Foto: Anderson Guerreiro

Pelo direito de amar

A cada 25 horas uma pessoa LGBT é morta vítima de LGBTfobia no Brasil. Somente em 2016 foram confirmadas 343 mortes por meio de pesquisa hemerográfica, ou seja, de acordo com o que foi noticiado por portais de comunicação. Nosso país mata mais LGBTs que 13 países do Oriente Médio e África, onde há pena de morte para a comunidade. Esses dados foram levantados pelo Grupo Gay da Bahia (GGB), um dos poucos no Brasil que tenta trazer dados sobre as atrocidades cometidas com essa parcela tão à margem que só quer ter o direito de amar e ser respeitada por sua orientação.

E falando em amar, é justamente isso o que me trouxe aqui. Junho é o mês do Orgulho LGBT. Mas, antes de mais nada, preciso fazer um adendo: eu gostaria de ter começado esse texto de uma forma bonita, falando sobre a diversidade, o respeito, a autenticidade de ser quem quiser ser sem julgamentos ou repressões. Infelizmente, não há como não atrelar LGBT a violência e acho importante que isso seja pautado, independentemente do assunto principal do texto. Agora, depois dessa pequena explicação, voltamos ao foco daqui: o amor.

Desde o período escolar, sempre tive contato com pessoas LGBT. Em sua maioria, gays. Meus melhores amigos daquele tempo são gays. Alguns estavam se descobrindo bissexuais. De maneira geral, sempre tive um contato próximo com a “comunidade do Vale”. E sempre lidei com isso de forma muito natural. Até porque, veja bem, é natural.

Com meu melhor amigo aprendi todas as músicas pop do momento. Cheguei a não gostar de Lady Gaga em 2009 de tanto que meu amigo falava sobre ela (hoje a letra de uma música dela ilustra a case do meu celular, que é uma das minhas prediletas da vida: baby, I was born this way).

Via os amigos falando sobre os namoradinhos, que na linguagem moderna podem ser definidos como “crushes”. E, no meio disso tudo, questionava-me muitas vezes sobre tudo. Sobre mim. Sobre o meu gostar.

“Por que raios foi definido que homem gosta de mulher e mulher gosta de homem?”

Passei muito tempo da minha vida me relacionando somente com homens. Após várias situações que me trouxeram questionamentos, percebi que sim, eu gostava de homens, mas não apenas de homens.

A letra B da sigla LGBT não é de biscoito, nem de bolacha, por mais que viva sendo invisibilizada. Assumi minha bissexualidade para mim, para amigos próximos, para pequena parcela da família que sei que entenderia, ou melhor, que aceitaria, ao menos. Milito. Falo abertamente sobre o tema, com alguns poréns. Em site de redes sociais, o cuidado é maior. Família é algo complicado. É difícil para muita gente entender que, pela lógica religiosa, possamos gostar de Adão e de Eva, ou ser homem e gostar só de Adão, ou ser mulher e gostar só de Eva.

E por mais que eu tenha destinado dois parágrafos deste texto para falar sobre mim (algo totalmente incomum), volto para a sigla como um todo. Aliás, mais um adendo: não estou falando sobre o T (transexuais, transgêneros e travestis) por estar tratando exclusivamente de sexualidade e não de identidade de gênero, mas acredito que em outra oportunidade poderei falar sobre isso.

Como já disse anteriormente, é difícil pensar em LGBT, por mais que o foco do texto seja amor, sem refletir sobre coisas ruins. Mas agora vem de fato a parte boa: a libertação que só o amor pode trazer. Seja no armário ou fora, namorando em casa ou não, solteiro ou de rolo, seja simplesmente pelo amor próprio, é libertador demais amar. E é lindo. A gente vai às nuvens quando ama alguém e/ou quando a gente se ama. E aliás, este deveria sempre vir antes daquele. O amor transforma. O amor une. Tudo na vida é movido por amor, seja qual for a pretensão. Aliás, o amor vai muito além de pensar em uma/um companheira/o. É a família, as/os amigas/os, colegas, pessoas que passam algo tão bom que só pode ser visto dessa forma.

E é isso que todo mundo merece. Poder amar. Quem quiser. Como quiser (pensando sempre de forma recíproca, claro). Sem preconceitos e repressões. Ser quem se é e poder expor isso ao mundo. Que possamos parar de morrer. Que possamos parar de sofrer violência tanto física quanto verbal e mental. Pode ser utópico, mas eu só quero que o amor vença.

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