Arti Hugenthobler, o “Seu Arti”, que proporciona contato com literatura e cultura para a população de Sapiranga desde 1956

O Livreiro e sua História: um bastião de cultura no interior do Rio Grande do Sul

Sessenta e um anos é bastante tempo. Para alguns, o tempo de uma vida. Para Arti Adolfo Hugenthobler, o “Seu Arti”, é o tempo em que tem se dedicado e se transformado em uma espécie de bastião da cultura — e em especial, da literatura — no município de Sapiranga, no Rio Grande do Sul. Seu Arti é dono do estabelecimento que hoje é conhecido como Livraria Presencial, mas que começou, em 16 de junho de 1956, como Casa Globo. A dedicação à cultura rendeu uma homenagem ao livreiro de 89 anos, no dia 26 de agosto deste ano, na Livraria Érico Veríssimo, em Porto Alegre.

Na mensagem que recebeu como homenagem, Seu Arti destaca duas palavras: lembrança e gratidão. “Como que em Porto Alegre sabem do meu trabalho? É por causa dos editores, dos livreiros, dos escritores, funcionários”, avalia seu Arti — que explica que, ao contrário do que se possa pensar, a relação entre livreiros é de colaboração. “Nós [na Livraria Presencial] temos uma planilha de interesse. Quando é solicitado um livro, vemos primeiro se tem em uma distribuidora. Se a distribuidora não tem o livro, procuramos uma livraria. Livros raros, atualmente, são assim. Quando uma livraria não tem, indica tranquilamente outra que pode ter.” Para a Presencial, conseguir livros de uma distribuidora é vantagem até para o cliente. “Se conseguimos na distribuidora, temos desconto e podemos dar desconto para o nosso cliente. Nossa livraria tem desconto quase como lei, não precisa pedir”, ele faz questão de deixar claro.

O livreiro, cuja relação com os livros antecede até mesmo a inauguração da Casa Globo, é também por si só, uma fonte inesgotável de conhecimento. Lembra das pessoas pelo nome, de anedotas e causos de décadas atrás, sem falar nas inúmeras obras que leu e consegue citar de memória. Ao contar sobre o crediário de clientes que mantinha na Casa Globo (“temos mais de mil pessoas fichadas”), ele se lembra de um caso curioso. “No endereço da época, tínhamos uma baita vitrine e de lá víamos tudo. De repente vi que o pessoal se juntou ali — uma pessoa tinha desmaiado. Ninguém conhecia o homem. Olhei e pensei, ‘conheço essa pessoa’. Ele olhou pra mim e me lembrei que tinha preenchido uma ficha dele, há não muito tempo. Veio delegado de policia lá, o homem desmaiado não tinha documento… me lembrei do primeiro nome dele. Fui lá dentro, peguei a ficha e mostrei ao delegado”, lembra.


Casa Globo, hoje Livraria Presencial

Seu Arti guarda até hoje fotos da Casa Globo, em seu antigo endereço no município sapiranguense

A livraria de Seu Arti já teve três endereços. Quando começou, como Casa Globo, era uma loja que vendia vários produtos, como porcelanas, talheres, e, é claro, livros. “Nossa primeira balconista era minha mãe, que faleceu com 101 anos”, lembra o livreiro, já deixando claro que os negócios sempre foram feitos em família.

Os livros, no início, chegavam a Sapiranga de ônibus. “Eu nunca dirigi, aprendi a dirigir no tempo de jovem, mas fiquei com medo. Pois quando era jovem os carros eram todos estrangeiros. Tinha medo de quebrar uma peça. Então, a Porto Alegre eu ia comprar os livros, de ônibus, e a Luciana [filha de seu Arti, que hoje mantém a livraria com ele] me buscava na rodoviária. Agora, com o falecimento da Íris [esposa de seu Arti], a Luciana dirige e busca os livros.”

“Quando vi que o negócio estava mais difícil, por causa da presença de grandes empresas, percebi que não ia dar certo, porque eles tinham crediário e cobravam muito juros e nós não. Eu já tinha me aposentado, então viemos pra cá [o endereço atual da livraria, que é Rua General José Antônio Flores da Cunha, 112, no Centro de Sapiranga] exatamente para colocar a empresa e já estávamos procurando outro nome para ela”, conta Seu Arti.

Foi então que em 1992 se mudaram para o endereço atual, e pouco depois a Casa Globo passou a se chamar Livraria Presencial.

“Presencial é um nome muito interessante, ‘Livraria Presencial, uma perseverante presença cultural’, era nosso lema, já diz muita coisa.”

Prestação de serviço cultural

“Com o falecimento da minha esposa — os sócios eram eu, meu filho Luis e minha esposa — hesitamos muito, até o momento em que iríamos fechar a livraria.” Arti cita os vários empecilhos que o fizeram pensar em fechar a Presencial, após o falecimento de Iris, que ocorreu em 2009: “Os problemas são muito sérios, no meu caso focais, inclusive”, diz, apontando para os próprios olhos. “A cultura é muito pouco valorizada, mas temos um leque de clientes fora de Sapiranga”, revelando assim seus motivos e meios para se manter, mesmo em uma época que pouco favorece a continuidade da tradição das livrarias locais.

“Representamos realmente um projeto cultural. Com grande desprendimento. Por quê? Estou aposentado, consegui me aposentar bem, porque contribuí muito bem. A Luciana tem formação em Nutrição, pela Unisinos e trabalhou um ano e meio no Hospital, tira pró-labore. Não temos aquela sofreguidão do lucro, é realmente controlado. No momento em que as coisas periclitarem e não der para cobrir o pró-labore para a Luciana, aí paramos”, diz Seu Arti, com muita tranquilidade.

Como bom colecionador de história e conhecimento, tanto cultural quando científico, Arti Hugentobler preza pela propagação da cultura ao seu redor. “Nosso serviço realmente é uma prestação de serviço na área cultural. Isso é percebido em Porto Alegre, justifica a homenagem que recebemos. Apesar dela ter sido destinada a mim, cada vez mais a Luciana tem participação. Ela entende muito de livros. Pode ir em qualquer livraria e teria emprego. Temos um conceito que é fácil de ser conferido com os livreiros em Porto Alegre, não só por presteza de pagamento, mas por amizade também. Aliás, não temos débitos com fornecedores hoje”, faz questão de afirmar.

Outra companheira de quem Seu Arti jamais esquece é Iris, sua esposa. “A perda dela... é como se faltassem três pessoas. De tanta coisa, tanta coisa... Ela foi assim, uma companheira de 50 anos. Em maio daquele ano fomos comemorar, só com a família em uma churrascaria, e em junho ela faleceu. Faz oito anos. Ela não teve dor, inclusive estou convencido de que ela não achou que estava morrendo, ela achou que estava doente”

Arti e a filha, Luciana Hugenthobler, que são hoje os responsáveis pela Livraria Presencial

Hoje, é Luciana quem se encarrega de buscar os livros em Porto Alegre para os clientes da Presencial. Desde 1991, ela está envolvida nos negócios literários da família. “Comecei pouco antes de abrir a Casa Globo no endereço atual. Meu pai perguntou se queria vir trabalhar com ele, quando decidiu como seria a Livraria aqui. É uma coisa que eu gosto, quase sempre ia junto com o pai quando ele buscava livros em Porto Alegre. A gente ia de ônibus, aí aprendi a ir nos lugares, a gostar disso. Depois a gente já tinha carro… meu irmão foi o primeiro que aprendeu a dirigir, que pode ir para Porto Alegre e o pai foi junto com ele. Depois eu também comecei a ir, fui aprendendo e hoje eu vou sozinha a Porto Alegre”, conta a filha de Seu Arti.


“Um eterno curso de autodidaxia”

Conversar com Seu Arti é reviver diversas histórias e adquirir uma miríade de conhecimentos. Não é por nada que na cidade ele é seguidamente chamado a dar palestras em escolas do município de Sapiranga e região. “Há poucas escolas em que não fiz palestras, em algumas delas, diversas vezes. Geralmente, é sobre a História de Sapiranga”. O livreiro lembra de quando, no final dos anos 60, ressurgiu um interesse sobre a revolta dos Mucker na região. “ Havia em 69 um projeto de filmar a história dos Mucker, que não deu certo, mas foi bastante falado. Em 73, veio um jornalista d’O Estado de S. Paulo, e aí saiu o filme, no final dos anos 70. Mas foram diversas palestras que fiz sobre os Mucker, e eu fui melhorando, pesquisando. Depois, fiz palestras sobre conhecimentos gerais e a História de Sapiranga, mais especificamente.”

Seu Arti tem, aliás, uma participação importante na passagem do jornalista Sergio Coelho por Sapiranga. Coelho foi a Porto Alegre e, ao chegar na Livraria do Globo e, acabou sendo direcionado para a então Casa Globo, em Sapiranga, onde devia falar com Arti Hugentobler.

“Ele me disse que queria fazer reportagem, mas não falava alemão. Mas demos um jeito. Quando terminou a reportagem, me perguntou quanto custava. Eu disse que só tinha um pedido: faz tua reportagem para chamar atenção de algum cineasta. Pois em 69 tinha um projeto de filme pronto.”

“Quando saiu essa reportagem, o Wolf Gauer, que foi o diretor do filme de 1978, estava se formando como cineasta e veio fazer um documentário na Amazônia. Os amigos dele no Brasil informaram ele da história dos Mucker e ele se interessou.” A reportagem d’O Estado de S. Paulo para a qual Seu Arti serviu de fonte consta no acervo virtual do Estadão. Em 2002, um novo filme, desta vez dirigido por Fábio Barreto, foi realizado, (levemente) baseado no livro Videiras de Cristal, de Luiz Antônio de Assis Brasil.

A reportagem feita pelo Estadão sobre o caso dos Mucker saiu em outubro de 1973
Na época, o jornalista se dirigiu à Casa Globo para falar com Seu Arti

Mas o livreiro deixa bem claro: não se considera um historiador. “Me defino assim: sou autodidata, consequentemente eu administro minhas fronteiras”, esclarece Seu Arti. Em uma de suas inúmeras palestras, a professora que o apresentou o chamou de historiador. “Disse à professora, ‘não sou historiador’. No momento em que se fala ‘historiador’, subentende-se que a pessoa tem diploma, né, que cursou a faculdade. Já o pesquisador, não. Então, sou autodidata pesquisador, porque faço pesquisas. Isso não sugere faculdade. Podes olhar no dicionário, autodidaxia é uma ciência. Então eu estou cursando um eterno curso de autodidaxia”, Seu Arti define aos risos.


História de vida que se confunde com a literatura

Hoje com 89 anos, Seu Arti começou sua relação com a leitura aos meros 14 anos de idade, quando foi admitido como auxiliar de escritório — “com carteira de menor”, explica. A empresa recebeu, em consignação, vários livros da Livraria e Editora Globo. “Na época Érico Veríssimo estava no auge. Tínhamos também clássicos internacionais, inclusive pockets já.” Ao montar o expositor com os livros, o jovem Arti recebeu vários questionamentos, sobre do que se tratavam os livros. “Eu não sabia — eu já lia, né, mas não conhecia. Então, na marra, eu desenvolvi uma forma empírica, não técnica, da leitura dinâmica, para mim. É difícil explicar, mas consegui. Assim desenvolvi minha leitura. Hoje faço minha leitura assim”.

As vendas de livros da Casa Globo começariam apenas em 1956, porém seu Arti já era vendedor de conhecimentos literários mais de uma década antes da inauguração de sua futura Livraria. “Em 45, comecei a vender a Revista Seleções. Naquele tempo era praticamente um livro: propaganda só tinha na contracapa, ou em uma folha, às vezes. Tinha vários clientes naquele tempo, na proporção da população de Sapiranga, tinha muitos”, recorda o livreiro.

As vendas de livros na Casa Globo (que aparece na foto que seu Arti está segurando) iniciariam em 1956

Seu Arti era revisteiro antes de ser livreiro. “Passei a vender outras revistas, como o Almanaque. Por algum tempo vendi O Cruzeiro também, mas não vendia muito, era muito difícil. Muitas pessoas compravam só para ver a charge do Amigo da Onça. Vendi a Revista do Globo, depois também vendi O Tico-Tico. Na época, tinha muitos clientes fixos”, lembra Seu Arti, notando que, quando começou a vender revistas, a Segunda Guerra Mundial não havia terminado ainda.

Cheio de histórias — e Histórias também, já que é capaz de oferecer recordações dos mais diversos períodos históricos pelos quais o Estado do Rio Grande e o Brasil passaram — para contar, Seu Arti se diz grato ao passar seu conhecimento adiante, como nas ocasiões em que é convidado a palestras em escolas da região. Quando é perguntado sobre a possibilidade de repetir o feito da mãe e viver até os 101 anos de idade, sorri e responde, prontamente:

“Eu procuro viver acrescentando vida aos meus anos, e não anos à minha vida. Tem um provérbio árabe bastante trágico, que diz assim: eu trabalho como se fosse viver eternamente e vivo como se fosse morrer amanhã.”