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O ativismo nas redes é importante?

A primeira vez que eu senti gás lacrimogêneo entrando nos meus olhos, nariz e boca foi em 20 de junho de 2013, uma quinta-feira chuvosa em Porto Alegre. O Brasil vivia o ápice daquele mês de grandes manifestações que tiveram como grande impulso a luta por melhores condições no transporte público e pela redução no preço das tarifas de ônibus. Todos acompanharam. Muitos não entendiam o que estava acontecendo. Nem os ditos especialistas sabiam o que o país estava vivendo. Eram milhões nas ruas. As pautas começaram a se diversificar. Naquela quinta-feira em Porto Alegre, como uma repetição de outros atos, a Brigada Militar reprimiu fortemente, com sua força habitual, manifestantes que estavam na linha de frente e tentavam avançar o bloqueio feito pouco antes da sede do Grupo RBS, na avenida Ipiranga. Levei gás mesmo estando a mais ou menos 300 metros de distância. Os protestos seguiram por mais algumas semanas. Aos poucos, foram perdendo força e hoje são um capítulo da história recente brasileira ainda em processo de desvendamento.

Essas manifestações alertaram pesquisadores do campo da comunicação para a organização de eventos políticos a partir dos sites de redes sociais. Estariam, talvez na primeira grande manifestação de força aqui no Brasil, as redes digitais fazendo parte do nosso contexto social e demonstrando capacidade suficiente para organizar e mobilizar multidões, construir narrativas paralelas às da mídia de massa, reverberar diferentes tipos de mensagens e conteúdos, entre outros pontos. Era no Facebook que as manifestações se organizavam. Foi no Twitter que muitas fotos, vídeos e relatos sobre os atos se centraram, na maioria dos casos apoiados em hashtags, o que impulsionava as publicações e nos colocava entre os assuntos mais comentados do mundo naquela rede.

Somada a essa capacidade das redes digitais de serem mecanismo de organização de grandes atos políticos, há o ativismo dentro das próprias redes. Caberiam, a partir disso, dois textos distintos sobre: o ativismo “tradicional” — de ir pra rua, levantar um cartaz, gritar, participar de passeatas — organizado a partir dos sites de redes sociais; e o ativismo que ocorre e se estrutura dentro dessas próprias redes, chamado por muitos de “ativismo de sofá”. Vou tentar mesclar as discussões sobre ambos porque acredito que elas podem interpenetrarem-se.

A sociedade em rede

O sociólogo espanhol Manuel Castells é uma sumidade quando o que está em pauta é discutir as relações da sociedade com e pelas redes. Ele é leitura quase obrigatória. Um dos seus livros mais citados em pesquisas de comunicação é Redes de indignação e esperança: movimentos sociais na era da internet (2012). O simples e curto prefácio do livro já nos dá a dimensão de como ele entende esses processos organizacionais a partir da internet, formando uma sociedade hiperconectada: “compartilhando dores e esperanças no livre espaço público da internet, conectando-se entre si e concebendo projetos a partir de múltiplas fontes do ser, indivíduos formaram redes, a despeito de suas opiniões pessoais ou filiações organizacionais. Uniram-se.

A professora e pesquisadora Maria Clara Bittencourt, que coordena o grupo de pesquisa do qual faço parte na Unisinos, fala em midiatização do ativismo. Em um artigo que analisou especificamente o ativismo em rede no caso das manifestações de 2013, ela tensiona o pensamento sobre “como narrativas colaborativas sobre os protestos no Brasil, inseridas em um contexto de midiatização, são marcadas pelo ativismo e como são potencializadas por práticas de espalhamento e convergência”.

Não quero, aqui neste texto — que tem por objetivo ser claro, direto e estabelecer questionamentos — fazer uma narrativa científica e tentar analisar a fundo, sob vários vieses, esse processo em constante mutação. Mas enquanto seres conectados e hiperconectados, enquanto consumidores de conteúdos espalhados pelas mais diversas plataformas que a internet proporciona, enquanto produtores de conteúdo, precisamos estabelecer certos questionamentos e conexões para entendermos o cenário digital no qual estamos inseridos. Isso em processos de produção, consumo como usuário passivo e usuário que estabelece interações.

Facebook, Twitter e outras plataformas como alternativa à mídia de massa

O ativismo em rede se reconfigura a todo instante devido a novos recursos e plataformas que permitem a disseminação de uma mensagem. Hoje, no Facebook, há uma infinidade de páginas e grupos que visam o ativismo. No Twitter, praticamente todos os dias uma hashtag serve como meio impulsionador de determinada campanha ou bandeira. No YouTube, canais das mais variadas formas se consolidam como produtores de conteúdo e disseminadores de mensagens de maneira alternativa às visibilizadas pela mídia de massa. É o ativismo estruturado a partir dos sites de redes sociais, de blogs, sites, etc.

Esse ativismo é eficaz? É capaz de transformar contextos sociais? Se coloca como complementar ao ativismo tido como tradicional? Nos movimentos que pude perceber até agora, e com base nas coisas que li, digo que sim. O ativismo digital tem se consolidado como importante ferramenta possível de alterar realidades, defender bandeiras, moldar comportamentos, marcar posição. O curtir, comentar, compartilhar e postar não pode ser visto como movimento preguiçoso e menos importante. Por vezes, inclusive, a mensagem transmitida pode atingir muito mais pessoas e chegar ao alvo de maneira mais rápida do que as formas de ativismo que conhecíamos antes da sua estruturação na internet.

Essa rede de produção de conteúdo se transforma num grande campo alternativo de circulação de informações. As mensagens passam a chegar ao receptor de maneira muito mais clara e transparente. Isso porque se sabe, de antemão, o propósito de determinada pessoa ao chamar, por exemplo, uma ocupação de invasão. Aos olhos de quem consome a mensagem, há uma clareza muito maior nesta produção de sentido, o que falta à grande mídia que, na maioria dos casos, traveste de isenta uma informação revestida de um alto grau de subjetividade. Por esses movimentos, inclusive, a mídia hegemônica perde a exclusividade da produção de conteúdo num processo constante e sem volta. A professora Maria Clara diz que “a atividade da mídia independente se dá durante a transição de uma visão de sociedade baseada nos meios de massa para uma configuração que extrapola o campo midiático.”

Nós, que estamos aqui produzindo e consumindo conteúdo no Medium, que fazemos questão de opinar nas redes, estamos, de certa forma, voluntária ou involuntariamente, fazendo parte de uma cadeia formada por diferentes tipos de ativismo. Há, como eu disse anteriormente, uma transformação constante em todas essas conexões. O livro do Castells, que também citei acima, é muito bom para entendermos a dimensão das manifestações em rede e a origem disso tudo, na Tunísia e na Islândia, em 2009. Quem tem interesse pelo assunto, indico muito a leitura. E há outros vários artigos, tipo o da Maria Clara e outros tantos da Raquel Recuero, que analisam casos específicos sobre os quais houve a incidência do ativismo digital.

Ativismo “de sofá” e de rua como se completando

Acredito que não devemos renegar ou rebaixar a uma categoria de subativismo o ativismo em rede. É possível enxergar uma complementaridade de sentido entre as mobilizações de rua e a das redes. Sobre isso, Castells comenta que “embora os movimentos tenham em geral sua base no espaço urbano, mediante ocupações e manifestações de rua, sua existência contínua tem lugar no espaço livre da internet”. E complementa: “essa estrutura descentralizada maximiza as chances de participação no movimento, já que ele é constituído de redes abertas, sem fronteiras definidas, sempre se reconfigurando segundo o nível de envolvimento da população em geral”. E aí segue.

Quando enxergarmos ou participarmos de grandes mobilizações nas ruas, greves, passeatas e tal, paremos para pensar no processo de construção daquele ato. Provavelmente as redes digitais tiveram papel crucial. E cada vez que uma hashtag, como a #meuprimeiroassedio, servir para impulsionar relatos e alertar a população sobre um determinado fato, tensionando mudanças num dado contexto, veremos que o ativismo nas redes é importante.

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