O medo nosso de cada dia

Entre reais e imaginários, os nossos temores nos acompanham até o último suspiro

Enquanto escrevo estas linhas, ouço vozes de jovens a protestar nas ruas. Sirenes ressoando estridentes, helicópteros sobrevoando nervosos a cidade, estampidos secos de tiros, bombas e gritos descompassados. Mais um dia histórico de manifestações em São Paulo.

Sitiados dentro de casa, a aflição de sair para o mundo lá fora. Seremos atingidos por alguma bala de borracha? Confundidos com algum manifestante mais radical, seremos detidos pela Polícia? O direito de ir e vir já não tem mais efeito. Perdemos a tranquilidade, ainda que a causa da greve geral, em muitos aspectos, se justifique.

Mas os temores não residem só no lado de lá. Às vezes, estão mais próximos do que imaginamos: dentro da nossa própria cabeça. Os anjos e demônios que povoam o nosso inconsciente são capazes de forjar a mais dura das guerras psicológicas que travamos conosco mesmos.

O medo de tomar injeções da infância vai, paulatinamente, dando espaço a outros temores na vida adulta: não passar no vestibular, pagar mico no primeiro encontro, morrer em um assalto, não conquistar a casa própria, perder os pais… Os nossos temores se sofisticam ao longo da vida e nos acompanham até o nosso último suspiro.

Quando crianças, temos medo de cair da árvore ou de torcer o pé correndo. Mal dormimos pensando no monstro embaixo da cama na calada da noite. Filmes de terror, histórias macabras compartilhadas no refeitório da escola. Tememos o dia da prova bimestral e nos angustiamos com a apresentação individual na frente da turma inteira. Receio de não saber a resposta, de dar mancada. Mãos a tremer, testa a suar frio. Será que o professor vai notar? Perderei pontos? Vão caçoar da minha cara?

Depois de certa idade, tais situações podem parecer esdrúxulas, infantis mesmo. Mas a sensação que nos faz acelerar o coração e criar imagens fantasmagóricas na cabeça permanece lá, quietinha e insidiosa, crescendo com a gente. O medo de tomar injeções da infância vai, paulatinamente, dando espaço a outros temores na juventude: não passar no vestibular, reprovar nalguma cadeira da faculdade, não conseguir entregar o TCC dentro do prazo…

Os nossos temores se sofisticam. Se antes receávamos o animal selvagem que pudesse atacar a nossa caverna, hoje tememos a quadrilha organizada que invada o nosso condomínio fechado. A aflição de sentir uma garota se aproximar da gente com segundas intenções aos 8 anos curiosamente se converte no contrário: a angústia de ser rejeitado aos 18 anos e acabar solteiro, sem pretendentes. Aos 7, o temor de se perder da mãe no shopping center ou ficar sozinho no escuro; aos 27, o pesadelo de conquistar a casa própria antes dos 30 ou de morrer em um assalto. Aos 50, o medo de perder os pais. Aos 80, o assombro da morte.

Somos um caldeirão de paradoxos. O mais curioso de tudo é que, mesmo adultos, muitos de nós ainda conservam as apreensões da infância. Há quarentões que sofrem ao fazer um exame de sangue. Há balzaquianas que se desconcertam no primeiro encontro com o bonitão do Tinder.

Mas o que dizer das crianças que crescem a ouvir — ou, pior, sentir — bombas sobre as suas cabeças na Síria? Ou das famílias de imigrantes que tentam cruzar o muro de Trump entre o México e os Estados Unidos? Ou da moça que sai à noite de minissaia e não deseja ser violada? Ou da transexual que só quer caminhar sem ser acossada? Ou do pai brasileiro que se inquieta por não ter emprego hoje para colocar o pão à mesa amanhã? Basta temer.

Os perigos que nos provocam essa ansiedade irracional ou fundamentada a que chamamos medo, no fim das contas, são nossos aliados na sobrevivência. Deixam-nos alertas, estimulam a nossa reação, impelem-nos a seguir adiante e encontrar alternativas nesse cenário caótico que insiste em nos rodear.

Nesse universo de incertezas, uma coisa é certa: a nossa inquietude cotidiana permanecerá. O que podemos fazer é transformar o medo em nosso aliado. Não lhe dar um peso maior do que realmente possui. Enquadrá-lo em uma moldura pequena até que fique minúscula. Pelejar contra ele e fortalecer a nossa autoconfiança, buscando rotas de fuga — sejam elas geográficas ou mentais. A dica que fica: Lutar sempre. Temer jamais.