Em busca da própria voz

A liberdade e o poder de autodeterminação

Ser senhor do próprio destino não é tão simples. Afinal, é preciso conciliar a nossa liberdade com as exigências cotidianas da vida, com os interesses alheios e com as nossas próprias e mundanas precariedades.

Tal é a minha admiração por Nina Simone que não pude deixar de assistir ao documentário de Liz Garbus, no qual a vida da cantora e ativista estadunidense é primorosamente dissecada e revelada. O filme é delicado e a personagem, brutalmente grandiosa. Em tempos de seriados de, no máximo, 45 minutos, o longa vale as quase duas horas em frente à TV. What Happened, Miss Simone? (2015, 101 min) não se detém tanto na obra musical da artista, mas na sua personalidade atribulada e na sua busca incessante por uma identidade e um propósito autêntico de vida. Os depoimentos da filha, Lisa Simone, do ex-marido e empresário, Andrew Stroud, e da afilhada, Attallah Shabazz (filha de Malcolm X), ajudam a reconstruir os fragmentos da história. Segundo consta, Nina foi uma das únicas cantoras negras a ter coragem de confrontar com veemência a sociedade racista norte-americana nos tempos da segregação. Vendo o filme, fica fácil entender por que a sua carreira foi do apogeu ao declínio.

No mundo dos meros mortais como nós, não é preciso ser radical para ser gênio, mas é preciso ser livre, e liberdade não aprecia convenções. Por essência, a liberdade é politicamente incorreta. Quebra tabus, constrange a audiência. A liberdade é subjetiva. Contraria o bom gosto e o bom senso. Não tem bons modos, não se veste bem e tampouco se importa com o que os outros vão pensar. Ser completamente livre traz um ônus que poucos ousam pagar. Nina pagou com sua música e deixou a plateia devendo.

Quando questionada sobre o que significa “liberdade” no especial Nina: A Historical Perspective (1968, 23 min), dirigido por Peter Rodis, a cantora norte-carolinense sugere um curioso paralelo entre coragem e liberdade. “É apenas um sentimento”, começa. “Como você explica o que é estar apaixonado? Você vai explicar para alguém que nunca se apaixonou como é amar? Não tem como (…) Você consegue descrever as coisas, mas não dá pra dizer como é. Mas você reconhece quando acontece. É isso que entendo por ‘liberdade’. Vivi momentos no palco em que me senti livre de verdade. E é algo de outro mundo! Olha, vou te dizer o que é liberdade pra mim: não ter medo! É realmente não ter medo.”

Nina reproduzia sua efervescência musical a qualquer momento e sobre qualquer piano que estivesse à frente, fosse num bar de quinta ou no Carnegie Hall, em Nova York.

Seria a liberdade a antítese do medo? Por definição jurídica, ser livre é poder exercer a nossa vontade dentro dos limites que nos faculta a lei. Pelo dicionário, é a condição de não estar submetido a qualquer força constrangedora física ou moral. Pergunte a uma criança e ela lhe dirá que liberdade é passar a manhã inteira no recreio. Para um jornalista, será o direito de escrever sem constrições editoriais. Para um casal, pode ser abrir a relação e experimentar com outros parceiros. A liberdade, em outras palavras, não é tanto o poder de escolha entre vários possíveis, mas o poder de autodeterminação, dando a si mesmo as regras de conduta.

Foi exatamente isso que Nina Simone fez. Venceu parte das ansiedades que a paralisavam e estabeleceu o seu modus operandi a despeito de todos, inclusive da própria família. Se Nina tivesse sido discreta e atenta às convenções sociais (e raciais) de sua época, seu nome não seria mundialmente reconhecido. Ela jamais foi uma artista burocrática, dessas que trabalham das oito às cinco. Nina reproduzia sua efervescência musical a qualquer momento e sobre qualquer piano que estivesse à frente, fosse num bar de quinta ou no Carnegie Hall, em Nova York. Era uma mulher solta, que não tinha amarras nem ninguém a quem prestar contas — a não ser o marido abusivo. Livre no palco, mas presa dentro de casa. Terá sido uma mulher realmente livre e sem medos?

Dizem que todo artista é louco. Se loucura e liberdade forem irmãos, então Nina é o corolário dessa afirmação. Cantar, compor, militar e buscar a própria alforria, tudo isso requer uma imersão num universo imperscrutável, o da nossa inconsciência. E lá dentro não existem normas ou leis, apenas feeling. Quanto mais domesticada for a nossa irreverência natural, menos livres e autênticos seremos. Ser senhor do próprio destino, porém, não é tão simples. Afinal, é preciso conciliar a nossa liberdade com as exigências cotidianas da vida, com os interesses alheios e com as nossas próprias e mundanas precariedades.

Imortalizada na inconfundível voz de Nina, a canção “I Wish I Knew How It Would Feel To Be Free”, de Dick Dallas e Billy Taylor, traduz a complexidade desse sentimento. A liberdade enquanto força transformadora é o que torna real o que era apenas latente como possibilidade. “É o que faz surgir uma obra de arte, uma obra de pensamento, uma ação heroica, um movimento antirracista, uma luta contra a discriminação sexual ou de classe social, uma resistência à tirania e a vitória contra ela”, argumenta a filósofa paulista Marilena Chaui. Sejam quais forem os grilhões que nos imobilizam, a verdade é que todos alimentamos o nosso espírito livre em busca da nossa própria voz.


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