da morte de Lawrence Fleming, seu avô.

Olhando a paisagem na manhã cinza, esperava de coração que ele estivesse lidando bem com as coisas que estavam acontecendo, pelo o que sabia, ele era o único parente vivo e próximo de seu avô. O pai de Nick havia falecido há muito tempo, e ele era viúvo, ainda que tivesse uma namorada, não era a mesma coisa que um filho, ou um neto.

“Pobre Nick”, ela pensou, enquanto chegava a seu ponto, na estação próxima ao prédio da empresa. Aquela avalanche de pessoas saindo da cabine de metal levada por um campo magnético de cinco centímetros do solo. “E pensar que tudo isso era com rodas de metal um tempo trás”.

Bobbi atravessou a rua, parou no ambulante que vendia café em uma bicicleta especial, pagou por um expresso triplo e um pão recheado de queijo para viagem. Entrou no prédio, passou a catraca com o crachá eletrônico. Subiu pelo elevador social, espremida pela quantidade de gente que batia ponto ali todos os dias.

Chegou ao andar da BlockBluider, cumprimentou a todos com quem cruzava no corredor, se dirigiu a sua baia, sentou na poltrona, colocou o copo de café e a embalagem do salgado na mesa, abriu o notebook, ajeitou o tablet e a caneta, e já iria iniciar, quando notou que ninguém mais estava sentado por ali.

Levantou a cabeça e observou a movimentação das pessoas em direção ao telão, localizado próximo a sala da chefia, geralmente usada para exibir apresentações para todos os funcionários, passava indicadores, contagens regressivas para datas de entregas, clipes musicais para criar um ambiente relaxante para o trabalho, entre outras coisas. Mas naquela manhã era diferente.

Exibia o telejornal do Canal 13.

…a casa pertencia a Lawrence Fleming, morador antigo da região. O bairro de Green Hills não via a muito tempo uma sequencia tão misteriosa de mortes assim desde os tempos do serial killer Cicatriz e…

- Lawrence Fleming? — expressou sua surpresa ao ouvir a cobertura ao vivo.

- Sim, é a casa do avô do Nick — disse Iara Gomez, vindo por trás de Bobbi, continuando o raciocínio dela — Encontraram a namorada do avô, uma tal de Martha Kane, morta. Aparentemente o olho dela explodiu.

- Como assim, explodiu?

- Foi um tiro na nuca, o queridinho psicopata de vocês deve ter matado a mulher, garanto — virou-se para elas o supervisor imediato de Nick, o homônimo do diretor de cinema, Oliver Stone.

- Deixe de graça, Oliver — interferiu Iara — o garoto não tem nada com isso, você espalha isso por ai como se fosse verdade, vamos acabar perdendo nosso melhor programador por conta disso.

- Ele não faz nada demais, só fica sendo “trevoso” por ai. Abram o olho — completou Oliver enquanto se retirava.

Bobbi Stacy apenas observou a cena na tela. A casa era grande, muito bonita, mas por dentro parecia chamuscada, bagunçada.

- Falaram alguma coisa de Nick? — perguntou.

- Não — um colega de trabalho respondeu, entre um gole e outro de uma caneca de café — nada dele. Citaram como o último a ver a mulher, segundo testemunhas. Provavelmente a policia esta procurando por ele.

- Que absurdo.

- Olha, não conheço o garoto, mas não é absurdo não. Pode ser uma questão de herança, sei lá. Nunca se sabe.

Bobbi sabia que nem todo mundo era assim, mesmo em Dragontown. Nick era um dos bons, sabia disso. Procurou o telefone e o número de Nick. Ligou, mas a ligação não completava por falta de sinal.

“Onde será que ele esta?”, pensou apreensiva. “Espero que bem. Espero que vivo”.

Nick tinha dificuldade de abrir os olhos, a dor de cabeça era imensa. Era a pior ressaca da sua vida e ele tinha passado por situações pesadas nos tempos de faculdade. Do tipo de ficar quase 10 dias sem dormir sob efeitos de álcool e outras coisas. Aquele tempo já havia passado, mas essa parte da memória ainda era bem viva para ele.

Estava numa cama macia, com lençóis cinza, lisos. Quentes, diferente do clima gelado dos últimos dias. Colchão macio, e tudo tinha um cheiro suave de pinho, dando aquela sensação refrescante de limpeza. Aquele cheiro sempre trouxe calma e paz para o jovem Fleming.

A visão estava embaçada, mas ele havia atribuído isso a falta de seus óculos. Não sabia onde estava e exatamente por isso, seria um desafio acha-los. Quem o colocou ali teria guardado por perto ou para si? Ele acreditava na primeira opção, visto o carinho com o que fora colocado ali. Trocaram suas roupas, ele estava limpo, ou seja, alguém deu banho nele. A ultima coisa que se lembrava era de ter descido ao porão do avô e com o livro que tomara dos policiais, abriu uma passagem secreta que o levou a uma escada que descia ainda mais e então, uma sala totalmente branca.

E ai, a pior sensação de toda sua vida.

Aquilo começou como um mal estar, mas acabou se espalhando, como se tivesse sentido todos os incômodos e doenças da vida, todas as consequências ao mesmo tempo, talvez até aquelas que ele não havia sentido ainda.

“Há, como sou idiota. É obvio que foi Martha que me achou e me colocou aqui, na cama. Devo estar em um dos quartos da sala”, pensou sorrindo para si mesmo. Movimentou-se para sentar na cama e colocou os pés no chão. Sua visão estava nublada, mais do que o normal, mas seria consequência do que aconteceu com ele. Alguma sequela. Precisava achar sua benfeitora e agradecê-la e, além disso, precisavam fazer os preparativos para o funeral de seu avô.

Sentiu o piso de madeira, ligeiramente fria. Era uma madeira rústica, como se esculpida de maneira antiga e não apenas esses pisos pré-fabricados. Como se não fosse apenas uma capa para o chão e sim madeira mesmo. “Deve ser caro”.

- Martha — chamou por ela, tateando o ar para não esbarrar em nada — Martha, onde você colocou meus óculos, você sabe que não enxergo nada sem eles. Martha!

Silencio foi sua resposta.

Esfregou as mãos contra os olhos e notou uma leve melhora em sua visão. Apoiou-se na cabeceira da cama e notou que ela também era de madeira de lei, sólida e dura como uma rocha.

- Vocês gastaram na decoração aqui em cima, hein? — gritou — Tudo de madeira boa. Será que quebraram muitas camas? Aparece, Martha, preciso mesmo dos meus óculos.

Ele escutara passos e pensou que ela finalmente ia atendê-lo. Ele estava ansioso, se sentia bem, disposto e estranhamente animado. Não era um momento para se sentir tão energizado assim. Mas parecia que ele realmente precisava de um bom sono em uma cama confortável para voltar a se sentir bem consigo mesmo. Há quanto tempo não se sentia assim?

Talvez nunca?

Depois pensaria nisso, tudo o que queria agora era comer alguma coisa e se despedir de seu avô. Martha devia estar no andar de baixo, então decidiu abrir a janela para poder respirar um ar puro do dia. Assim que o fez, uma rajada de vento forte o assustou, o suficiente para que fechasse os olhos e tivesse que esfrega-los novamente, para retirar a areia que havia entrado.

E o que ele viu o fez se espantar ainda mais.

Uma vista área de um pátio, uma espécie de feudo, uma cidade murada, feita de pedra lisa e metal. Nada rústico, mas bastante trabalhado. O céu estava azul, com poucas nuvens que pareciam mais algodão. A visão ia para fora dos muros, com campos verdes que subiam até longínquas colinas, onde nasciam arvores que juntas formavam uma densa floresta.

A cidade estava movimentada, pessoas em trajes estranhos, coloridos e um tanto bufantes passavam apressadas. Barracas com frutas se encontravam em esquinas, onde senhoras de vestidos simples debatiam sobre preços, enquanto seguravam crianças endiabradas.

- Onde diabos eu estou? — disse em voz alta, como se tivesse questionando alguém.

- Arcádia, jovem senhor — disse uma voz feminina.

- AAAAH — gritou Nick, ao assustar-se com a presença no quarto, que ele finalmente vê como é: tapetes vermelhos com símbolos estranhos em suas paredes, estendidos como estandartes. Móveis simples, feitos realmente de madeira, a mão, como em séculos anteriores. As paredes eram de pedra, pedaços enormes de pedra escura, conectados com cimento. O piso, como já havia sentido, era de madeira pura, tabuas conectadas com pregos e piche.

- Pela sua reação, deve ser a sua primeira viagem ao nosso reino — a voz feminina era calma, tranquila, como um som de uma harpa suave tocada ao vento em contraste com os gritos altos de Fleming — Diga-me, a passagem pelos reinos ainda está complicada, não? Você chegou aqui desacordado.

- Eu desmaiei no porão do meu avô e acordei em Nárnia e você ainda me pergunta alguma coisa?

- Nárnia? Que reino é esse? — a jovem tinha ficado confusa pois nunca ouvira esse nome antes — O viajante de nome William não o citou de nenhuma forma.

- William? Não conheço nenhum William, alias, melhor dizendo, conheço, mas um monte de onde eu vim. Você precisa ser mais especifica.

Nick pensou em dizer que não conhecia nenhum William, mas entendeu que seria inútil, pelo simples fato dele nem ao mesmo saber ao certo onde ele estava. Só sabia que a mulher era linda, uma beleza de outro mundo, literalmente. Seus traços eram uma mistura de olhos puxados orientais, com a pele do leste europeu, mas os olhos e os cabelos eram vermelhos, uma cor viva, como nunca tinha visto, fora em imagens digitais manipuladas.

E tem um detalhe, que o deixou ainda mais intrigado. As orelhas dela era diferentes, maiores, angulares. Nicholas já tinha visto coisas parecidas, mas em obras de ficção, nunca ao vivo. Personagens como Spock, Galadriel, Légolas…

- Moça, você é uma elfa?

Continua…