Medos covardes

As pupilas dilatam-se e o coração bombeia o sangue para os músculos. Glicose e adrenalina são liberadas na corrente sanguínea para prover energia à situação de luta ou fuga. O cérebro fica hiperalerta: a fisiologia apronta o ser para o perigo iminente. Respiração e batimentos cardíacos aceleram-se. O corpo e a mente preparam-se para um cenário de vida ou morte. A apresentação de slides é aberta e o suor agora corre também pelas mãos. A lembrança do conteúdo do trabalho causa uma sensação de mal-estar e a visão do inquisitivo público de estudantes e professor dá uma forte vontade de cagar, dado que o corpo parou de peristaltar e diminuiu a atividade digestória. Vida ou morte — valendo até quatro pontos no semestre.

“O Grito”, Edvard Munch (1893)

Não são engraçadas as contradições que a Civilização cria? O medo é uma sensação naturalmente herdada por nós após milhares de anos de uma Seleção Natural que pouco a pouco evoluiu nossa espécie, tornando-a cada vez mais apta para a sobrevivência em um mundo hostil. O que significa que o desenvolvimento, a muito custo, de complexas reações fisiológicas inatas de luta-ou-fuga frente a uma ampla gama de estímulos mortalmente ameaçadores, após violentíssimas mortes e desgraças sofridas por nossos ancestrais, serve, hoje, entre outras coisas, à utilidade prática de me dar crises de ansiedade toda vez que penso em segundas-feiras. E isto no lugar de se preocupar com cobras ou animais selvagens. Redefinimos a hostilidade do mundo.

Medo do desemprego, da criminalidade ou de imigrantes; medo de ser rejeitado pel@s crushs, de falar em público, de rodar em uma prova, de ser ignorado nas redes sociais — são pavores mais confortáveis que o de ser surpreendido por uma alcateia de lobos famintos no meio de uma noite de sono, convenhamos. Nossos temores se rearticulam conforme nossa sociedade se rearranja, e os pânicos que temos dizem muito sobre as sociedades que criamos e as pessoas que somos.

O conforto abranda os terrores possíveis. Surge o medo de se sentir medo. Sofre-se por antecipação — nasce a ansiedade, vêm as crises de ansiedade, depressão, remédio. Em um background de uma classe média urbana, a qual suponho ser a categoria do leitor (por inferência estatística), os temores são transpostos à selva de pedra e banalizados segundo as necessidades socioeconômicas impostas. Não há cobras, leões ou outras ameaças mortais às nossas vidas a perambular as cidades, por isto precisamos de grandes narrativas que supram o vazio de um objeto de ameaça. Contudo, a ameaça é sempre mantida distante: o medo covarde não permite proximidade com o que o amedronta.

Ainda somos os mesmos hominídeos assustados. Basta o abrupto som de um copo que quebra na cozinha para ativarmos nosso modo de sobrevivência; e ouvir um grito humano é mais que o suficiente para gerar inúmeras respostas fisiológicas. Ao sobreviver em um meio tão inter-relacionado com outros indivíduos, nossos temores frequentemente são usados contra nós, e conhecê-los é uma maneira de desarmar aqueles que buscam nos coagir usando aquilo de primitivo que, apesar de o termos esquecido, é a maior parte de nós.

Você tem medo de quê? 
Eu ainda temo as segundas-feiras.

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