O CÓDIGO #14 — O ATAQUE DA TRINDADE

- Oxe, até que a Rainha dava para o gasto, não é?

- Você é maluco, Lover. Juro pelo Eterno, maluco! — responde o guerreiro de cabelos cumpridos e pele verde.

Os três andavam pelas ruas de Dragontown com a mesma naturalidade que andaram na Corte Élfica ou na maior prisão do universo. Se separados eram perigosos, unidos eram uma força da natureza, com cada um completando o que o outro possuía. Um guerreiro, um mago e um ladino.

- Deixem de frescura, se aquela megera não tivesse nos jogado aquelas três maldições, eu não estaria nem aqui — disse Solomon Snake, o mago trapaceiro, senhor dos sortilégios e ilusões — Nunca que iria trabalhar para aquela biscate.

- Tem algo errado com ela, muito errado — a voz rouca e rasgada era do guerreiro de pele verde, Kane Starr, dono das laminas gêmeas lendárias em toda a galáxia. Como um Filho da Guerra, era capaz de pressentir o que estaria por vir.

- Ah, deixem de serem tão sérios — a voz abafada pela mascara era de Marine Lover, o ladino dos oceanos. Era possível ver apenas seu sorriso pelos olhos — Eu perdia um tempo ali se vossa realeza permitisse. Gosto muito dos elfos, principalmente das elfas — riu.

- E quem não gosta?

- Menos daquelas que podem nos matar — grunhiu Kane.

A insana Titânia havia feito uma proposta irrecusável para o trio de mercenários: ou eles cumpriam três missões, uma cada um, e retornavam para suas vidas, fora do planeta prisão de Tartarus VII. Uma para cada um deles, de acordo com a expertise respectiva.

Kane Starr era um guerreiro.

Um caçador de sentidos ampliados, assim como sua força e agilidade. Sua ferocidade ao lutar só era par a sua habilidade com as duas espadas que sempre carregava consigo. Possuíam lâminas de ébano, lembravam muito as espadas do tipo Gladius, que os gladiadores dos tempos de Roma usavam. Um estrategista frio, conhecido como “Matador de Paladinos”.

Sua missão era matar Nicholas Fleming, erradicando a linhagem do maldito Larry Fleming na Terra.

O líder do grupo, o astuto Solomon Snake, era um mago especializado em ilusões e enganação. Com sua língua de cobra, fumaças e espelhos, além de diversos mistérios por si só, tinha como objetivo a salvação de Adriel Pendragon, a princesa de Arcádia e atual aliada de Fleming.

A rainha a considerava iludida pelo terrestre, disposta a sacrifícios por ele. Por isso, era a missão de Snake. Enganar a garota, para trazê-la a seu mundo.

Marine Lover, o amante da maré. Um ladino de corações femininos e mais que isso, um dos melhores ladrões do universo conhecido. Sua habilidade de abrir cofres, bater carteiras, entrar e sair de fortalezas era imprescindível, juntamente com sua afinidade com a água.

Dele era a missão de resgatar o livro de uma só letra, o código que O Grande Fleming descobriu. Titânia estava convencida que ali ela encontraria a cura pra sua demência, salvando mais que sua vida e seu casamento com Oberon Pendragon, salvando Arcádia de sua fúria enlouquecida.

Mas antes, eles precisavam encontrá-los.


- Então Nick vem aqui amanhã? — disse Iara Gomez, animada — Acredito que finalmente vamos colocar o projeto para frente, Bobbi.

- Sim, sem duvida — Barbara Stacy, por sua vez, não compartilhava sua animação.

- O que houve? Você saiu daqui correndo tão rápido que ninguém nem viu você saindo, voltou tão quieta, aconteceu algo?

- Não, nada…

- Nada?

Bobbi resolveu dividir seu sentimento. Eram poucas as mulheres naquele andar e sem duvida, Iara era uma boa pessoa, preocupada com seus funcionários.

- Bom, eu vi Nick com uma garota e…

- E…?

- Sei lá… Eu acho que não gostei.

Iara riu alto.

- Você acha? Eu já tenho certeza. Quem diria, hein? Nunca pensei que vocês dois…

- Não, não — Stacy faz movimentos de negativo com as mãos — Nunca aconteceu nada.

- Ei, nada contra. Eu não acho ruim relacionamento entre colegas, desde que não atrapalhe no trabalho.

- Ah, para com isso. Não é isso. Eu nunca… Tinha notado que ia me incomodar.

- Incomodar o que, gata? Eu estar longe?

Oliver Stone era sutil como uma pedra voando a uma janela de vidro. Seu odor já o precedia, uma mistura de Hugo Boss e fumaça de cigarro. Seu corpo grande, com um aspecto quase quadrado, era uma de suas marcas e facilitava para vê-lo zanzando pelo andar, incomodando o trabalho de todos. O trabalho dele mesmo, ninguém nem sabia exatamente o que era. Talvez ele recebesse para provocar.

Faria sentido.

- Oliver, Nick Fleming vem aqui amanhã. Não quero nenhuma cena, ok?

- Fleming? Esse merda vai pedir o emprego de volta?

- Ollie, você que precisamos dele. O garoto tem um talento raro para codificar e esse o Projeto Demo envolve criptografia avançada. Nosso aplicativo deve saber decodificar qualquer coisa.

- Gomez, na boa, eu vou falar como colega, por cortesia profissional… Esquece esse moleque. Vamos trabalhar com nossa equipe que ganhamos mais. Ele já nos ferrou uma vez, eu nem entendo o porque ainda estamos com esse projeto em mãos. Se eu fosse o responsável por isso, já estaria caçando outras opções.

Iara olhou ao longe, enquanto Bobbi acompanhava o olhar dela.

- E quem disse que já não somos dessas opções, Oliver? Desde que Drake nos contatou para criar esse aplicativo para uma das empresas dele, ele praticamente banca esse escritórios.

- Drake? — questionou a jovem loira de óculos fundos.

- Sim, gatinha — sorriu maliciosamente Oliver Stone — O dono do Projeto Demo é o todo poderoso Dominic Drake.

- Mas ele não é… um criminoso?

-É o que dizem, querida — Stone chegou a gargalhar — Mas se formos pensar assim, não trabalhamos para ninguém. Se a policia não prendeu ele ainda, quem sou eu para questionar?


-Esta tudo bem ai? — Nicholas Fleming observava Adriel devorar uma pizza de quatro queijos gigante sozinha, como se ela não comesse à séculos — Se precisar eu peço mais uma.

- Precisa sim, pode pedir — ela respondeu sem tirar da boca o ultimo pedaço — Estou faminta.

- Sério? Nem notei. Você come sempre assim?

- Só quando estou aqui.

A elfa era magra, esguia e atlética na medida certa. Por ser uma criatura da natureza, ao menos no pouco conhecimento de Nick sobre o assunto, devia comer coisas mais naturais, leves. Como se fosse uma esportista de alto desempenho. Ou uma modelo. Ou as duas coisas juntas.

- Como assim, quando esta aqui?

- Seu mundo — ela diz — Tem muito de algumas coisas e pouco de outras. E isso me abala. Digo, abala os elfos de forma geral.

- Será que vocês na conseguem falar nada sem gerar mais perguntas. Seja mais objetiva, mulher!

A princesa sorri com seus lábios delicados.

- Certo, você tem razão. O que vocês tem demais é coisa gostosa para comer. Nossa, eu amei isso aqui. Pizza, não é? Nós já tentamos fazer por lá, não fica igual.

- Deve ser a sujeira dos fornos daqui…

- O que vocês têm de menos é mana. O nível de energia mágica é bem menor que no meu reino. Assim, muito menor. Tanto que eu tenho efeitos colaterais aqui. Meu corpo, ele absorve energia do ambiente. Seu ambiente é fraco em energia. Mesmo comendo assim… eu não duro muito.

- Como assim não dura muito?

- Eu estou morrendo, Nick. Se eu ficar muito tempo aqui, minha vida se vai. Eu tenho 180 anos terrestres. Mas em Arcádia, eu sou jovem. Aqui, o ambiente suga minha energia, e eu vou me esvaindo. Ainda bem que eu ainda não precisei usar nenhuma magia de combate, ai que eu não sei mesmo quanto tempo duraria.

Nick a encarou profundamente. Ela acabou de dizer que corre risco de vida e esta comendo pizza como se nada estivesse acontecendo. Não era tão simples assim que acreditar que uma garota, uma mulher como ela faria aquilo por ele. Ainda mais ela sendo de outra dimensão.

- O que houve nesses três meses, Adriel? Porque eu não consigo me lembrar?

- Você quer mesmo saber?

- Você fala como se fosse horrível.

- De certa forma é — diz ela, sem mudar a expressão — Digamos que é parte do preço que a magia cobra por seus feitos fantásticos.

- Ok, eu já pedi para você ser mais direta.

- Não tem como ser mais direta que isso. Magia é a arte da mudança. Não é porque as leis da física podem ser dobradas que elas estão erradas. Uma delas diz que “nada se cria, nada perde, tudo se transforma”.

- Eu sei que eu já ouvi isso em algum lugar.

- Depois que você foi banido da Corte em Arcádia, meu pai perseguiu você por alguns dias antes de te capturar. Você não lembra, mas você chegou a despertar sua Essência.

- Essência… Lá vamos lá de novo, o que é isso?

- Bom, é o coletivo de todas as suas vidas passadas, Nick. O seu verdadeiro eu, com todas as memórias e aprendizados e lembranças de todas as suas encarnações.

- Agora você vai me dizer que reencarnação é real?

- Ué, você esta comendo pizza com uma elfa. Alias, pagando a pizza, porque não vi você comer nada.

- Como se você deixasse… Enfim, me fale mais dessa “Essência”.

- Em Arcádia, ela é mais fácil de acessar, devido a ter mais magia ambiental. Lá o consenso ajuda os Despertos. Aqui, já é mais complicado. Você acessando sua Essência, você já dominava magia como um mestre arcano. Suas vidas estão conectadas a isso de maneira primordial. Não à toa você veio como neto do Grande Fleming, você deve ter vindo aprender, sei lá.

- Levando em consideração que estou aprendendo tudo isso depois que ele morreu, duvido muito. Mas enfim… O que isso tudo tem haver com meus 3 meses que evaporaram?

- Interessante escolha de palavras. Bem, digamos que na masmorra, você precisou fazer algo drástico para fugir. Eu sei porque me contou que ia fazer e me instruiu a vir atrás de você.

- Eu?

- Sim, você com sua “Essência”. Nós conversamos muito.

- Nós… só conversamos?

- Não se pergunta essas coisas para uma dama. Eu sei que você sacrificou três meses do seu tempo para fugir de la e vir para Terra.

- Hein? Quer dizer que eu vou morrer mais cedo?

- Não, do seu TEMPO. Você eliminou noventa dias da sua linha temporal se jogou aqui, no seu futuro. Como se tivesse editado o filme, entende? Para você, nunca esteve em Arcádia, nem viu seu avô morrer, nem nada disso. Você furou a Trama da realidade.

- E atraiu a maior onda de Paradoxo que eu já vi — disse uma voz ao longe, grossa e arranhando suas cordas vocais — Quer dizer, aumentou a zona toda.

- Quem?

Adriel se vira para o lado a tempo de ver um gigante esmeralda atirando uma espada de lâminas negra em direção a eles. Rapidamente, ela empurra Nick para trás, os separando. A força do arremesso é tamanha que o pobre garçom que trazia a segunda pizza de quatro queijos para eles foi cortado ao meio, pelo giro vertical da arma. Os outros dois começam a rir, caçoando de seu irmão de armas, que não gosta e parte para cima do casal, em meio da pizzaria com bancos no meio da calçada.

A princesa tira de sua mochila um bastão que em suas mãos se torna seu arco dourado, cuja linha Nick acabara de notar ser dourada também. Sem flechas, ela puxa a corda, que acende com uma energia dourada e faz surgir uma seta de pura energia, disparada agilmente contra os três atacantes.

- Afaste-se, estranho! — disse a herdeira dos Pendragon.

- Afaste-se você, mocinha — disse o homem de cabelos negros e cajado — É o garoto que Kane quer. Sai dessa e vem com a gente.

Antes de qualquer resposta, Adriel vê Nicholas ser engolido pelo ataque prensado da fera bestial de pele verde. Como se um ônibus atropelasse o garoto e ambos atravessam a vitrine de vidro, fazendo estilhaços voarem por todo lado e desaparecendo das vistas da elfa.

- Viu como foi rápido, moça? — aquele de mascara e cabelos loiros prateados enrola a princesa com um tentáculo de água morna que a agarra apertado pela cintura — Dois a zero para a Trindade.

Continua