A internet é hipócrita

Carolina Dieckmann e José Loreto são atores globais que tiveram, de formas diferentes, conteúdos íntimos vazados na internet. A atriz teve seu computador invadido por um suposto hacker, que divulgou cerca de 36 fotos da artista pela rede. O caso foi o estopim para a sanção da lei que leva o seu nome e sobrenome, que prevê multa e detenção de três meses a um ano a quem “invadir dispositivo informático alheio”. A pena pode chegar a dois anos de reclusão caso exista agravantes. Já Loreto teve um vídeo íntimo espalhado em inúmeras plataformas (Twitter, grupos do Facebook e afins). Segundo o ator, o conteúdo é autêntico e foi gravado há uma década. Entre os dois casos, há um vácuo temporal de cinco anos: o de Carolina ocorreu em 2012, e o de Loreto, em 2017.

Em 2012, época da assinatura da lei Carolina Dieckmann, podemos pensar que a internet era “terra de ninguém”, em que todos faziam o que bem entendiam e as punições não eram motivo da insônia de brasileiro algum. Ao passar dos anos, entidades e órgãos públicos vêm trabalhando para frear essa tendência e agora, em 2017, há jurisdição clara sobre os crimes cibernéticos. Entretanto, como percebemos, isso não é suficiente para impedir que, dia após dia, mais pessoas sejam expostas na rede. O que a internet e seus usuários aprenderam sobre a divulgação de fotos íntimas alheias desde 2012? Arrisco a dizer: nada.

Não é raro lermos notícias sobre suicídios ocasionados pela exposição de conteúdo íntimo sem consentimento. Na maioria das vezes, são indivíduos do gênero feminino que cometem o ato, como forma de sanar a vergonha que sentem ao ver um momento de intimidade sendo comentado, compartilhado, reagido e retweetado por toda a sociedade. O chamado revenge porn (ou pornografia de vingança, em português), é mais uma das facetas da violência de gênero e é, normalmente, como os conteúdos são disseminados.

Conforme dados de 2015 levantados pela ONG Safernet, em dois anos, o número de vítimas de vazamento de fotos íntimas quadruplicou.

Somos hipócritas. Eu sou, você é, seus amigos são. O caso de Loreto, citado acima, deixou isso bem claro: o vídeo do ator passou por milhares de grupos que lutam pela causa LGBTT. Links pipocaram nos comentários e nas caixas de entradas de todos. Ora, se o movimento LGBTT luta para conseguir mais respeito, equidade e fim do preconceito, como seus integrantes podem desrespeitar uma pessoa só porque a sua vida é considerada pública? Um ator de novela está livre de sofrer vergonha, depressão e ansiedade? Ele está livre de tentar cometer suicídio?

A internet pode ser muito cruel. O que já existiu no ambiente online não pode ser excluído permanentemente. Tudo fica armazenado em algum lugar: nuvens, pastas do computador, screenshots (capturas de tela, que podem ser feitas em diferentes dispositivos), arquivos de email etc. Mesmo que se apague uma foto da própria conta pessoal do Instagram em cinco minutos, milhares de pessoas podem tê-la salvo. Dessa maneira, não há como fugir.

O que podemos (devemos) fazer, é repreender atitudes como essa, seja no grupo do Whatsapp ou Facebook, no grupo do futebol das quartas-feiras ou no grupo do barzinho de todas as sextas. Não é “só mais uma pessoa sendo exposta”: é uma pessoa que tem sentimentos. É uma vítima (assim como o seu amigo que vaza os nudes é um criminoso). Espero que, algum dia, possamos viver num mundo em que casos como o de Carolina e José deixem de existir.

Assim como o meu próprio caso. Acredite: não é fácil.