O amor nos tempos de individualismo

Por que atribuímos aos relacionamentos amorosos tamanho peso ao avaliarmos quão felizes estão nossas vidas? Decerto, há uma busca incessante por algo no outro que, de alguma maneira, completaria-nos e nos traria à plenitude. Às vezes, há vidas pautadas nesta procura por envolvimentos amorosos, tão rápidos quanto os próprios finais de semana. Dado que a semana é de trabalho, esta inconveniência da existência, os fins de semana são legados à busca pelo prazer e pelas tantas sensações que os dias úteis roubaram, isto é, aos aparentes amores, os refúgios do cotidiano.

Imagem dos céus, por CALTECH.

Hoje, os tempos de individualismo revelam uma predileção sombria pelo hedonismo: o prazer no cerne da felicidade, das realizações individuais. Como se por quanto mais prazer eu sentisse, mais feliz eu fosse — visão que tornaria as clínicas de reabilitação redutos de pessoas realizadas. Que às relações amorosas — namoros, crushes, ficantes — atribuem-se as funções centrais de felicidade (dos prazeres), em meio a uma sociedade de consumo que privilegia as sensações associadas aos seus múltiplos produtos à disposição, torna-se digna de consideração a possibilidade de que tais relações amorosas tornaram-se elas, também, produtos — relações que se regem segundo as lógicas do mercado.

Eis o amor-consumo: investimos, consumimos, descartamos e, às vezes, até reciclamos (como o fazem os ex-namorados). Subserviente ao prazer, o amor-consumo observa princípios econômicos: critérios de padrões de beleza determinam a oferta e a procura, nos quais mesmo nossa própria aparência requer trabalho — o tempo e esforço com a maquiagem, a moda, a academia. Vendemo-nos uns para os outros na bolsa de valores das paixões, na linha direta de Bauman, líquidos, sem durabilidade, num fast-food amoroso — faz-se o pedido, somos consumidos rapidamente e depois jogados fora.

E o amor nisto tudo? Ele nada tem a ver com prazer ou consumo — ele é sólido, deixa marcas, causa luto e sofrimento. Não é amor, a menos que estejas disposto a sofrer pelo objeto amado. É muito fácil encarar o mundo como um parque de diversões, descompromissado de corpo e alma, em consonância à efemeridade e fragilidade das nossas próprias vidas e existência: hemos todos de desaparecer, nossa sociedade, mesmo nosso universo, dizem os cientistas, sumirão tão rápido como vieram à luz; por que não, então, levar nossas relações como tal? Estaríamos aqui para curtir.

Por isto, nos tempos de individualismo narcísico e hedonístico, e à luz da fragilidade de nosso próprio ser, o amor é ato revolucionário. Amar é eleger um ser, e dotar a ele o sentido da nossa própria existência, é dar preferência a um, em detrimento de todo o resto (e por isto, em minha polêmica opinião, “poliamor” significa não amar coisa alguma). Em meio à indiferença do mundo, damos a algo qualquer todo o sentido que o mundo precisa.

Não é de se estranhar que ao se falar de amores, portanto, em meio aos individualismos narcísicos, entende-se a palavra como sinônimo de parceiros, namoros, sexo — todos dimensões do prazer. Não se pensa no amor dos pais, que tanto se sacrificam pelos filhos, ou mesmo no dos revolucionários que morreram por seus ideais. Por que as dimensões trágicas — e, arrisco, verdadeiras — do Amor, são ignoradas em nome do amor-consumo? O mais ínfimo, descartável e pequeno de todos?

Amar, ao contrário do que o prazer exige, é um ato de renúncia, às vezes, de sacrifício. Algo muito além do que qualquer individualista é capaz de dar no lugar de seu vil deleite.