O Círculo

natália scholz
Jul 25, 2017 · 3 min read

Um tipo de leitura que me agrada muito é o gênero chamado distopia. Exemplos clássicos de distopias são Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, e 1984, de George Orwell (quem ainda não leu, favor providenciar na biblioteca mais próxima de sua casa). Uma obra mais recente na mesma linha é O Círculo, de Dave Eggers, que tem tudo a ver com a temática internet.

O Círculo conta a história de Mae Holland, a mais nova colaboradora de uma empresa de internet chamada “O Círculo”, que é a mais importante do mundo num tempo futuro não muito distante de hoje. No começo tudo são flores: o trabalho é interessante, as ideias inovadoras são sensacionais. Por exemplo, um projeto do Círculo consiste em contar quantos grãos de areia tem no Deserto do Saara. Importante? Talvez não. Mas isso mostra o tamanho do poder desse pessoal.

Outro projeto criado pelo Círculo consiste em mini câmeras espalhadas pelo mundo, permitindo que tudo seja visto e documentado de um modo extremamente discreto. O exemplo dado pelo personagem que apresenta a ideia é o de alguém que é surfista. Ele instala essa câmera perto da praia e, sempre que quiser, pode conferir se as ondas estão boas sem nem sair de casa. Outro uso poderia ser o de colocar um desses aparatos na casa dos pais e, uma vez ou outra, dar uma espiadinha para ver se está tudo bem. Por que não?

Assim o livro segue, com ideias cada vez mais intensas, até chegar em algo como uma lei da transparência: políticos que não têm nada a esconder colocam uma câmera no pescoço e transmitem absolutamente tudo que eles fazem ao longo do dia. Afinal: quem não deve não teme, né?

Adivinhem a reação do povo do Círculo ao ouvir essas ideias? “UAU! QUE GENIAL!” E nós, pobres leitores, ficamos cada vez mais “UÉ” e tensos, porque percebemos que ninguém, de fato, está refletindo sobre as consequências de ideias como essas (e quem está questionando, é anti progresso etc).

A questão é que O Círculo é assustador demais por ele demonstrar uma realidade que já vivemos hoje, especialmente devido à internet. Não quero demonizar a internet, muito pelo contrário. O que quero criticar — e até autocriticar — é sobre como às vezes falta um olhar mais observador e questionador das nossas ações nesse espaço.

A questão da privacidade é central na narrativa e podemos ver como isso está tomando proporções fora do normal nas nossas redes sociais. Quanta bobagem escrita, quanto check in inútil e conteúdos compartilhados para — vamos ser sinceros — inflar nossos egos com likes (e reações), comentários e etc. Tem muita coisa legal também, claro. Mas tem certas publicações que realmente não dá para entender. Coisas tão pessoais, que parece que estamos dentro da casa da pessoa, assistindo tudo de camarote. O Big Brother (lá de 1984) da vida real é dirigido por nós mesmos. E isso é muito assustador.

A verdade é que a internet é algo tão presente no nosso cotidiano, que é difícil ver os pontos negativos de seu uso. Nós ficamos fascinados com todas as possibilidades que as mais novas tecnologias nos trazem, que a primeira reação é “UAU!” e “#QUERO”. Mas é importante que a gente reflita sobre isso, que a gente aprenda a criar e a preservar a nossa privacidade num tempo de tanta informação. Constatação clichê? Com certeza! Porém, parece que nunca é demais bater nessa tecla.

Recomendo a leitura do livro para que cada um faça suas próprias interpretações e repense seu uso das redes sociais — ou não. Recentemente também saiu um filme baseado na obra. Ainda não tive a oportunidade de conferir, mas o longa conta com a atuação de Emma Watson, Tom Hanks e John Boyega. Dá o play no trailer para ter uma ideia! :)

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natália scholz

Written by

Jornalista brasileira perdida em Berlim.

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