Não deixe de se ouvir

O papel na minha mão me fazia suar frio. Ao meu lado, Carol me dizia que não entendia o que podia dar errado. Era uma nova oportunidade, uma chance de conhecer novas pessoas em um novo estágio. Eu só precisava reunir os documentos necessários, assinar o papel e avisar minha atual supervisora que estaria saindo do escritório. Porém, eu estava suando frio. Meu coração batia mais rápido. Os pensamentos estavam desordenados e uma voz ecoava na minha cabeça: “Não saia de onde você está. Jogue a folha no lixo. Esqueça.”. Em conjunto, eu sentia que o futuro próximo me reservava algo. Dois dias depois, mandei e-mail para quem seria o meu supervisor agradecendo a proposta e amassei o papel que encaminhava a bolsa de estágio.
Uma semana depois, minha supervisora me convidou para uma viagem pelo interior do Rio Grande do Sul. Seria a minha primeira oportunidade de viajar como repórter e conhecer lugares que nunca tinha ido antes. Obviamente, aceitei na hora.
Por muito tempo, reneguei minha própria intuição (ou sexto sentido, como preferir chamar). Não escutava essa “voz” que vem do interior e diz exatamente o que você deve (ou não) fazer. Achava que fosse besteira, pessimismo. Era impossível que eu conseguisse, de alguma forma, prever o que iria acontecer. A vida é cheia de possibilidades, não é?
Escuto muitos relatos de pessoas diferentes que dizem exatamente a mesma coisa: essa voz nos orienta. Ela nos mostra o que devemos fazer. Pode ser mais alta ou mais baixa: depende do quanto você se conhece. Porque, na verdade, ela é só uma representação de nós mesmos. É papo de gente louca? Pode até ser. Mas não consigo contar quantas vezes deixei de me escutar e só me arrependi.
Nessa quinzena, não trago nada de muito profundo, como se vê. Creio que autoconhecimento seja tão pessoal que se torna difícil escrever algo que valha para outras pessoas. Entre as várias coisas nas quais entendo que melhorei nos últimos tempos, essa é a maior: aprendi a me escutar. Não é um processo fácil, não. É necessário muita paciência para entender os vários vieses que habitam dentro da gente. Se eu posso deixar um conselho, é esse: conheça-se mais, permita-se mais, escute-se mais.

