
200 mil anos de estranheza
Existem dois fatores essenciais que permitiram que a raça humana evoluísse — e se destacasse do restante dos animais ao seu redor — ao longo dos últimos milhares de anos de sua presença na Terra:
- O polegar opositor, que nos permitiu pegar e segurar coisas, manusear ferramentas e armas, descobrir o fogo, preparar alimentos, comer pizza no sofá e jogar Candy Crush no smartphone, e
- Um cérebro altamente desenvolvido e que nos dá o maior artifício que a evolução (sim, a evolução!) já nos proporcionou: a consciência.
Se você assistiu Westworld (HBO) deve lembrar-se da maravilhosa cena em que o personagem de Anthony Hopkins (Dr. Ford) descreve o “segredo” na obra mais famosa de Michelangelo — A Criação de Adão — à personagem de Evan Rachel Wood (Dolores).
Atrás da figura do deus Cristão, vê-se claramente o formato de um cérebro humano. “A mensagem sendo a de que o presente divino não vem de um poder maior, mas sim de nossas próprias mentes,” diz Ford à Dolores.

A consciência é o que nos torna poderosos. É a linha que separa estímulos e instintos de emoções e comportamentos planejados. Ela nos possibilita evoluir e viver em sociedades organizadas (na medida do possível).
E assim, então, somos conscientes. Diferentes dos androides de Westworld, tomamos nossas próprias decisões com responsabilidade e raciocínio organizado, com sentimentos bem ordenados e também com plena noção das situações em que nos encontramos, das consequências de nossas ações e do que é melhor para nós mesmos… Certo?
O problema é que ainda somos estúpidos. Somos homo sapiens de mais de 200 mil anos e ainda fazemos merda. Não se sabe exatamente em que ponto da evolução da raça humana surgiu a consciência, porém, como homo sapiens, temos 200 mil anos e ainda não nos conhecemos. Botamos o homem na lua, fizemos TV’s com milímetros de espessura e conseguimos clonar formas de vida a partir de DNA, mas não sabemos quem somos, às vezes.
Ainda agimos em muitos momentos como pessoas diferentes de nós mesmos. Vamos atrás da opinião dos outros. Fazemos coisas das quais não gostamos para satisfazer outras pessoas. Não reconhecemos os nossos problemas, sofremos quietos e até ficamos doentes por isso. Ignoramos o que nossos instintos nos dizem. Veja isso! Desenvolvemos e abraçamos a consciência — essa criança mimada, narcisista e que toma toda a nossa atenção por nunca parar quieta — , e deixamos o instinto — o senhor sempre alerta, arcaico, imponente que sempre olhou por nós — de lado.
Sinto dor de dente e ainda fico enrolando dias e dias para ir no dentista e resolver isso. Tenho ciência de que estou machucado e de que a dor (que é uma das ferramentas do instinto) me diz que há algo de errado com meu corpo. Ora, se a consciência é um poder maior e mais evoluído que o instinto, não deveria eu ter noção de que estou sendo burro em não ir ao dentista? E se fosse controlado apenas pelo instinto, como um “animal inferior” o é, não iria eu, assim que sentisse dor, tentar recolher-me para curar-me da dor? Poderíamos dizer, talvez, que a consciência é a sabotadora do instinto?
Pode ser que 200 mil anos seja pouco tempo para evoluir. Que estamos, ainda, em um “meio termo” dessa evolução — que uma raça de consciência mais evoluída e preparada esteja ainda por vir. Mas me indigna um pouco que haja 200 mil anos de evolução homo-sapiens antes de nós, e ainda não aprendemos completamente várias coisas que deveriam ser básicas, como a lidar com nossas diferenças, manejar as consequências de nossas decisões, entender que guerra é estupidez ou simplesmente amarmos a nós mesmos.
Repito que a consciência é o nosso maior poder. Entretanto, se a raça humana fosse um personagem dos quadrinhos, ela seria o jovem Peter Parker — ingênuo, sonhador, instável — recém descobrindo seus poderes de Homem Aranha. E, como lembra o seu eterno Tio Ben, “com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades”. Deveríamos ser o Tio Ben nessa história, mas ainda não chegamos lá.
Somos os responsáveis por esse planeta. Somos os adultos. Somos a sociedade dominante. Imagine agora se alguma raça “inferior” a nós, algum animal, desenvolvesse o início do que pudesse ser uma consciência ativa, como a nossa. Esse animal nos veria como um Tio Ben. Como um guia ou um mestre. Alguém que sabe o que está fazendo e que “poderá me ensinar sobre isso tudo que estou pensando e sentindo”, pois, “hey! Vocês estão fazendo isso há 200 mil anos!”
Mas não. Ainda somos Peter. Deveríamos ter mais controle sobre nossas ações. Deveríamos saber identificar quem são os vilões e quem são os mocinhos da História. Deveríamos saber mais sobre os impactos que causamos. Deveríamos conseguir admitir nossos problemas mais facilmente — eu demorei demais para conseguir admitir que um dos meus é algo real. Ainda nos importamos tanto com coisas tão pequenas. Ainda temos tanta vergonha de bobagens. Pensamos demais e sofremos por antecedência com paranoias que muitas vezes não fazem sentido e, assim, acabamos perdendo o presente.
Por que fazemos isso? É por falta de capacidade evolutiva ou simplesmente por não nos conhecermos de verdade? Nossa mente ainda é um mistério tão grande… O que é, para começar, a mente? Existe alma? Existe espírito? Será que vivemos em uma espécie de Matrix? Será que não fomos programados por uma raça alienígena?
Não sei.
Aliás, a máxima grega que abriu esta quinzena do Centro foi “Conhece a ti mesmo”, porém, acho que mais de dois mil anos depois ela ainda é muito utópica. Encerremos, portanto, com uma outra mais realista:
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