Por uma sociedade sem dinheiro

De corrupção a conflitos domésticos, o dinheiro pode causar um tremendo mal-estar social

O dinheiro é carregado de significados simbólicos e sentimentais. Discussões a respeito de dinheiro nunca são sobre dinheiro. Encobertos pela fina poeira da altercação estão os nossos sonhos, nossos medos, nossas fraquezas e nossas precariedades.

Money, bufunfa, plata, cash. Fonte de felicidade e sinônimo de poder para alguns, razão de conflitos interpessoais e guerras mundiais para outros. Uma mera convenção para medir riquezas e trocar mercadorias e serviços. Esse símbolo a que resolvemos chamar dinheiro, tão antigo quanto a própria civilização, exerce um papel tão importante na experiência humana que, por vezes, esquecemos como seria a nossa vida sem ele.

O dinheiro, em certa medida, nos define. Determina como nos vestimos. O que comemos. Aonde vamos nas férias. Com quem nos casamos. De quais grupos sociais fazemos parte. Querendo ou não, ele influencia o que somos capazes de fazer com as nossas vidas. Ele nos distingue dos demais e cria barreiras socioeconômicas invisíveis, que separam o luxo do lixo. Em São Paulo, basta caminhar algumas quadras desde a República até Higienópolis, por exemplo, para perceber a gritante disparidade social provocada pela ausência (ou abundância) do vil metal.

Mas como pode um pedaço de papel — ou números frios em uma tela de computador — tomar as rédeas da vida em sociedade? Em que momento perdemos o nosso controle emocional e nos tornamos escravos dessa abstração?

Ao longo da história, o homem usou os mais diversos artifícios para reger as interações econômicas. Os astecas tinham o chocolate, os noruegueses empregavam o bacalhau seco na Idade Média e os antigos irlandeses — pasmem! — usavam mulheres escravizadas como moeda de troca. Sofisticamos o conceito e monetarizamos as nossas relações. Nos dias atuais, apareça o dinheiro em cédulas, moedas, cartões de crédito ou bitcoins, o certo é que ele continua a ser uma arma de conquista e manutenção do poder econômico, político e social.

Quantos de nós não nos escandalizamos quando lemos, no noticiário, os desvios bilionários perpetrados por políticos, autoridades e empresários para locupletar os próprios cofres? Propinas, suborno, sonegação fiscal, superfaturamentos, lavagem de dinheiro… todo um vocabulário que passou a fazer parte do nosso cotidiano. “Não existe ninguém no Brasil eleito sem caixa dois”, afirmou o empreiteiro Marcelo Odebrecht ao falar sobre os crimes financeiros praticados pelos partidos durante as eleições no país.

De todas as forças que regem a nossa relação com o dinheiro, a mais influente é a nossa história pessoal: o caldeirão de experiências da infância, adolescência e vida adulta que esculpiram os nossos gostos ao longo dos anos. Passamos uma vida inteira nadando em um mar de momentos que constroem os nossos sonhos e medos financeiros. Talvez tenha sido o problema de gastos excessivos com roupas da sua mãe, ou então o modo rígido de controlar as finanças domésticas do seu pai. Quiçá foi o interesse supérfluo da sua amiga por sapatos e baladas ou aquele vizinho rico que possuía vários carros na garagem, fazendo com que você se sentisse inferiorizado. Esses e tantos outros momentos criam nossas crenças individuais acerca do dinheiro.

Quando o seu parceiro reclama do preço do suco orgânico de framboesa que você resolveu comprar no St. Marche, ou da frigideira wok da Happycall com revestimento de nanopartículas de pó de diamante que custa mais do que uma passagem de ida-e-volta de São Paulo a Porto Alegre, um bate-boca se inicia. Para você, não é apenas a bebida ou o utensílio de cozinha. Estes são privilégios que representam estabilidade e sucesso. Eles te protegem. Eles te definem.

O dinheiro é carregado de significados simbólicos e sentimentais. Discussões a respeito dele nunca são sobre dinheiro. Encobertos pela fina poeira da altercação estão os nossos sonhos, nossos medos, nossas fraquezas e nossas precariedades.

Em vez de comprar, compartir, emprestar, alugar ou trocar. Somar em vez de subtrair. Uma tendência promissora entre a nova geração. A noção de posse, que nos permite o dinheiro, perde sentido em um ambiente onde informações e produtos se tornam obsoletos cada vez mais rápido.

Essa solução ilusória inventada pela humanidade para suprir boa parte das nossas carências físicas e emocionais é a fonte de todo conflito na sociedade. Alguns ironizam que o Brasil começou a dar errado quando os portugueses resolveram praticar o escambo com os índios. Discordo. Se o dinheiro, tal como o conhecemos, fosse substituído por essa transação sem moeda, numa perspectiva de economia colaborativa, possivelmente as relações sociais seriam mais pacíficas. Talvez o Brasil tivesse dado certo se tivesse sido construído em torno do compartilhamento de recursos humanos, físicos e intelectuais em vez de ter servido como colônia de exploração para enriquecimento da metrópole.

Em vez de comprar, compartir, emprestar, alugar ou trocar. Somar em vez de subtrair. Uma tendência promissora entre a nova geração. A noção de posse, que nos permite o dinheiro, perde sentido em um ambiente onde informações e produtos se tornam obsoletos cada vez mais rápido. Ter acesso ao que se deseja apenas durante o tempo necessário é uma escolha mais sustentável e que acarreta menores impactos socioeconômicos e ambientais.

Com tantas “crises” de que ouvimos falar, talvez o consumo sem dinheiro seja a melhor aposta para o futuro da economia global. Quem sabe assim evitamos aquela angústia pela manutenção do nosso status perante a sociedade, invertemos os fluxos econômicos de poder, redistribuímos os nossos recursos de maneira mais inteligente e, de quebra, nos poupamos daquelas questiúnculas e querelas domésticas que abalam as nossas relações familiares a troco de uns centavos quaisquer.