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Quando os corpos diferentes resolvem falar

Anderson Guerreiro
Aug 9, 2017 · 7 min read

Sempre me preocupa isso de dar opinião sobre as coisas. É muito perturbador o fato de falar sobre algo e, talvez, alguém tomar aquilo como verdade. Não sou especialista em nada a ponto de falar com uma imensa concretude sobre qualquer tema. O que faço aqui — e farei nos próximos escritos — é no máximo soltar algumas ideias e algumas percepções que tenho neste momento. O ser humano muito cheio de certezas me dá medo, me causa uma repulsa. E parece que nestes tempos em que vivemos, o normal é ter o que falar sobre tudo. Também não sei se me considero ponderado, radical.

Tenho tentado ler bastante. Ando vendo muitos vídeos sobre temas que me interessam e sobre os quais tem uma caralhada de gente falando de maneira muito legal. E de gente que vivencia, que tem um real conhecimento de causa; que fala das suas experiências e não de suposições. Essas pessoas são, para mim, referências. As opiniões dessas pessoas eu escuto de outra forma. As vivências de cada ser lhes permite falar com a sobriedade necessária que alguns temas exigem.

Ocupar e demarcar espaços

Felizmente, muitos espaços estão sendo ocupados por populações minoritárias que estão falando sobre si, expondo suas demandas, colocando suas comunidades e seus iguais nos debates que a sociedade precisa fazer, saindo da invisibilidade. A internet tem sido o grande palco onde essas vozes ressoam e encontram um público capaz de ouvi-las. Ao mesmo tempo, é nas redes digitais que há a grande negação do outro, da diferença, do viver destoando do meu modo de viver. E a externalização desse descontentamento transformado em ódio permeia todas as redes.

A gente precisa falar. Falar mesmo. Gritar às vezes. Num mundo cheio de certezas, temos que pelo menos semear a dúvida, tensionar pensamentos, estabelecer conexões.

E tem muita gente fazendo isso. Alguns espaços estão sendo ocupados para falar sobre os corpos “diferentes”, os que fogem do padrão heteronormativo, cisgênero, branco, de classe média. Na minha visão, cada milímetro de espaço ocupado por uma bicha, por um pobre da periferia, por um negro, por uma travesti, por uma mulher é importante. Os grandes acordos sociais, ao longo da construção da humanidade, baniram essas pessoas de quaisquer espaços de poder. Pense nas pessoas que têm poder à sua volta. A imensa maioria irá se encaixar no padrão hétero, cis, branco, classe média.

Ouvir, ouvir muito. Ler textões, ver vídeos, filmes, documentários. A gente vai se transformando internamente com base nas vivências dos tais corpos diferentes. Porque a sociedade trata de nos encaixar naquele padrão. Empurra nossas vivências para aquele padrão e, com isso, nossos entendimentos do que é certo e errado estarão também nesse mesmo padrão.

Parte dessa transformação interna vem do reconhecimento dos privilégios que temos. Preciso olhar para mim, para o meu corpo, para as minhas experiências, e entender que, em muitos casos, corroboro com mecanismos de opressão social. Em certos momentos, de maneira imperceptível. Apenas vivendo. É um processo de olhar para dentro, de me entender enquanto peça de uma engrenagem que roda de maneira conturbada e que deixa peças de lado. Quando nós fazemos esse movimento um tanto inverso, de olhar menos para os outros e mais para nós, percebemos que não somos seres estáticos. E não me refiro a mobilidade. Mas sim às transformações que temos enquanto seres humanos. Eu me transformo a cada dia. Tento evoluir. E retorno ao ponto da importância de ouvir as vivências da boca de quem as vive.

No texto anterior falei sobre a importância do ativismo em rede. E é nas redes digitais que se concentram a maioria das narrativas de pessoas que exercem esse olhar para si, às vezes nem tão profundo, por não haver a necessidade, e se veem enquanto corpos que destoam do padrão socialmente aceito. E, por isso, precisam reafirmar suas identidades, falar das suas diferenças.

Quando entendemos nosso local na sociedade

Desde de que me aceitei como homem gay, passei a me questionar sobre meu papel na sociedade. Sobre como vejo as pessoas. Sobre como me veem. Sobre o quão opressor sou em diferentes situações. E oprimido em outras tantas. E não é um processo fácil. Daí a necessidade de ouvir, de ler, de pesquisar. As desconstruções só ocorrem se nossa mente demonstra a capacidade de ser preenchida novamente. Eu acho que temos ouvido pouco. Sentimos uma necessidade muito grande de falar, mas não temos paciência para ouvir. Se alguém começa a falar algo, logo eu interrompo para relatar a minha experiência também. E a riqueza do ouvir, do se preencher com as vivências alheias, se esvazia num grande processo de silenciamentos.

As diferenças existem. Não foram criadas pela “geração mimimi”. Essas críticas ao empoderamento e às vozes dos corpos transviados, negros, femininos e afeminados, da periferia, vêm, geralmente, daqueles que ainda não conseguiram fazer esse movimento de entender o espaço e o papel que eles e os outros ocupam na sociedade. Falamos muito em diferenças. Mas o que é ser diferente? Neste caso, é a transgressão ao modelo tido como normal. Se há diferença, é porque algo não está seguindo um acordo social.

Dois momentos bem recentes na minha vida me fizeram crer na importância de falar sobre as diferenças. Em ambos falei sobre gênero e sexualidade. O primeiro foi na faculdade. Em meados de abril deste ano, o professor Clóvis Gedrat, da disciplina de Antropologia Filosófica e Comunicação, listou no quadro dez temas sobre os quais deveríamos tratar. Entre eles, Gênero, o que meu grupo escolheu. No dia 6 de junho, falamos por uma hora e meia sobre diversos pontos que norteiam as pesquisas de gênero, a militância e a violência LGBT, expomos vídeos, tentamos contextualizar. Foi muito bom porque, até então, esse tema não havia feito parte da minha caminhada na graduação. E eu sentia falta, assim como muitos colegas.

O outro momento foi na escola onde estudei no ensino médio. Minha professora de português, Caroline Salgueiro, que ainda dá aula lá, pediu para que eu fosse apresentar o mesmo trabalho para seus alunos do terceiro ano. Dei uma adaptada na apresentação e fui no dia 27 de junho. Vi jovens de 16, 17 anos estranhando aquele tipo de assunto ser pautado na escola. Ouvi questionamentos do tipo “tudo bem que morra um LGBT por dia no Brasil, mas quantos héteros morrem?” ou, então, “não posso ter orgulho de ser hétero?” Achei normais as provocações. Argumentei. Eles ouviram. Eu sentia que aquele debate incomodava um pouco. Era algo novo e nós falávamos sobre um tema que muitos crescem entendendo que é desnecessário de ser abordado. Naquela tarde tentamos mostrar que é preciso falar, tratar das diferenças e fazer com que nos questionemos sobre nosso local na sociedade. Esse é meu ponto central e foi isso que fiz questão de ressaltar o tempo todo para eles. Minha geração, os nascidos no começo dos anos 90, não tiveram acesso a este tipo de informação no ensino médio. Tardou a chegar em mim e em amigos que precisávamos entender o que era identidade de gênero e orientação sexual. E não precisa ser viado, sapatona ou travesti para procurar entender.

Um beijo pras manas que estão na linha de frente

Os espaços majoritários de poder ainda são ocupados por quem se enquadra naquele padrão heteronormativo, cisgênero, branco, classe média. Vai demorar um tempo, na minha visão, para que os corpos abjetos, como diz a Butler, estejam em pé de igualdade. E não se trata, aqui, de estabelecer um processo de competição, mas de aceitar que esses corpos transgressores da norma precisam lutar muito para estarem socialmente iguais. Por isso que eu acho importante quando alguém dessas comunidades fala. Por isso que eu acho tão foda a Pabllo Vittar divando num clipe de projeção internacional. Por isso que eu curto muito ver a Djamila Ribeiro falando no mundo inteiro sobre feminismo e negritude. Por isso que eu adoro assistir aos vídeos do Canal das Bee e perceber que muitos temas envolvendo a comunidade LGBT são ali problematizados. Por isso que eu acho foda demais quando vejo o Jean Wyllys batendo de frente com deputados machistas e LGBTfóbicos na Câmara.

Teria tantos outros exemplos.

A vida dos “diferentes” pode ser mais ou menos difícil. Até mesmo os corpos diferentes podem ser um pouco iguais e se adequarem à norma, voluntária ou involuntariamente. Se internamente sou diferente mas as externalizações do meu ser se adequam, de certa forma, às normas sociais, posso ainda ter um pingo de tranquilidade porque as forças opressoras não irão incidir de maneira direta sobre mim.

Encerro pedindo que a gente fale sobre as diferenças. Que falemos cada vez mais, que problematizemos mesmo. O tiozão homofóbico precisa entender que as piadas dele podem até ter tido graça um dia, mas que isso acabou. O cunhado machista tem que entender que minha irmã não é um objeto a seu pleno dispor. Sou um grande defensor das “tortas de climão” dos almoços de família. As desconstruções que queremos ver na sociedade precisam começar bem perto de nós. E desconstruir é, para mim, não só aceitar as diferenças, mas compreendê-las a fundo. A sociedade fará mais sentido para nós depois disso e, assim, poderemos trabalhar para que ela seja melhor.

Beijo no coração!

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Anderson Guerreiro

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journalist | porto alegre, rs

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